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crise dos 9 anos

Ser criança, meu filho, não é fácil. Enquanto você dorme, uma lagriminha escorre no travesseiro porque hoje você chorou com medo da morte. Tão pequeno e com medo de ir. Não só. Com medo que eu me vá, que a vovó se vá, que o papai se vá. Pela primeira vez, ao longo desses nove anos, você se deu conta que, uma hora, todos iremos. Como assim, se tudo parecia eterno? Você logo vai perceber, se é que já não percebeu, que daqui em diante está sozinho. Não, a mamãe não vai te deixar. Ficarei aqui pelo tempo que puder. Mas é que, quando você se machuca, por mais que eu cuide ou dê um beijinho para sarar, não posso sentir a mesma dor. E assim, quando você sofrer com o primeiro amor, eu posso até chorar com você, mas o que você sente é só seu. Nunca saberei ao certo o que se passa em seu coração. Com razão, você vai espernear e abraçar seu coelhinho de pelúcia como nunca, mas vai perceber que ele já não fala com você como antes. Vai começar a ver que o papai não é o homem mais forte do mundo. E vai ter medo do mundo lá fora. Vai até sentir saudades da infância, como sua professora ouviu você e uns amiguinhos comentando entre si dia desses.

Não, ser criança não é fácil. Mas é que tem uma hora que fica mais difícil. E não só para eles. Benvindos, pais, ao Rubicão. É assim que antroposofia chama a crise dos 9 anos (que, na verdade, chega um pouquinho antes, lá pelos 8,5). De repente, aquela criança fofa e carinhosa, que era só amor e elogios pra você, vira um pequeno ditador. “Mãe, onde é que você vai vestida desse jeito?” (o meu filho, com todas as crianças, sabe muito bem onde me aperta o sapato. Ou melhor, o vestido). De repente, eles não querem mais fazer visitas às casas de amigos, que eram motivo de alegria só. Querem ficar grudados na mãe, falam com vozinha de bebê e acham tudo fofinho. E dormir sozinho vira um sacrifício. Meu filho passou bem uns três meses chorando antes de dormir porque tinha medo que eu morresse, que ele morresse, que o Panda, nosso cachorro, morresse (algo que, confesso, já desejei no dia em que o pestinha comeu meu sofá todinho). Entre os 8 e 9 anos, alguma tragédia sempre acontece. A mãe volta a trabalhar fora (no meu caso), o cachorro é atropelado, a família muda de cidade. Tenho pistas de quais são as tragédias do Antonio, mas não vou falar aqui pra não dar subsídio pro psicanalista dele, quando ele tiver um. Dia desses meu filho perdeu um bonequinho e, à noite, quando se lembrou, começou a chorar por todos os brinquedos que já havia perdido. “Ele está perdendo é a infância”, disse uma professora pra quem contei o causo. E, perder a infância, convenhamos, deve doer muito.

Esse é o momento em que finalmente a criança chega com mais força do plano espiritual, com o qual ainda estava muito ligada durante toda a primeira infância. É nessa hora que ela começa a se desligar dos pais e a desenvolver sua individualidade. É quando ela começa a perceber que é um ser único e que assim será para toda a vida. E por isso vai começar a mostrar aos pais que não concorda com tudo o que fazem ou pensam e a criticar nossas atitudes como nunca. E haja paciência, autoridade e amor.

Hoje, depois de mais uma dessas crises em que meu filho se recusava a fazer tarefas que antes cumpria tranquilamente, fui ler um pouco e relembrar a origem da palavra Rubicão. Talvez você saiba, é aquele rio ao sul da Itália, por onde qualquer general era proibido, por lei, de atravessar quando retornasse à Roma com seus exércitos. Mas Júlio César ousou atravessá-lo e, enquanto isso, teria dito seu famoso alea jacta est, ou a sorte está lançada, já que não tinha mais volta. É mais ou menos isso o que acontece nessa idade. Não tem mais como voltar para aquele mundo de fantasia e para a barra da saia de mãe exatamente como era. Mas, depois da batalha inevitável, Júlio César fundou o Império Romano. Assim também esse momento prepara nossos filhos para os grandes feitos da vida. É um grande momento para ajudá-los a desenvolver a coragem. Nem que seja apenas a coragem de dormirem sozinhos a noite inteira. Só não acho que podemos dizer que a sorte está lançada. Apesar de estarem crescendo, mais do que nunca eles precisam de nós, que somos seu exército de apoio por toda a vida.

Por Fabi Corrêa

83 pensamentos em “A crise dos 9 anos

  1. Sensacional mesmo o texto! Eu me lembrei dos meus medos aos 9 e 10 anos e agora minha “pré adolescente” de 9 anos está na fase mais difícil (por enquanto) e com muitas das caracteristicas citadas. Minha pequena não costuma chorar com medos, mas é uma personalidade tão dona do mundo rsrrs
    Complicado, mas delicioso, vamos aproveitar ao máximo pois nunca mais voltará.
    Beijos

  2. Meu filho está passando por essa fase nada fácil para todos em casa um verdadeiro Rubicão. Adorei o texto. BJs

  3. minha filha está com exatos 9 anos, e me disse que não é mais feliz, que não quer mais ir a escola, . Perguntei a ela o que ela sente, ela me respondeu que tem agonia, medo, vontade de gritar e sair correndo, que parece que tem um segredo dentro dela que não quer sair.
    e depois veio me explicar que era como se dentro delas houvessem crianças, e assim ela falava, mas as crianças ficaram presas numa gaiola, e agora ela não tem mais o que falar…. alguém pode me ajudar a entender minha filha? eu a levei no psiquiatra, que disse que não há nada errado- ainda- mas se persistir ele terá que entrar com medicamentos, ela vai começar terapia, mas ainda demora uns dias para a consulta. Estou mt preocupada com minha menina, que antes era tão feluz, e agora murchou. ficou dez dias afastada da escola, e qdo voltou entrou em pânico, me pediu para volta-la para a escola anterior, eu mudei, mas ela disse que a agonia não passa, que não melhora, e não quer ir a escola, quer ficar em casa .

    se alguém puder me orientar, se alguém conhecer um especialista na região do abc paulista, eu agradeço. grata

    • Olá! Não sei se leu este outro post onde eu coloco algumas dicas pessoais: https://antesqueelescrescam.com/2014/12/18/a-crise-dos-9-anos-como-lidar/
      Do meu ponto de vista, acho super positivo que sua filha consiga expressar tão bem o que ela está sentindo. Isso já é um ótimo começo. Tenho certeza que a terapia vai ajudar muito! Além disso, atividade física ajuda muito a equilibrar as energias. E ainda mais criança, preciso mesmo se exercitar, mexer o corpo. Água é um santo remédio também. Enquanto a terapia não começa, tente deixá-la na água. Banho de banheira, ou banho de chuveiro demorado, passeio em alguma piscina, cachoeira, mar. Não conheço nenhum especialista na região do abc, mas tô com fé que essa terapia que ela vai começar, vai ajudar. Boa sorte e fé!

  4. Estamos enfrentando aqui em casa essa crise com uma pitada forte de rebeldia, meu amado perdeu sua avó que o criou, eu, mãe, estou enfrentando uma crise de identidade com a perda daonja mãe e o guri da casa está no meio disso tudo. Minha psicóloga falou da crise dos nove e achei esse texto maravilhoso na internet que acabei compartilhando na rede social. É bem isso que você fala, eles só tem a nós, e precisamos dar muito amor com fé. Não é fácil pra ninguém, imagina então para quem está aprendendo a viver. Obrigada por dividir a sua que tbm é nossa experiência! Abração

  5. Que texto maravilhoso, estamos em uma fase complicada aqui em casa, um menininho de 9 anos passando por tudo isso.Obrigada de verdade pela ajuda.

  6. Fiquei melancólica ao ler o texto. Senti vazio e medo por minha filha. Acho que acabei revivendo a minha própria crise dos 9 anos e pensei como ajudá-la se ainda choro a perda da minha própria infância…

  7. Nossa,chorei com o texto,,exatamente tudo que estou vivendo com meu Guillermo de 9 anos,,Ele chora so de imaginar que eu ou um dos nossos cachorros pode morrer.Chora por um peixe que morreu,,rsrsrs Mas quero aproveitar cada fase,ate as mais dificeis,,Obrigada por um texto lindo!!

  8. Ao mesmo tempo ser o adulto de onde a criança pode buscar referência e segurança, e ao mesmo tempo ser cada vez mais a pessoa também em construção, que nao tem todas as respostas mas que senta junto pra ouvir e pra falar da vida. Generosa e humildemente. Ser mãe é pegar no colo, pegar na mão e finalmente segurar pelo coração. Pra sempre.

  9. Q texto magnífico, exatamente o q estou a viver com minha princesa,medos,choros, não desgruda de mim, coisas q fazia antes tranquilamente hoje pede por favor q eu faça ou vá junto,diz mamãe eu não queria crescer, não queria ver as coisas como vejo hoje,o mundo tá tão complicado e por aí vai.
    Entendi q é uma fase e vai passar, eu não me lembro de ter tido tantos anseios e medos com 9 anos,mas me veio a memória q quando descobri q já não era mais criança doeu muito e talvez seja esse o tempo q q minha filha esteja vivendo….
    Obg pelo texto q MUITO me ajudou.

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