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Mãe pomba

Mulher deve abrir mão da liberdade por causa dos filhos?

Quem já passou por essa vida e não viveu pode ter mais, mas sabe menos do que eu. Porque essa vida só se dá pra quem se deu. Essa letra do Vinícius não sai da minha cabeça desde que li um texto de uma feminista levantando a bandeira de ser mãe e ser livre.

Na escola das crianças, tem uma gata sem dono, que ganha comida, vacinas da escola e vive livre como é a natureza dos gatos. Para a surpresa de todos da escola, essa gata teve 5 filhotes e escondeu tão bem que só se soube da existência deles quando eles já estavam com dois meses. E isso já foi há um mês atrás e ela continua escondendo os filhotes, amamentando e cuidando. Por que ela faz isso? Porque o instinto, a natureza de uma mãe é cuidar dos filhos. Simples, não é?

Agora vamos imaginar essa mesma gata sendo uma mulher e sem querer generalizar, mas pegando o exemplo da mulher com a bandeira do ser livre, vamos imaginar o que estaria passando pela cabeça dela:

Quanto tempo eles vão demorar pra crescer e sair da minha aba? (ou rabo) Eu tenho mais o que fazer. Não é porque pari que preciso perder minha liberdade, né?

Puxa, justo agora que eu estava pensando em pular em outros muros, não sei, de repente Paris, sempre foi o meu sonho. Mas não! Não posso! Tenho esses filhotes para cuidar e afff, minha casa parece mais um ninho de gatos.

Será que a gata está pensando nisso? Não me parece. Ela está ocupada em ser uma mãe gata. Ela sabe que tem um trabalho a fazer, não é fácil. E ela está vivendo isso. Antes ela brincava com as crianças na escola, recebia carinho, tomava sol lambendo as patinhas, fazia sua yoga, mas agora ela está sempre ocupada, tensa, arredia, brava. Ela está num projeto muito importante, está sendo mãe. E isso vai passar.

Quando uma gata abandona os filhotes, quem resgata sempre declara que o gatinho é tão grato que é super doce e amável. Porque? Porque mãe é quem cria. Então quem resgatou, é a mãe. No mundo dos humanos existem crianças abandonadas nas ruas, mas em número ainda maior, existem crianças abandonadas nas escolas em período integral, abandonadas com as babás – estranhas desconhecidas que fazem isso pelo dinheiro. Claro que a vida nem sempre é o que a gente queria. E conheço muita gente que faz isso porque precisa e não tem outro jeito. Mas estou falando de quem faz isso porque não pode abrir mão da liberdade. Durante a semana trabalha porque precisa e no final de semana sai com os amigos, dorme até tarde, faz esporte, vai nas festas, porque precisa. Os pediatras que conheço dão depoimentos emocionados como “coisa triste é criança órfã de pais vivos”. Uma dentista contou que estava tratando uma criança e ela não parava quieta, impossibilitando a consulta. Então a dentista falou com a babá que era a acompanhante da criança “liga para a mãe porque assim eu não vou conseguir”. A babá ligou, explicou o que estava acontecendo e a mãe disse ao telefone “estou ocupada, liga para a psicóloga dele e fala para ela resolver isso”. A criança é igual uma empresa, cheia de departamentos, tem tudo, mas não tem mãe.

Se você está lendo esse texto, já teve mãe um dia. Mãe chata, mãe com defeito, mãe carinhosa, mãe divertida, mãe trabalhadora, mãe de algum tipo, porque elas não são iguais. Talvez sua mãe tenha se dedicado tanto à maternidade que perdeu o equilíbrio na vida e você queira fazer diferente. Talvez sua mãe tenha se dedicado tão pouco que você queira fazer igual porque é o que conhece da relação mãe e filho. Seja qual for o caso, uma coisa é certa: se você recebeu o amor e a proteção que a mãe gatinho dá para seus filhotes, tenho certeza que gostou. E gostou também a sua mãe. Não são poucas as mulheres que dizem que a melhor fase da vida foi quando tinham os filhos pequenos. Porque estavam vivendo uma história de amor. A vida só se dá pra quem se deu. A menos que a sua liberdade seja um desejo que traga por trás dele um motivo muito grande, importante e verdadeiro, o seu caminho espiritual, o seu destino, a sua meta nessa curta vida, ao menos que seja isso, não pode haver nada na vida mais importante do que receber o amor de um filho e corresponder e estar ali, chorar, sofrer, mas viver essa paixão. Cumprir a sina. E ao invés de tentar consertar, fazer melhor, racionalizar demais, simplesmente fazer o que sempre deu certo. Mãe é mãe. E é muito mais bonito passar por isso, vivendo. Antes que eles cresçam.

Não sou contra feministas. É claro que as mulheres precisam de mais igualdade e menos cobrança da sociedade. Mas também acho que dor não pode ser amargura. Não é porque o mundo não é como queremos que vamos perder a nossa essência. E agora tirando essa pauta, fico triste quando sinto que o ser humano está racionalizando tudo, racionalizando demais e perdendo a verdade. Por isso é bom lembrar dos animais, lembrar do instinto. E concluir que tanta correria para se chegar “lá”, pode te levar a lugar nenhum. Muitas coisas mudaram então não podemos nos espelhar no passado. Mas uma coisa nunca vai mudar: felicidade só é boa quando é compartilhada. E para amar, para viver em grupo, para ser 2, 3, 4, 5… às vezes é preciso sim, abrir mão da liberdade.

A imagem do post foi tirada no TEDx ESPM de 2012 na palestra da Lia Diskin, coordenadora do comitê da Cultura de Paz. (Palas Athena/UNESCO) As imagens que ela usou na palestra mostram animais que perderam as mães por catástrofes naturais e foram acolhidos por um animal de outra espécie. O video da palestra dura só 6 minutos, mas pode deixar o seu dia mais bonito. Aqui 

Por Cris Leão

10 pensamentos em “Um minuto, por favor.

  1. Cris, Parabéns! Acabei de ler vários textos seus, e foi muito legal saber que não estou só,( apesar de ser so) que a luta nao he vao.
    Abracos
    Lais

  2. Parabéns Cris amei seus textos e assim como eu nós conseguimos enxergar que é no pouco que se tem muito…
    NO AMOR
    Sou dona de casa e sou muito criticada por não ir trabalhar fora !!
    Mas seu texto me conforta muito…

  3. Eu estou esperando um filho, e não me vejo abdicando tudo para ser apenas mae, acho que temos que ter ponderação. Dificilmente vejo mulheres que não tem “vida própria” satisfeitas com isso, sempre as ouço tentando justificar essa escolha.

    Meu filho nasce em julho e ficarei até janeiro de licença maternidade. Vou me dedicar esses meses 100%, mas quero voltar a trabalhar, a correr, a fazer minhas coisas também. Diminuirei minha carga de trabalho para 80%, ou seja, trabalharei de segunda à quinta.

    Acho muito bom os filhos verem as maes trabalhando, tendo sua vida, vendo como mulher tb.

  4. Nossa, esse texto diz exatamente o que penso, o que sinto em ser mãe..estou a 6 meses cuidando da casa e das crianças, parei tudo, inclusive faculdade e nunca, jamais me senti arrependida por isso..um dia penso em voltar, mas por enquanto estou muito feliz cuidando da minha ninhada..

  5. Eu sou formada em direito, tive minha filha com 34 anos, me dediquei inteiramente a maternidade. Fui mãe em período integral, não trabalhei fora, até minha filha se tornar adulta, concluir seus estudos, fazer sua Pós e especializações. Hoje eu tenho uma empresa de Comunicação Visual, em sociedade com minha filha,que está gravida de gêmeos. Espero que ela se dedique aos filhos, como me dediquei a ela. O exemplo foi dado por mim, creio que não me decepcionarei. Não me arrependo de nada. Tudo tem seu tempo.

  6. Texto belíssimo! Ser mãe é abrir mão de muita coisa. Não há dinheiro no mundo que pague a oportunidade de acompanhar o crescimento de nossos filhos.

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