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Viver uma experiência virou moda. Restaurante não pode só servir comida, têm que ser uma “experiência”. Viagem? Idem. De entediados que estamos com tudo o que existe pra fazer nesse mundo velho sem porteira – e olha que não é pouco – queremos transformar tudo em experiências inesquecíveis. Só pra depois fotografar e postar no Instagram. O problema é que essa necessidade besta chegou à infância. Não por causa das crianças, mas por causa de nós, os pais, que não nos contentamos em ver os filhos simplesmente chafurdando na areia do parquinho ou rolando no jardim com o cachorro lhes lambendo a boca. A infância, essa também, tem que ser uma experiência. Tem uma escola que toca música erudita e jazz o tempo todo pros bebês já começarem a vida gostando de Mahler e Miles Davis. E eu que me contentava com minha mãe cantando Alecrim Dourado. Imagine, que falta de experiência a dela! Férias não podem ser no Guarujá. Não, nem no sítio. Ai, que coisa mais comum! Tem que ser algo que proporcione à criança uma experiência que ela vá guardar pra vida toda, né? E olhar lagarta andando em folha de couve is sooo last season. Tem que, no mínimo, nadar junto com arraias manta nas ilhas Maldivas. E você que achou que Orlando iria arrasar, tolinha.

Outro dia fui numa livraria e tinha uns pais acompanhando bebês em uma espécie de aula para aprender a brincar. Era uma atividade paga, a portas fechadas, mas dava pra ouvir as instrutoras falando cores, animais e dando instruções pros pais e pros coitadinhos que devem ter feito algo muito ruim na outra encarnação para aguentar aquela falação. Nem eu, do lado de fora, estava suportando. Quando finalmente as portas se abriram, saíram de lá uns pequerruchos de 1, 2 anos, com os pais orgulhosos de estarem estimulando seus filhos ao máximo. E, não obstante, teve um que sentou do meu lado com o bebezinho no colo e começou a mostrar figuras de bichinhos num livrão. Filho, olha o mico-leão-dourado!!! Olha, filho. Mi-co Leão Dou-ra-do! Isso, Mico Leão Dourado!!! Ele tá em extinção, filho. Temos que salvar o MI-CO LE˜AO DOU-RA-DO. Nessa hora eu me afastei. Ele estava prestes a me fazer acreditar que quem estava entrando em extinção era o bom senso da raça humana. Pelo menos da raça humana classe média da Vila Madalena. Porque na Casa Verde, onde eu nasci, as crianças ainda brincam de pipa na laje, Deus é pai. Achei uma aberração porque o menino não tinha nem a possibilidade de virar uma página sozinho sem que o pai agregasse alguma informação essencial ao seu desenvolvimento intelectual.

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Claro que a intenção é boa. Queremos que nossos filhos desenvolvam ao máximo todas as suas capacidades, mas com isso esquecemos que eles têm essa habilidade dentro de si e que dificilmente serão, nessa mesma vida, um violinista impecável, uma bailarina incrível, uma engenheira de destaque e um pintor de sucesso. O que podemos fazer? Proporcionar o ambiente certo para o desenvolvimento saudável é, antes de tudo, deixá-los brincar, andar, correr e cair sozinhos. Com essa vontade de gerar fotos incríveis pro álbum de família, acho que sobra pouco espaço para que a criança se “ative” sem que um adulto esteja orientando por perto. Como diz a educadora Walforf Luiza Lameirão, precisamos deixar as crianças se “ativarem” por conta própria. É assim que elas se tornarão autônomas, desenvolverão auto-confiança. Mas como confiar em suas habilidades quando tem alguém sempre fazendo tudo por você? “Se você der galhos e tronquinhos pra uma criança brincar, ela vai criar e imaginar o que quiser com aqueles pedacinhos de madeira. Ela vai perceber que pode fazer por conta própria e se tornar confiante em sua capacidade”, diz Luiza. “É bem diferente de fazer tudo para elas e dar todos os brinquedos e experiências prontas”. Vale o mesmo para quem tem filhos maiores: ir pra Paris com os pais aos 9 anos é muito bom, mas ir pra Paris aos 20 e poucos anos com o dinheiro que você passou um ano juntando é incrível. Além do mais, quem não sabe quanto custa, em sessões de terapia, recobrar a auto confiança perdida – ou nunca ganha?

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Quer que seu filho seja auto-confiante? Não mande ao psicólogo. Deixe que ele desenhe sozinho, sem interferir. Há um educador que diz que as garatujas que os pequenos fazem são cartas que eles mandam a si mesmos para se organizarem e organizar seu desenvolvimento. Não importa se é bonito ou feio. Dê tintas pra que seu filho se lambuze e lambuze o papel. Cor é uma ótima maneira de tirar os pequenos do mundo intelectualizado, cheio de letras, em que vivemos. Dê umas plantinhas pra ele enfiar no vasinho e brincar de jardineiro. Ou libere o lençol grande da sua cama para uma cabaninha. Em São Paulo, estão na moda espaços em que se paga para que as crianças brinquem, subam em árvores, pintem, façam um pão. Economize seu dinheiro e faça isso com seu filho em casa, se puder. Não é uma brincadeira deliciosa sovar um pão e depois ver ele ficando gordinho dentro do forno? E na pracinha perto da sua casa garanto que tem tudo o que um desses espaços para brincar podem oferecer e ainda melhor: sem alguém falando na orelha dele o que tem que fazer a cada 15 minutos. E de graça! De quebra, você trabalha menos pra pagar as experiências. Leva o seu livro, o seu jornal ou se joga na areia e vira criança junto. Mas sem direcionar nada. Na hora da brincadeira, quem dá o tom tem que ser a criança. Livre. A vida tá virando um grande Club Med, com G.O.s pra todos os lados e cada vez menos espaço pra imaginar e criar. Essas sim, são as grandes experiências da infância. E, como você já foi criança, sabe bem que elas não precisam de ninguém pra ensinar a tomar banho de esguicho ou a fazer um vestido com a blusa da mãe e sair por aí crente que é  princesa, confere?

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Quem precisa de fantasia de princesa pra virar uma?

9 pensamentos em “A grande experiência da infância

  1. Ótimo texto, bom encontrar outras pessoas com o mesmo pensamento, eu francamente ja estou cansada de ter que explicar porque deixo minha filha brincar livremente, subir em arvores e correr descalça, pintar com tinta…ultimamente ando deixando pra lá para evitar a fadiga rsrsrs. Ler textos assim, me da mais ânimo e quem sabe volta minha paciência para tentar espalhar a ideia.

  2. Talvez eu não seja de classe média, talvez eu não tenha tempo e nem dinheiro para levar os meus filhos nesses lugares de estímulo. Tenho 3 filhos, que amam, correr, pular, cantar, dançar, mexer na terra, desenhar, ler entre tantas outras coisas. Eu dou condições para que eles possam desenvolver as suas atividades, sem pressão. Tem crianças que mal aprenderam a falar e tem que aprender as cores, os animais, os números e o alfabeto, o que é isso minha gente. Criança tem ânsia e curiosidade de sobra para aprender sem pressão, aprendem no tempo certo, sinto-me na obrigação de deixar eles soltos, leves, sem pressão o tempo todo, o resultado? Crianças sorridentes, bons alunos, bons irmãos, criativos ao extremo.

    Bem quase fiz um post aqui, mas adoro saber que ainda existem pessoas que pensem como eu, que criança tem de ser criança.

    Um abraço Cynthia

    http://www.maedahora.com

  3. Adorei. Sempre deixei meu filho ser criança e acredito que por muitas vezes deixei minha criança vir a tona também. Foi a escolha que fiz quando decidi ser mãe. Obrigada.

  4. Tento fazer isso com minha filha de 4 anos, mas ela sempre pergunta pra mim o q ela deve pintar, ou o q ela deve montar, enfim…Talvez isso é resultado do modo como eu ficava com ela quando era bebê, tinha dó de vêla brincar sozinha e brincava junto. Como será q posso recuperar a autoconfiança dela? ???

  5. Estou lendo este artigo logo após ver meu filho de 4 anos brincar por mais de uma hora de pintor, sim pintor de Casa, de objetos.. Um pincel e um chapéu foram suficientes para ativar sua imaginação. Como é bom ser só criança, livre para criar, sem guias. A cada dia ele inventa um novo personagem e uma nova história e me faz relembrar muito minha infância: quantos desfiles com a roupa da mamãe fiz após o jantar kkkkkkkk

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