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Em terra de gente livre, cada um cria o filho como quiser.

Tenho escutado muita gente e lido muitos artigos fincados com essa bandeira de liberdade. Mas será que é assim mesmo? “A vida é minha, a filha é minha, eu crio do jeito que quiser”. Será que está certo? Vamos pensar juntos. Dirigir um carro é cheio de regras. E os acidentes acontecem na maioria das vezes porque alguém achou que podia desobedecer. Cozinhar também tem regras. Vai tentar fazer um omelete sem primeiro aquecer a frigideria para você ver. Ao invés de omelete, vai ter ovos mexidos, ou no máximo, omelete mexido. Regras parecem ser um obstáculo ou um passo a mais para quem é muito esperto. Mas, afinal, precisamos delas?

Quando meu primeiro filho era pequeno, era uma criança muito cheia de energia. Então, como marinheira de primeira viagem e na terra de gente livre, achava que a maioria das regras não era para mim. Criança tem que dormir cedo? “O meu não consegue”, eu pensava. Morávamos em Nova York e era comum a gente sair com ele caminhando pelas ruas lá pelas 10, 11 da noite. Se a gente passava na frente de um bar com Jazz, que tinha na nossa rua, ele ia correndo, começava a dançar e fazia a festa de todo mundo. Como colocar essa criança para dormir às 8? Simplesmente não parecia ser possível. Acontece que ele ia dormir meia noite, mas acordava na madrugada e depois despertava de manhã com o nascer do sol. O que nos primeiros 2 anos parecia ser uma éspecie de karma “ele é desse jeito” foi virando uma coisa pesada para sustentar. O casal deixou de existir e minha energia também. Apesar de adorar o jeito daquele menino cheio de energia, não era muito divertido ter aquelas olheiras de panda todos os dias. A falta de sono também provoca amnésia e irritabilidade. Foi quando depois de quase brigar com o caixa do supermercado porque esqueci a senha do cartão e ele fez cara de “ah, o golpe do cartão roubado”, que eu percebi que a psicóloga especialista em crianças, o pediatra, minha mãe e minha sogra estavam certos: criança precisa de regra. Sinto muito, mas não existe coisa mais sem sentido do que “cada um cria o filho do jeito que quer”. Abrindo um parênteses para dizer que sim, acredito na intuição e na conexão com os filhos, falei disso neste texto.

Pois bem, mesmo longe da família e a duras penas, eu e o meu marido aprendemos que com a chegada de um filho, a casa precisa mudar. E isso envolve muito mais do que decorar um quarto.

Outro dia li no jornal que os animais domésticos nunca viveram tanto quanto agora. Graças aos avanços da medicina e a seriedade e compromisso que os donos têm no cuidado com eles. Parece que os donos de bichinhos estão ouvindo o veterinário. E as crianças? Os pais estão ouvindo os médicos? As estatísticas dizem que não, mostrando o alto índice de obesidade infantil e doenças derivadas. Parece que filhos de pais livres têm liberdade para comer o que quiser.

Quer um exemplo prático? Leia um relato de um cena que presenciei há uns dois anos em um café na Vila Madalena em São Paulo.

Uma mãe está com um bebê com aproximadamente 11 meses. Junto com elas estão outras mulheres, um pouco mais velhas. Provavelmente um almoço de família. A mãe claramente não tem a menor ideia do que fazer com a filha. Coloca em um braço, coloca no outro, dá para outra mulher, a menina chora, solta no chão, a menina sobe na mesa. As mulheres continuam falando e aquele bebê está ali sobrando e ao mesmo tempo agitado. Até que a mãe enche a mamadeira da menina de Coca-Cola e entrega para ela. Causando assim uns 2 minutos de quietude. E muito açúcar no sangue, o vai causar ainda mais agitação a ponto da mãe precisar sair com o bebê do restaurante indignada com o “Por que ela é desse jeito?”. Enquanto isso, na mesa ao lado, duas amigas conversam enquanto o cachorrinho de uma delas está deitado embaixo da cadeira. Um brigadeiro cai de uma terceira mesa. O cachorro vê, come na mesma hora. A dona do cachorro começa a gritar, apavorada e tira o brigadeiro de dentro da boca dele. A ex- dona do brigadeiro fica sem graça e pede desculpas por ter deixado cair. A dona do cachorro, já mais calma, fala: “Tudo bem. Ele provavelmente vai passar mal, mas pelo menos eu já sei porquê.”

É engraçado porque muitas vezes as mesmas pessoas que levantam a bandeira da liberdade, deixam a televisão ligada, sem limites. E aquela telinha soberana vai decidir não só o lugar do sofá da casa, mas o lugar das refeições, o vestuário, o passeio do final de semana e os presentes de Natal. Será que querem mesmo ser tão livres? Ou a grande questão é não assumir responsabilidade, escolher o mais fácil e balançar a bandeira da liberdade com um sorriso no rosto e um copinho de cerveja na mão. E o controle remoto.

Por Cris Leão

6 pensamentos em “Sobre ser mãe, ser pai e ser livre

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