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Dia desses, em um encontro de pais, médicos e psicólogos, um pai bem jovem estranhou quando se chamou a atenção para a importância de se manter a fantasia que as crianças trazem consigo quando chegam aqui. Ele não entendia porque deixar – ou até mesmo estimular – meninos e meninas de sete, oito, nove anos a continuar acreditando em florestas encantadas onde vivem duendes, coelhinhos da Páscoa que deixam ovinhos no quintal, nuvens feitas de algodão. O rapaz achava tudo isso muito meigo, mas queria saber quando poderia apresentar ao seu filho o “mundo real”, aquele aparece nos jornais e na TV. E, mais, quando era a hora de começar a preparar seu filho para o mercado de trabalho, ainda que o menino só tivesse 8 anos. Fiquei pensando, por algum tempo, nesse mundo real – e cruel – que o pai descreveu. Ele existe, claro, está todos os dias na nossa frente, no Jornal Nacional, no programa do Datena e na fatura do cartão de crédito. É um mundo onde as pessoas perdem emprego, casais brigam em frente às câmeras, crianças matam a família inteira. Mas, se eu fosse uma agricultora em um vilarejo da Europa, levantando às cinco da manhã pra arar a terra, e me deitasse às sete da noite depois de fazer o pão, meu mundo real seria bem diferente… Acho que existem muitas versões do que se pode chamar de mundo real. Morando em São Paulo, não tem como fugir: é É ciclista atropelado. É gente pedindo esmola na rua. Não posso ignorá-los. Pelo contrário, devo desenvolver a generosidade de fazer algo para socorrê-los. Só não acho que o mundo real é composto só de tragédias sociais, competitividade profissional ou de dólar subindo.  Para as crianças, o mundo “real” é habitado  pelos duendes, piratas e anjinhos. Até que, naturalmente, seus espíritos estejam preparados para ver que existe, além do belo, a feiúra, a pobreza, a tristeza. E que possam estender a mão para transformar tudo isso. Até lá, ponha seu filho em contato com a beleza e a bondade do mundo. Não é difícil. Elas existem em tantos lugares e as crianças têm um dom tão especial para vê-las. Pergunte-se o que é mais importante agora: preparar para um lugar no mercado de trabalho ou se preocupar com o presente. Dê a ele alimento para a alma, para que ele seja capaz de criar, de produzir saudavelmente, de viver uma vida plena e generosa mais adiante. Talvez seja mais importante do que ensinar espanhol. Cuidado ao esquecer a TV ligada ou o jornal sobre a mesa. Como é que uma criança se refaz ao ficar sabendo dos crimes horrorosos que vemos todos os dias no noticiário? Acredito e vejo todos os dias aqui em casa que preservar o mundo delicado e protegido onde os nossos pequenos vivem é essencial para uma infância saudável. Se aquele pai preocupado em mostrar para o filho a realidade acredita que ela é composta só de correria, dinheiro e injustiça, acho uma pena. Mas talvez o filho dele, mesmo que pequeno, possa lhe ensinar alguma coisa sobre a beleza e o amor que também existem no tal do mundo real.

Para complementar, um lindo texto escrito por Dom Helder Câmara

Não ensine a seu filho que as estrelas não são do tamanho que parecem ter: maiores que a Terra! 

São lâmpadas que os anjos acendem todos os dias assim que o sol começa a se por…

Não diga a seu filho que as asas dos anjos só existem na imaginação. Já vi meu anjo em sonho e posso jurar que ele tem asas claras que até parecem feitas de luz.

Não encha a cabeça do seu filho ensinando-lhe hipóteses precárias que amanhã nada servirão. 

Povoe de beleza o olhar inocente de seu filho. Dê-lhe uma provisão de bondade que chegue para a marcha da vida. 

Infunda-lhe na alma o amor de Deus – e tudo o mais, por acréscimo, ele terá.

————–

Fabi Corrêa

PS: tirei essa imagem do blog Little Birdie Secrets. Muito fofo.

4 pensamentos em “A hora certa de falar “a real” pro seu filho

  1. É muito boa a teoria, mas o que fazer com o filho que aos 09 anos perde seu pai assassinado, vítima de um assalto, e o que dizer para um filho que perde sua mãe, vítima de um atropelador impune. Concordo que as crianças devem ter sua imaginação, infância e inocência preservada, mas no mundo atual, a criança deve ser preparada para a vida, tão diferente dos tempos de antigamente.

    • Nesse caso você deve contar a verdade da maneira mais simples possível. Não destruir a inocência não mentir, é simplesmente não dar informações demais e constantemente, pois a criançada não sabe lidar com elas ainda. Contar que os pais morreram e que não vão voltar é importante, mas não precisa contar como até a criança perguntar. Se perguntar diga um tiro ou atropelamento e não a novela toda. Aos poucos a criança ai questionando e você vai pintando o quadro todo. Ela pergunta conforme está pronta para saber. Se ela pergunta “Papai Noel existe?”, responda “Oque você acha?” e se ela achar que não diga que não mesmo e se disser que sim diga que ele existe para quem acredita. Proteger não é mentir.

  2. Sou da teoria de que falo a verdade se for perguntada. Lógico que dentro do que acredito ser a capacidade de entendimento dela criança. Vou até onde ela for. Minha filha quer continuar acreditando no Papai Noel. Ela tem 9 anos e amiga disse pra ele que não existe. Hoje, com internet, eu sei que ela sabe que ele não existe, mas ela quer continuar com a mágica. Então, quem sou eu para tirar-lhe isso? Quanto a crianças que vivem tragédias, a infância delas é um pouco roubada cada vez que passam por situações limites, mas a vida é assim, nos ensina mais nas dificuldades…

  3. apesar das perdas e dos danos … temos que motivar as crianças o cultivo da imaginação, e dar-lhe oportunidades criativas e construtivas… as histórias infantis são importantes na elaboração dos traumas , e medos na infância, na adolescência… plantar sementes de paz através da música, do sport, do amor pelos animais e pela natureza . As palavras chaves são Reconstruir, Reedificar, Reelaborar, Remodelar, Renascer, Reinventar a Vida das Pessoas!! Haja Maestria. Viva a Arte terapia do Mosaico.

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