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Teste seu nível de hiperatividade e veja se consegue ler este texto até o fim.

O texto que segue é resultado da minha entrevista com a arte terapeuta Cecília Staubli sobre o Déficit de Atenção e hiperatividade (TDAH). No texto ela comenta sobre a prevenção e cura dessa doença, baseado em muitos anos de estudo e experiência.

Cecília Staubli é arte terapeuta desde 1988 reconhecida pela departamento médico de Goetheannum, Suíca. (Centro mundial para estudos antroposóficos) Formada no programa para professores de Extra Lesson da Universidade Rudolf Steiner na Califórnia, onde também deu aulas. É professora de Extra Lesson na escola Waldorf Sunrise em Miami.

Cecília Staubli:

Primeiro quero deixar claro que não sou especialista no assunto mas consigo ver a dimensão do problema. As causas ninguém sabe ao certo. Pode ser genético ou reflexo do estilo de vida. Eu acredito que em grande parte tem a ver com a nossa época. As doenças são de época. Os estilos de vida vão passando por metamorfoses e as doenças também passam por isso. Rudolf Steiner (1861-1925) falou que no futuro as doenças não iriam permear o corpo físico mas sim o corpo anímico, ou corpo psíquico. E isso é claro que afeta o físico numa reciprocidade.

Vivemos em uma época de excesso de estímulos. O sistema nervoso é afetado com isso desde a gestação. Depois a criança nasce e já tem festa no hospital, foto e filmagem do momento do parto. E muitas vezes esquecemos que essa criança é uma alma que acabou de nascer. E como é muito sensível, não consegue digerir todas essas impressões ambientais. Trânsito, televisão, música, multiatividades, tudo isso causa um desgaste no sistema nervoso. A cabeça começa a ficar hiper ligada sem digestão. A consequência são crianças batendo frequentemente os pés, roendo as unhas, com tique nervoso. Ou viram crianças com aquele olhar perdido porque não conseguem internalizar, só ficam para fora.

O que ajuda essas crianças e pode prevenir essa doença é o ritmo. O ritmo é o que dá a criança o sentido de bem estar. Por exemplo, criança precisa dormir. O sono é quando o corpo se internaliza, se alimenta, é quando as emoções e aprendizados são processados. A falta de sono causa nervosismo e isso gera déficit de atenção. Porque ninguém consegue olhar para o mundo de fora, se não consegue olhar para dentro.

Como criar ritmo: Com rotina e ritual. Horário para dormir, horário para comer, rituais como o banho, o ritual de todos na mesa, as festividades como a Páscoa e o Natal. Criança precisa de repetição. Isso acalma e ajuda a centralizar.

Vamos lembrar como os bebês eram tratados em outra época. Quando um bebê nascia ele ficava no quarto escuro durante um mês. Ele acabou de chegar, para quê pressa? Os cueros que se faziam antigamente, aquilo de enrolar um bebê em um tecido, isso ajuda muito o bebê a sentir o corpo dele. É isso que ele precisa, sentir o corpo, não sentir o mundo. Ele acabou de chegar. Se não sentir o corpo nesse momento, vai perder a orientação espacial. Os bebês até 6 meses não dormiam em berços, ficavam em pequenas cestinhas. Isso é ótimo para ele, porque consegue tocar as extremidades e sentir o corpo. Mas agora eles dormem em berços cheios de cores, sons, excesso de estímulos que atrapalham o bebê a se reconhecer. Os bebês também não são mais colocados no chão e com isso não desenvolvem o sentido do movimento próprio. A gente não está mais deixando a criança se estimular. Ela está sendo estimulada o tempo todo, mas criança precisa aprender a se auto estimular. Caso contrário isso se transforma em uma falta de vontade. Infelizmente, um dos reflexos disso é visto nas pesquisas que apontam o alto número de usuários de drogas que foram crianças hiperativas. Vão para as drogas para criar estímulo (no caso da cocaína), para poder realizar. Ou porque estão acomodadas em não realizar então querem desacelerar o mundo, no caso da maconha. Mas quando você trabalha com essa criança e cria um equilíbrio, essa criança ou adulto se curam.

Brincar é um santo remédio. Brincar gera auto conhecimento. A brincadeira mais tarde vira a força de trabalho e conhecimento. Deixem as crianças brincar livremente. E isso não tem nada a ver com excesso de brinquedos. O que aliás é outro grande mal da nossa época. Com muito brinquedo a criança não consegue nem brincar. Porque não consegue escolher. A tensão já começa ali. Como o caso de uma paciente que tive que tinha 300 bichinhos de pelúcia. E nesse ponto já começa o déficit de atenção. Eu sou pintora, preciso trabalhar no mesmo quadro várias vezes e a cada vez eu entendo de um jeito diferente o potencial que existe ali. Se eu pintasse 30 quadros por dia, seria outra coisa muito diferente. É como ter 300 amigos. O mesmo se passa com as histórias que lemos para as crianças. Em uma história existe várias coisas para se absorver. Várias imagens para ser criadas na cabeça, vários sentimentos para serem absorvidos. Por isso nada de contar uma história diferente por dia. Eu contei o mesmo conto de fada para a minha filha durante 8 meses. E ela adorava. No fim já sabia de cor. Criança que não tem repetição, não desenvolve a capacidade de memória. Fica tudo externo. Não internaliza nada.

A cura. Eu acredito que toda doença é uma oportunidade de auto cura. As crianças que atendo que sofrem de Déficit de Atenção normalmente fazem muito contato entre os olhos e as mãos. Elas ficam olhando para as mãos, movendo as mãos e observando esse movimento. Ora, isso é o primeiro contato que um bebê tem com seu corpo, não é? É quando o bebê observa a mão que começa a indentificar o corpo. Então de alguma forma essas crianças estão falando que estão tentando se conectar com elas mesmas. Os pais precisam auxiliar e deixar que isso aconteça. Evitando o excesso de atividade e deixando a criança brincar livremente para tentar estabelecer essa conexão. Os medicamentos tratam os sintomas, mas a doença fica ali ainda. Eu vejo nos meus pacientes que não são medicados, uma luta para a cura e um progresso em direção a ela. Enquanto que, nos pacientes medicados, embora por fora pareça que está tudo em ordem, em qualquer exercício terapêutico eu percebo que a doença está gritando lá dentro, desperta. Os pais precisam ajudar os filhos, se conectar com eles e perceber o que aquela criança está precisando. E esse perceber não é ouvindo o que eles falam, porque criança não sabe explicar o que está sentindo, os pais precisam ver por trás das palavras, por trás das atitudes. Criança hiperativa tem dificuldade de achar graça em coisas muitos simples, como um papel e lápis. Mas muitas vezes o que a criança não gosta é exatamente o que ela mais precisa. É o desafio que ela precisa superar. Quando uma criança está em um processo de sofrimento normalmente tudo o que faz é para dizer: me ajuda. Por exemplo você precisa ir a algum lugar e levar seu filho e ele começa a gritar: não quero ir! Pode ser que ele esteja só pedindo que você fale: “Diz que você vai me levar porque precisa estar comigo”.

Para finalizar, um exercício de respiração que ajuda toda a família a se acalmar. Fazendo o contato entre os olhos e a mão. Olhando para as mãos abertas, inspire lentamente fechando as mãos. Com a mão fechada, expire lentamente abrindo as mãos dizendo:

Inspiração Antes que eles crescam

mão fechada Antes que eles crescam

Quando eu inspiro, inspiro o amor. (fechando a mão) Quando eu expiro, expiro a paz. (abrindo a mão)

Ou como no exercício original: (para ter a noção exata do tempo da frase)

When I breath in, I breath in love. When I breath out, I breath out peace.

Lentamente. E lembre-se: a pressa é inimiga da perfeição e pode ser sua maior inimiga também.

Por Cris Leão

4 pensamentos em “Déficit de Atenção: como prevenir e como lidar

  1. Wow that was odd. I just wrote an really long comment but after I clicked submit my comment didn’t show up. Grrrr… well I’m not writing all that over again. Anyhow, just wanted to say superb blog!

  2. Minha mulher veio me contar, toda animada (falou disso o tempo todo no almoço), sobre o blog e tudo o que ela leu. Ela tem memória fotográfica. Ela me trouxe e eu tbm gostei demais. Tudo a ver conosco, com nosso modo de enxergar as coisas, de viver e buscar apdender. Somos muito gratos!!

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