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“Meu filho tá com medo de tudo. Demora pra dormir, vê coisas o tempo todo”, veio meu amigo dizer dia desses, já querendo levar o filho em um centro espírita para tomar um passe. Na cabeça dele, os monstros que o filho via eram espíritos que tomaram a casa. Ok, não descarto a possibilidade de as crianças verem espíritos, de tão ligados que ainda estão ao mundo espiritual. Mas o filho do meu amigo, com três anos e meio, está vivendo seu primeiro mini-momento de chegada da individualidade (que de fato vai acontecer aos 9. Leia mais aqui .) Por isso começa a sentir mais medo do que nunca. Sua imaginação se povoa de monstros, de bruxas, ladrões. “Na verdade, eles têm medo de serem levado de longe da mãe. A bruxa, nos contos de fada, é quem rouba a criança e a leva para longe da família”, diz Antonio Carlos de Souza Aranha, pediatra antroposófico e terapeuta familiar. “O medo que a criança sente na hora do sono é o medo dessa separação”. Bom, sendo assim, podemos colocá-la para dormir na nossa cama e tudo bem, né? Na verdade, não: aprender a dormir sozinho desenvolve auto-confiança, a confiança na capacidade de que ela consegue fazer as coisas por si só  e que vai ser extremamente útil para o resto da vida. Nesse caso, ensinar a dormir é o melhor a se fazer, sempre com tranquilidade e carinho..

Ainda que os monstros sejam fantasia (e mesmo que um ou outro não seja), é importante respeitar o medo que as crianças sentem. Justamente porque elas…sentem. Não é invenção. Não vamos esquecer que, até os 8 ou 9 anos, a fantasia é algo muito real e  deve ser respeitada. Não aumentada e nem super valorizada. Só respeitada. Logo, se vem aquele medo na hora de dormir, não diga que é uma bobagem acreditar em monstros. Elas vão continuar vendo tudo isso, só precisam se sentir acolhidas em suas inseguranças e estimuladas em sua coragem. Para crianças maiores, podemos até abrir o guarda-roupa e mostrar que não tem bruxa nenhuma ali. Só não dá pra dizer que ter medo da bruxa é besteira. O medo é também uma oportunidade para fortalecer a coragem, então aproveite para contar a ela histórias de príncipes valentes e falar do valor de enfrentar o que nos amedronta. E mostrar que os adultos também sentem medo, mas fazer isso com tranquilidade, sem susto e sem detalhes ternebrosos.(Claro, só vale se seu filho não for como o meu. Certo dia, quando ele tinha uns seis anos e com muito medo de tudo, eu disse a ele que eu também tinha os meus medos. E ele perguntou: “você tem medo de bruxa, mãe”. Então expliquei a ele que os adultos tinham outros medos. E ele disparou: “do que, então, de não conseguir pagar as contas?”. Eahn….Vamos dizer que o Imposto de Renda é a versão crescida do monstro atrás da porta).

O ritual do sono, que já falamos aqui, ajuda muito nesse momento. Uma hora antes de a criança ir pra cama, vá acalmando a casa, desligando os sons e as luzes. Mantenha apenas velas e abajures. Fale baixo. Um banho morno ajuda. Na hora de ir pra cama, acender uma velinha e contar um conto de fadas ajuda a povoar a imaginação de belas imagens: ainda que tenha bruxas e dragões, há sempre coragem, superação, aconchego. Aprenda uns dois ou três e conte sempre os mesmos para seus filhos. Isso ajuda a desenvolver a sensação de confiança. E uma oração mostra  que existe algo maior a nos proteger.

Se o medo aparecer em outros momentos, vale a mesma máxima: respeite o que a criança está sentindo e incentive a coragem. Respeitar esse momento ensinará seu filho a respeitar seus próprios sentimentos, e os dos outros, ao longo da vida. A reconhecê-los e a saber o que fazer com eles. Desprezá-los trará o efeito contrário, possivelmente. Se a coragem não aparecer na hora, tudo bem. Em algum momento ela vai vir, se a criança estiver em um ambiente saudável e acolhedor.

PS Ilustração tirada do blog de Arian Armstrong

2 pensamentos em “O que fazer quando a criança sente medo

  1. Boa noite
    Sou professora de Educação Infantil (faixa etária 3 e 4 anos).
    Assumi minha turma recentemente após retornar de uma cirurgia.
    Iniciei meu retorno trabalhando a figura folclórica do Saci, sendo que assistimos o DVD do Sítio do Pica-pau Amarelo, contei histórias do personagem e por último, fizemos a caça ao Saci.
    Bom, após alguns dias, uma mãe veio me informar que sua filha anda tendo pesadelos todas as noites, me pedindo inclusive se era possível encerrar essa atividade. Como já havíamos terminado o trabalho, acreditei que o medo passaria.
    Hoje ela voltou a me perguntar sobre o que estava trabalhando, pois a criança agora está apresentando medo de bruxa, continuando com pesadelos no meio da noite.
    Diante desse fato, fiquei perdida em qual atitude tomar, pois sempre trabalhei com esses personagens, mas nunca passei por essa situação.
    Se puderem me orientar

    Obrigada

    Viviane Antevere

    • Oi Viviane, a Fabi está com dificuldade de entrar no blog esses dias então resolvi escrever para não te deixar sem resposta. O que o próprio texto da Fabi fala é que é preciso respeitar o medo que as crianças sentem. Pela pedagogia Waldorf, crianças de 3 e 4 anos são muito pequenas. E por estarem por isso muito ligadas ao mundo da fantasia e imaginação entram nas histórias sem medo porque estão entregues a ele (sem parar para raciocinar “epa, se tem bruxa ali, tem aqui tb?) Mas acontece que nem toda criança é igual. Talvez essa a que se refere já está em outro momento, ou tem uma personalidade mais intelectualizada e racional. E por isso vivenciou a história e a brincadeira de uma jeito diferente. Seja lá o que a criança sentir, acho que o papel dos pais e educadores é acolher. Existe um livro muito interessante com histórias para curar sentimentos infantis que não sabemos como tratar. (Porque claro que não adianta nada falar para ela “não tenha medo”)
      O livro chama Histórias Curativas para Comportamentos Desafiadores. Tem o link aqui: http://antroposofica.lojavirtualfc.com.br/prod,IDLoja,472,IDProduto,2408000,livros-educacao-historias-curativas-para-comportamentos-desafiadores—susan-perrow

      Abraço e boa sorte no seu trabalho!
      Cris Leão

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