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Dia desses li uma entrevista com o psicanalista Contardo Calligaris  em que ele dizia que se dava bem com criança justamente porque não ligava muito pra elas. “Hoje as pessoas dão muita importância. Criança pra mim tem que deixar rolar”, disse. Concordo totalmente! Mas, Fabiana, sua doida, você tem um blog sobre educação infantil. Verdade, e exatamente por defender a infância é que concordo com ele. Acho que infância é tudo o que acontece quando os adultos não estão olhando. Mas, com pais pedindo para ter câmeras até nas salinhas do jardim de infância, em que momento eles serão crianças?

Todo ano, eu e meu filho passamos parte das férias em um pequeno vilarejo da Bahia, onde as crianças podem disfrutar do maior luxo que existe nesse mundo: a liberdade (quase) sem limites. É onde estamos agora. Não a liberdade de pensar ou falar pois essa não precisam mesmo. Mas a liberdade de brincar e de ser criança. Quando estávamos no avião, meu filho  disse: “mãe, você tem ideia do que é poder ir sozinho na sorveteria, na pizzaria, na casa dos amigos? Isso é muito bom!” E lá foi ele.  No momento, estou sentada escrevendo em uma mesa no jardim, de frente para o mar (êeeee) e da última vez que soube do meu filho, ele encontrou uns meninos locais e tinham transformado um barco abandonado e encalhado na beira do rio em parque de diversões. As cordas puídas do mastro tinham virado uma tirolesa que dava no meio do rio e a proa era mirante, de onde observavam uma lontra nadando distraída na outra margem. Se eu estivesse por perto, meu filho já teria pedido para tirar uma foto ou filmar os saltos, ao contrário dos meninos que moram aqui e nem lembram que existe câmera. Por isso mesmo, podem brincar despreocupados, como se não houvesse amanhã. Seus pais não estão vendo ninguém pela tela do computador, não estão fotografando cada momento, não estão controlando se tem que passar mais filtro solar.. Enfim, estão deixando a infância rolar, como disse o Contardo Calligaris. Se eu estivesse por perto, já teria gritado pra ele agarrar a corda de outro jeito ou olhar pra cá na hora da foto. Mas, claro, não resisti muito tempo. Preocupada, fui lá disfarçadamente pra ver se estavam todos bem e tirei essa fotinho que você vê acima. Depois voltei pro meu post.

Desculpas para estar por perto sempre temos. A violência, a insegurança, o medo que sentimos. Mas estar por perto é uma coisa, intervir é outra. Minha mãe sempre estava por perto, mas não me lembro de ela ter pedido pra eu repetir uma brincadeira pra ela fotografar ou pra não ir ali que alguém iria me levar embora. Isso não é falta de carinho ou de atenção. Na maior parte do tempo, tudo o que os pequenos precisam é espaço para criar, brincar, imaginar. E imaginação depende de um certo silêncio parental. Eu andava livre pelas ruas do bairro e com 11 anos já pegava ônibus – um luxo das crianças de “antigamente”. Um dos momentos mais lindos da minha infância foi quando, aos 10 ou 11 anos, viajei com a família da vizinha para o interior de Santa Catarina. Lá, corremos atrás de galinha e de peru, bebemos melaço de cana no alambique, descemos o rio e pulamos na cachoeira e, por mais que me esforce, não lembro de absolutamente nenhum adulto por perto. Hoje meus pais seriam acusados de irresponsabilidade, onde já se viu deixar esses meninos soltos por aí o dia inteiro?  Mas foi essa “falta de cuidado” que me deu uma lembrança que é um refúgio, auto-confiança e liberdade. Descobri que podia nadar, escalar e até aprendi a andar de bicicleta sozinha. Que outras habilidades uma criança poderia querer? Obrigada, pai e mãe. Vocês não sabem o quanto sou grata por essa  irresponsabilidade. Obrigada por terem deixado minha infância rolar.

Por Fabi Corrêa

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7 pensamentos em “Infância é tudo o que acontece quando os adultos não estão olhando

  1. Nossa, esse post me fez enxergar o quanto privo meu filho de algumas coisas. Me fez lembrar da minha infância, de como era boa e agente podia brincar sem se preocupar com nada, hoje transferimos os nossos medos para nossas crianças e cada vez mais cresce o número de crianças com síndromes disto ou daquilo. É triste.

    • Cristiane, se você deixá-lo um pouco solto, vai ver que não é tão difícil assim. E eles precisam disso pra crescer. Beijo

  2. Fabi…de todos os blogs de maternidade que sigo,o seu é o que mais me identifico,mesmo sendo diferente de vc em algumas coisas.Consigo entender e absorver muita coisa que “eu nunca tinha pensado antes “.Eu tive uma infância muito dificil,minha mãe era possessiva e controladora,por isso não tenho lembranças assim.Não sou controladora,mas nunca deixaria meu filho brincando sozinho longe das minhas vistas,eu não interfiro( não mais rs) mas fico de longe,com os olhos bem abertos,percebo agora depois de ler esse post que talvez meu filho seja meio ” molenga” por essa super proteção que tenho e estou tentando mudar ( ele ainda vai fazer 4 anos) então talvez eu não seja tão sufocante como acho.Depois desse post pretendo melhorar esse aspecto..não vejo a hora de surgirem oportunidades na vida dele de viver e contruir estórias proprias longe de mim e do pai…infelizmente em um mundo que o vizinho é pedófilo ás crianças estão cada vez mais supervisionadas e menos felizes.

    • Thammy, obrigada. Ainda bem que somos diferentes, eu gosto de gente que vem aqui contar como faz. Seu filho ainda é muito pequenino, né? O meu já tem 9, é bem mais fácil soltar. Mas confesso que eu sempre deixei a coisa correr mais solta. É meu jeito. Talvez as vezes até tenha sido omissa, não sei. Mas talvez, justamente por isso, o Antonio tem muita “responsabilidade”, digo, não faz bobagem. Aqui em casa nunca teve tela na janela. E ele nunca chegou perto pra fazer artes…Mas nesse quesito cada um tem que levar do jeito que se sente tranquila. Sim, eu sei que o mundo é cheio de perigos, mas eu prefiro acreditar que tem mais beleza e bondade do que os jornais mostram. Um grande beijo, Fabi

  3. O pediatra da minha filha me disse algo que eu já sabia, mas vou repetir pq algumas pessoas confiam mais em pediatras do que em mães, ele disse que sempre fala para as mães dos pacientes dele que as crianças precisam explorar o mundo, que se negar tudo, vc vai tornar o mundo muito chato para eles e estressar a criança e termina falando assim: “Só intervenha se a criança correr risco de se machucar, mas risco real, tipo, enfiar uma faca na tomada ou se debruçar em algo solto, mas escalar sofá, pular na cama, cair do degrau da varanda não vale, ah, e vamos trocar o remedinho pulsatilla por chamomilla, ela pe levadinha né?” Hahahahaha…ele é meu tio!

  4. Amei ler o seu blog você esta de parabéns Fabi!!! Sabe sempre digo que não é minha filha que não desgruda de mim e sim eu que não desgrudo dela, por isso me identifiquei com o que você escreveu. Na minha infancia minha mãe estava por perto, mas passava o dia junto dos meus primos e só quando ela dizia que era hora de ir embora eu entrava na casa da minha avó…rsrsrs Eu moro em um sitio onde não temos acesso a internet, minha filha tem uma infancia gostosa mais sinto que sou muito insegura e passo esta insegurança para ela!!! Meu maior pesadelo foi quando ela começou a ir para escola e tive que coloca-la no onibus escolar com a monitora e não era permitido que eu fosse junto, eram 13km de distância e tive que passar confiança pra ela poder ir sozinha mais sofri e ainda sofro… Bem resumindo depois de ler seu blog acho que estou criando coragem pra tomar umas decisões que ja passou da hora de acontecer afinal ela vai fazer cinco anos mês que vem…

    • Oi Daiane, quando a gente tem essa segurança, de que tudo vai dar certo, as crianças também ficam seguras. Eu entendo que você sofra. Todas as mães passam por isso, mas por outro lado, o que pode ser mais gostoso do que ver um filho crescendo, ficando cada vez mais independente, se desenvolvendo? E dentro desse ônibus cheio de crianças, 13 km devem passar em 5 segundos! Um grande beijo e força.

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