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Férias com chuva: um bordado salva

Desde que deixei meu trabalho em uma redação de revista, tive tempo para descobrir que tenho alguns talentos (rs) além do jornalismo. Ok, tá bom, pelo menos capacidades, vai! Antes passava 12, 13, 14 horas na frente de um computador. Era capaz de escrever e editar textos em profusão eu fechava praticamente sozinha 100 páginas de revista. Mas tinha uma frustração: ao final do dia, meu trabalho não se transformava em algo palpável. Uma revista, para ser realidade, depende de muito mais do que aquilo que é feito dentro de uma redação. Sempre quis sentir a alegria que, eu imaginava, sentiam os joalheiros, marceneiros, costureiras e bordadeiras. Fazer algo, do começo ao fim, com suas próprias mãos. E, ao final de cada dia, ter pela frente o fruto das horas de dedicação.

Então eu mudei de vida. Passei a ter muito mais tempo livre, tempo para cuidar do meu filho, da minha casa, de mim. Meu primeiro passo, já que passei a ficar mais tempo em casa, foi instalar prateleiras, mudar o estofado das cadeiras e pintar paredes. E fiz tudo isso com as próprias mãos. Depois fui ajudar a produzir peças para o bazar da escola do meu filho. Eu, que mal pregava  um botão, fiz um calendário enorme de feltro, bonecos de lã de ovelha, tijolinhos de argila para uma casinha. Como tinha então menos dinheiro disponível, tive que cuidar da minha casa: lavar louça, passar aspirador e arrumar as camas entraram para a minha rotina. E, ao final do dia, em vez de ter que tomar um vinhozinho ou assistir Mad Men até conseguir dormir (o que acontecia frequentemente quando eu voltava de madrugada da redação), eu praticamente desmaio na cama, antes das 10 da noite. Como acordo às 6h pra levar meu filho pra escola, pra mim é perfeito: eu durmo um sono dos anjos.

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Os bonecos tricotados pelas crianças da classe do meu filho

Fazer trabalhos manuais me  trouxe alegria. Trouxe um contentamento que anda esquecido num mundo em que ser gerente de tecnologia da informação é bem mais importante do que construir telhados. Colocar a mão na massa deixou de ser valorizado, mas não por mim. Fazer uma almofada para minha casa, costurar uma capa para o meu filho fingir que é Sherlock Holmes ou colocar as prateleiras no lugar dá um sentido ao trabalho. Ainda que os gerentes de tecnologia da informação sejam absolutamente necessários, os trabalhos manuais relembram tempos em que as profissões tinham um sentido mais real. Para meu filho, acredito, é igual. Estudando em uma escola Waldorf, ele teve a oportunidade de aprender tricô, fazer marcenaria, pintar, moldar com argila, fazer pão, fazer tijolos e por aí vai. Nesse ano, em que o trabalho mais importante é construir uma pequena casa, eu pude ver a felicidade que ele sentiu ao construir algo usando as habilidades que deus lhe deu. Mas pegar um pedaço de argila e transformá-lo em um casinha, um sofá ou um exército de soldados não depende da escola em que se estuda. Você pode, agora mesmo, comprar um pedaço de barro na papelaria mais próxima e garanto que, em pouco tempo, seu filho vai ter criado algo para brincar. No dia das crianças, meu filho pediu uma pista para os BeyBlades, espécies de peões de metal que estão na moda agora. Diante do meu “não”, ele e os amigos recolheram ripinhas de madeira que estavam jogadas pela lavanderia e fizeram sua própria pista, usando cola, preguinhos e uma lixa de madeira. Não ficou perfeita como a da loja (um pedaço de plástico que custava uma quantia razoável de dinheiro), mas como eles curtiram planejar e construir a pistinha. Além disso, perceberam, no caminho, que não era algo tão fácil de realizar e foram adaptando ao que era possível – o que, acho eu, também traz um grande aprendizado.

A confecção da coroa de Natal

A confecção da coroa de Natal

Nessas férias, como estamos na Bahia, fomos produzir uma coroa de Natal com as folhas com o que tínhamos à mão. E o resultado foram as meninas fazendo trancinhas com folhas de palmeira. Quando estamos no nosso apartamento, uma caixa de papelão, um pouco de cola e umas tirinhas de papel colorido já viraram nave espacial, castelo e carro de corrida. E não pense que eu sou daquelas mães criativas, que passam horas fazendo coisas junto com o filho. Você vai ver que basta começar junto, o resto as crianças fazem sozinhas. E eu vou correndo pro escritório trabalhar ou pra cozinha, preparar o jantar. Ao produzir suas próprias brincadeiras e construir seus brinquedos, as crianças descobrem do que são capazes e se orgulham disso. Ao final, desenvolvem o que chamamos de auto-estima. Assim como eu, orgulhosa dos meus bonequinhos de feltro e dos estofados novos da sala, acredito que uma pista feita com ripinhas de madeira pode dar às crianças mais alegria do que qualquer outro brinquedo  comprado pronto. O que acham?

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2 pensamentos em “A alegria de trabalhar com as próprias mãos

  1. Eu falo muito que a escola waldorf não é uma escola só para os filhos, ela é também uma escola para os pai (e no meu caso talvez mais para mim do que para elas!). Depois que as minhas filhas entraram para a waldorf (re)descobri as minhas habilidades manuais. Fiz um filtro dos sonhos, aprendi a fazer caseado na oficina do bazar de natal e hoje, já fui capaz de fazer com as minhas próprias mãos um presente de aniversário para uma amiguinha da minha filha (dois pássaros, mamãe e filhote, de feltro numa cestinha “ninho”). Para você ter uma noção, quando criança e adolescente aprendi a fazer tricô, crochê, crochê tunisiano e nunca fiz sequer um sapatinho para as minhas bonecas. No ano passado confeccionei a minha primeira peça de tricô: um cachecol para a minha filha mais velho e já estou finalizando a segunda, também um para a minha caçula. O mais legal de tudo isso, é ver a alegria das minhas filhas e o valor que elas dão àquilo que, como a minha mais velha diz, “a minha mamãe fez com as próprias mãos”. Na terapia antroposófica e na biografia descobri como este fazer manual alimenta o meu sentir, tão sufocado pelo dia-a-dia, pelo excesso de atividade intelectual e que acaba também sufocando o meu querer. O trabalho manual me deixa mais tranquila, mais leve. Adoro fazer as lanternas das meninas! As primeiras foram muito difíceis, porque a primeira frase que eu proferia era: “Xiii … não sei fazer nada dessas coisas, não sei desenhar, não sei pintar, nem costurar (só pregar botão!)”. Hoje, faço de tudo e adoro!!!

    • Oi Andrea, de fato a gente também entra pra escola Waldorf junto com nossos filhos. É uma delícia trabalhar com as mãos e descobri isso com meu filho, assim como você. Beijo e obrigada pelo depoimento.

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