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Minha amiga de infância vai ter filho no final desse mês. Isso me fez lembrar que poucas pessoas falam sobre o momento do nascimento dos filhos. Ok, está nos livros. Também nossas avós, mãe ou tias sempre comentam. Mas os tempos eram outros e livros nem sempre trazem relatos pessoais. Meu primeiro parto foi há 8 anos atrás, mas acho que como todo relato pessoal, ajuda de alguma forma a tirar dúvidas e fazer outras pessoas não cometerem os mesmos erros.

Eu queria muito parto normal. Sempre achei maravilhosa a sensação de se esforçar e conseguir alguma coisa. Se tiver que sentir dor para isso, tudo bem. A recompensa é maior. Para mim, fazer uma cesárea ia tirar completamente essa sensação. Além de arrancar, literalmente, uma experiência forte tanto para mim quanto para meu filho. Minha mãe teve 5 filhos com parto normal, sempre ouvi as histórias achando lindo. Um momento mágico que só as mulheres (depois de passar pelo perrengue das menstruações) têm o prêmio de vivenciar.

Foram 40 semanas de gravidez sem nenhuma complicação. Além de ser demitida e ter que mudar de médico de última hora. Como eu estava muito bem, o médico falou para esperarmos mais, já que a medida das semanas de gravidez nem sempre é exata. Então fui para a semana 41 e depois a 42. Quando estava chegando o dia do prazo final, apareceu a lua cheia. Todo mundo disse em coro: agora nasce. Como eu já estava cansada de ficar ansiosa, fiquei calma. Uma amiga apareceu para me visitar e sai com ela andando pela Vila Madalena. Comi em belo sanduíche de linguiça toscana com vinagrete e voltei para casa pensando que estava mais pronta do que nunca. Algumas horas depois comecei a ter as famosas contrações. Já tinha lido tanto sobre isso, que não tive a menor dúvida de que eram elas mesmas. Também com 42 semanas e lua cheia, não era possível ser outra coisa. Como eu não gosto nem um pouco de hospital e sei que o processo do parto normal é muito longo, fui dormir com as contrações mesmo. Quatro da manhã as contrações me acordam. Então eu vejo que elas já estão vindo em um tempo certo. De meia em meia hora. Acordei meu marido e falei que estava na hora de ir para o hospital. Chegando lá, para a minha alegria, a enfermeira que me examinou disse que eu já estava com 8 centímetros de dilatação. E sim, a essa altura a dor era bem grande. Não dava mais para ficar em pé. Fui levada de cadeira de rodas para a sala de parto normal. Me perguntaram se eu tinha trazido um cd com música para ouvir naquela hora. E ai eu pensei: taí uma coisa que eu devia ter trazido. Provavelmente Under Pressure.

Fiz força para cá, força para lá e o relógio na parede bem na minha frente me mostrava que as horas passavam. Passaram 5, 6, 7, 8 horas horas e o médico todo suado me fala: Chegou a hora da anestesia porque você já está com 10 centímetros de dilatação. Nessa hora, morri de medo. Não tenho medo de sentir dor, mas tenho medo de agulha enfiada na coluna. Muito medo, muita aflição e todos os neurônios e partes espertinhas do meu cérebro dizendo: isso é muito estranho. Mas a agulha foi direitinho no lugar que precisava ir e a partir desse momento, parei de sentir dor.

O fato é que minha pressão é baixa e depois da anestesia comecei a me sentir muito mal. Só lembro do médico anestesista me dando a mão olhando para mim e eu pensando: nossa, ele tem olhos azuis, ainda bem. (mas por quê? sei lá, naquela hora nada fazia sentido) Continuei fazendo força mas o médico cada vez mais suado parecia cada vez mais desanimado também. Até que ele falou: “O bebê não está saindo, continua no mesmo lugar, não tivemos nenhum progresso até agora.” Essa frase invadiu a sala e cada palavra foi ecoando dentro da minha cabeça e retumbando até ganharem forma e eram gigantes. Foi então que comecei a entender que meu plano de parto normal podia não dar certo. Mas como não? O médico colocou um cinto na minha barriga para medir os batimentos cardíacos do bebê e falou: “62. Isso é muito menos do que gostaríamos.” E então chegou bem perto de mim e disse: “Vamos ter que fazer uma cesárea.” E essa frase foi uma das notícias mais tristes que já recebi. Sei que poderia ser bem pior. Mas o fato da tristeza não ter atingido o seu máximo não faz dela uma não-tristeza. Todo o orgulho que eu tinha da minha força, da minha saúde, do meu controle, acabou ali. Foi como ver um zero numa prova que você tinha se preparado muito. Uma prova que você queria passar. Uma prova que você sabe que não vai ter muitas chances de fazer na vida. Comecei a chorar e fui chorando para a sala de cirurgia. Chegando lá, mais anestesia, mais olhos azuis, meu marido bem perto de mim e eu sentindo minhas lágrimas quentes escorrerem sem parar naquela sala gelada. E em poucos minutos, estava ali o meu filho. Com 3 quilos e 800 gramas, 51 centímetros, todo coberto de sangue, com a cabeça amassada, os olhos meio fechados e meio abertos, o choro que eu ia ouvir muito a partir daquele momento e a sensação em todas as células do meu corpo de que naquele momento eu também estava nascendo, pela segunda vez. E como se a emoção de olhar para ele fosse a última coisa que eu podia aguentar naquela hora, logo depois que levaram ele para os exames, eu desmaiei.

Acordei em uma sala gelada. Olhei para os lados e vi outras mulheres deitadas em outras macas. É incrível como uma coisa natural como ter um filho em alguns momentos parece mais uma cena de filme de ficção.

E as cenas de aventura, comédia e drama começam no dia que o médico fala, tudo certo estão de alta, podem ir para casa. Sério? Não dá para ficar mais uns dias? Semanas? Meses?

Se algum dia na vida eu tivesse a chance de viver um momento de novo e consertar alguma coisa, voltaria nesse dia. Tentaria ser mais comandante do meu navio, não teria tomado a anestesia, teria esperado mais um pouco. (Como diria na música se eu tivesse levado o CD, Why can´t we give love that one more chance?) Porque não estou acostumada com medicamentos e acho que isso me prejudicou. Minha pressão caiu muito e isso pode ter atrapalhado o parto normal de acontecer. Mas isso é o de menos. Se pudesse voltar, me cobraria menos. Teria ficado menos triste das coisas não terem saído como eu gostaria. Mas me desculpo hoje. Eu tinha 29 anos quando fiquei grávida. Até ali, tinha lutado com unhas e dentes pelos meus sonhos, pelas minhas conquistas. E até aquele momento, minha força e determinação tinham sido suficientes. Não sabia muito da vida e da sua regra “você não controla tudo, marujo.” Mas como o meu avô dizia: Ah se os jovens soubessem e se os velhos pudessem.

Por Cris Leão

14 pensamentos em “O dia que meu primeiro filho nasceu

  1. Parabens pelo relato e pela coragem de expor seus sentimentos.
    Passei por duas cesareas desnecessarias porque acreditei no que os medicos me diziam.
    Depois disso pari 4 crianças saudáveis em casa, sem precisar de nada.
    Acredite, você pode parir.
    Se tiver outra oportunidade procure um profissional humanizado.
    Um grande abraço

  2. Nooossa, me identifiquei muito!!!
    Eu sonhava em ter parto normal… Sempre fiz yoga e me preparei (de cabeça) para o grande dia… Mas no dia, depois de 8 horas de contrações e dor (meu Deus, nunca senti nada igual) cheguei ao hospital sem dilatação…
    Antes também tinha tomado banho várias vezes e esperado (rezando) em casa… Mas não deu!!! Acho que se eu ficasse lá mais 8 horas conseguiria mas não agüentei… E na hora que a médica abriu a barriga a Maria fez cocô… Aí por um lado achei que a cesárea no fim foi uma decisão segura para evitar maiores riscos… Minha filha nasceu super bem e cheia de saúde… Pelo menos podemos pensar que eles nasceram na hora que escolheram porque esperamos o máximo que conseguimos…
    E no fim, saúde é o que mais importa!!!

  3. Fazem 20 dias que a minha pequena nasceu e passei por uma experiência parecida. Foram 9 horas em trabalho de parto, mas o coração dela estava acelerado demais e eu não consegui dilatar mais do que 3cm. Preferi não tomar ocitocina logo de cara (só tomaria se fosse realmente necessário), e o que seria minha única alternativa para continuar tentando mais um pouco, também deixou de ser um opção. A ocitocina iria estressar mais a pequena e seu coraçãozinho podia não aguentar. Então, assim de uma hora pra outra, eu estava nessa mesma sala gelada e em poucos minutos ouvi seu choro. Eu estava tão assustada que a sensação era de que eu não sentia nada, meu coração parecia ter parado e eu só consegui olhar pra ela e dizer…que cabeluda! Mas aquele amor avassalador veio mesmo quando ela entrou no quarto para a primeira mamada! Então eu descobri que apesar de ter “falhado” no parto, nem tudo estava perdido. Eu ainda podia e iria amamentar…e finalmente conseguiria sentir que estava cumprindo meu papel de mãe e mulher. Ainda dá um nó na garganta quando penso na experiência maravilhosa que eu perdi, mas existem outras tantas ainda por vir, e tenho certeza que essa dor acabará sumindo. Obrigada Cris, por nos encorajar a dividirmos nossas experiências.

    • Oi Myca, a gente precisa entender que não “falha” quando o parto normal não acontece. Algumas crianças precisam nascer de cesárea e isso não nos faz menos mãe. Demorei anos para realmente me “desculpar” por isso. Mas a verdade é que no passado só haviam partos normais mas muitos bebês e/ou mães não sobreviviam a ele. Vamos combinar de nos cobrar menos? ; ) Ter um filho com saúde já é o milagre mais lindo de todos.

  4. Achei ótimo seu relato e os outros comentários porque tb passei pela mesma situação. E a sua resposta para Myca foi sensacional, só depois de algum tempo fui entender tudo isso que vc disse a ela! Parabéns pelo blog! Estou adorando seus textos e me identificando bastante com eles!

  5. Cris obrigada pelas palavras. Realmente vc tem razão… ainda me falta um pouco de aceitação e suas palavras estão me ajudando nesse processo de reflexão. Ser mãe está sendo a descoberta de uma forma nova de ver o mundo e a mim mesma. bjos

  6. Não tive como não chorar lendo seu relato, que bem poderia ser o meu.
    Hoje minha filha esta com uma ano e meio e já consigo aceitar e começo a amar minha história, mas no início foi muito dificil. Também tinha 29 anos quando ela nasceu, tb tomei anestesia e minha pressão caiu, e tb acabou em cesárea. Como você falou essa é uma prova que não se pode repetur muitas vezes e que pra minha filha foi a única, o seu nascimento…
    A maior lição que aprendi e aprendo todos os dias com a maternidade é essa: não se pode controlar tudo.
    Descobri seu blog antes mesmo de engravidar e desde sempre amo seus textos, obrigado por compartilhar, sempre me fazem refletir na vida e na minha maternagem.

  7. Cris, muito humano seu depoimento. Eu idealizei demais o meu primeiro parto. Por inexperiência ou arrogância, achei que tudo naquele momento estaria sob o meu jugo… Ledo engano. Tive um trabalho de parto longo e confesso que não sei se por medo, mas a dor que senti era insuportável. Demorei para admitir, mas para mim a dor das contrações era surreal. Não era para mim, muito embora ainda defenda o parto normal. Fiz uma cesárea. Alternei amamentação no peito com leite artificial e vivi a minha experiência. Aceitei que falhei no parto, na amamentação , mas acertei em outros campos da maternidade: doação do meu tempo para as crianças, tendo a possibilidade de acompanhar de perto o crescimento deles. De quebra, me aprimoro como ser humano cada dia que compartilho com os meninos. Que possamos respeitar as escolhas possíveis de cada um. A estória individual é única. Um bj grande

  8. Nossa, que demais! Estou lendo esse relato em 2017, em meio à tantas pesquisas e muito angustiada pensando em como não cair na lábia dos médicos que, infelizmente, optam pelo mais conveniente.
    Pretendo engravidar no próximo ano e, já estou em busca de um médico mais humano para me acompanhar…

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