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Escrevi os textos abaixo porque sinto muita compaixão pelas crianças dessa nossa época. Já pensou quando você era criança se tivesse uma agenda com atividades? Se tivesse horário para acordar e para sair de casa com meses de idade? Se tivesse a missão de ser inteligente e bilíngue com 4 anos? Ou a responsabilidade de deixar a mãe feliz porque coitada, largou a profissão por sua causa? Ou ter que disputar a atenção dos seus pais com esses aparelhos animados e eletrônicos? Ou assistindo TV, ao invés de Papa Léguas você aprendesse sobre a extinção dos animais e como o detergente pode acabar com a vida marinha? Pois é, eu acho que é muita pressão em cima dessas almas doces e por isso resolvi escrever (pelo menos um pouquinho) por elas. 

Diário de Criança

Parte 1

Tatá era um bebê que tinha um buraco na barriga. Coitado, só ficava chorando. Até dormir era difícil. Também, um buraco na barriga não é uma coisa fácil de se esquecer. Até que um dia, a mãe do Tatá colocou ele em cima da barriga dela. Ele sentiu a batida do coração, o cheiro, a respiração, ele sentiu a barriga de novo. E afinal era só isso que Tatá queria.

Parte 2

Eu tive uma ideia. Mas ideia de criança não vale igual ideia de gente grande. Para uma ideia minha ganhar de uma ideia do meu pai, eu tinha que fazer aquela cara mais linda do mundo e não é sempre que eu consigo. Também tinha que coincidir com aquele dia que meu pai chega do trabalho e nem lembra do email. Ideia do meu pai é igual regra. Ele fala: tive uma ideia e a gente já sai fazendo. Ele nem termina a frase. Eu fico sem saber o que vai acontecer, onde a gente vai, com quem, porquê. Mas quando ele me dá a mão, eu sinto que a ideia é boa.

Parte 3

A professora de inglês falou que quando a gente está nervoso, ansioso ou muito alegre, animado e apaixonado ao mesmo tempo, a gente está com borboleta na barriga. Pelo menos é assim que os americanos falam.

 Então hoje eu estou com uma borboleta na barriga. Porque estou com vontade de correr no corredor da minha casa até o infinito. É como se o corredor fosse uma floresta, as paredes são árvores e tem passarinhos coloridos voando por todo lado. Uma alegria que me fez até esquecer que hoje não é sábado, não é domingo, portanto, nada de especial vai acontecer. É só a babá e o telefone dela tocando o dia inteiro. Como ela gosta de conversar no telefone. Mas hoje eu não estou pensando na babá, só na borboleta. Aliás não estou pensando porque a gente pensa em quem está longe e ela está aqui comigo. Dentro da minha barriga. As crianças da pracinha nem vão tirar meu humor quando fizerem aquelas coisas de furar a fila, chorar sem motivo, fazer cara feia. As asas da borboleta não vão parar de bater por causa delas. 

Até que na aula de ciências, a professora disse que borboleta só vive 2 semanas, depois morre. Odeio explicações científicas. Elas estragam tudo.

Parte 4

Minha mãe fala para eu não reclamar da minha escola e da minha professora brava porque para ser alguém na vida, é preciso estudar muito. Ela estudou muito, tem um trabalho que ela não gosta (pelo menos está sempre reclamando), ganha dinheiro e gasta o dinheiro para depois reclamar que não sabe qual roupa vai colocar. Mas quando ela está com as amigas, lembra das aventuras da infância e parece outra moça. Solta o cabelo, solta os ombros, solta o sorriso e até gargalhada ela dá. Eu não odeio a escola, mas eu também gosto mais dos meus amigos.

Parte 5

Meu pai sai todo dia para trabalhar. Ele fala que não quer ir, mas precisa por causa do dinheiro. Porque sem dinheiro não dá para a gente viver. No domingo a gente foi para o parque. Eu rolei na grama com minha mãe. Ela falou que sempre fazia isso quando era criança. Nunca vi minha mãe tão feliz. É fácil saber quando ela está feliz, porque o olho dela brilha. Meu pai ficou olhando pra gente e tirando fotos. Ele devia estar achando bonito. Depois corremos os três pelo parque de mãos dadas. Quando a gente estava bem no alto do parque, sentamos juntos num pano que minha mãe levou. Eu abracei os dois ao mesmo tempo. Ficamos assim com o rosto colado fazendo um triângulo e meu pai disse: tem coisa melhor do quê isso na vida? Quando o sol foi embora, fomos para casa jantar, ver TV, ler livro. Como fazemos todos os outros dias. Mas nesse dia, ninguém lembrou do dinheiro.

O mundo das crianças é tão bonito. Vamos preservar?

Por Cris Leão

5 pensamentos em “Diário de uma criança

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