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Meu filho desde que fez 8 anos voltou a ter o impulso de perguntar sobre tudo. Quando ele tinha 4 anos e começou com essa fase, eu só respondia: Não é da sua conta, nariz sem ponta. Foi o que a professora do jardim Waldorf, Quintal do João Menino, me ensinou. E eu adorei a ideia. Ele sempre ria. E com o tempo parou de perguntar sobre tudo. Afinal, uma criança de 4 anos não precisa mesmo saber sobre tudo. Precisa saber brincar.

Mas agora como ele já é grandinho, eu respondo e gosto de ter um menino curioso. Passamos muitas tardes na biblioteca aprendendo e matando a curiosidade dele. Ele me lembra dos meus 4 irmãos, sempre em alguma empreitada científica para descobrir algo. Eu nunca fui de me interessar tanto assim por ciências, achava graça, mas preferia as brincadeiras com imaginação do que abrir um sapo para ver como funciona dentro (que era o tipo de coisa que meus irmãos faziam). Enfim, agora meu menino curioso pergunta: Quantos dias de vida eu tenho de idade? Porque os mamutes foram extintos? O carro mais rápido do mundo, consegue voar? Será que é legal ter um trailer? E por ai vai… Um dia desses ele me perguntou: quem é mais forte: o homem ou a mulher? E eu: A mulher. Isso já faz mais de um mês e até hoje, vira e mexe, ele me confronta com alguma “prova” de que eu estou errada. Ele diz: a Fulana da escola não consegue levantar a mesa, o Fulano sim, então porque você falou que a mulher é mais forte? E eu falo: Meu filho, eu depilo os pelos e não sinto quase nada, você chora quando eu corto a sua unha! Não mãe, não tô falando dessas coisas de chorar, tô falando de ser forte. E eu postergo a continuação para depois. Enquanto ele continua falando, eu paro de escutar e finjo que sumi com meus amigos alienígenas e volto depois do almoço, quando todos estiverem almoçados e a louça estiver lavada. (Imaginação serve para essas coisas, até a realidade cair como uma bigorna na sua cabeça, você se diverte) Mas lá no fundo, eu estou sempre pensando em como a vida, a cada instante, cobra mais das mulheres. Não estou falando das cobranças inventadas “ser linda”, “ser super profissional”, “ser super mãe e produzir filhos gênios tipo uma galinha dos ovos de ouro”. Estou falando das cobranças da natureza. Se voltarmos para a pré-história a mulher ainda seria a que sente a dor do parto, a que amamenta os 11 filhos, a que escuta perguntas o dia inteiro, enquanto o homem é o que vai caçar e no meio do caminho encontra os amigos, bate um papo descontraído e depois que matam o bicho, é ele que volta pra casa como um vitorioso e usando um casaco de pele novo. Enquanto a mulher ficou o dia dentro da caverna e nem novela ruim ela tinha para se distrair.

Chata constatação. Chega a ser revoltante. Mas e se ao invés de ficar listando a quantidade de coisas que temos que fazer e eles não, ou ao invés de ficar tentando fazer tudo igual, tentando ser igual, a gente não assumisse as diferenças? Assumisse a verdade? Como eu disse para o meu filho: Filho, pensa que você é Deus e a coisa mais importante que você já criou é a vida. Você ia entregar a semente da vida na responsabilidade do mais forte, ou do mais fraco?

Eu sei que nossa força as vezes (ou muitas vezes em um mesmo dia) capenga, fica apagada, quase invisível. Eu sei que tem dias que parecem vidas, como no texto e que tem horas que dá vontade de sair correndo de casa gritando pela rua puxando todos os cabelos da cabeça (a cabeça inclusive que antes de ter filhos tinha muito mais cabelos). Mas calma, respira fundo e lembra que você é forte. E ame você por isso. Reconheça a força que tem, pegue ela nos braços e deixe ela atuar sobre você. Porque força, meu filho, não é carregar peso. Força é conseguir esvaziar a cabeça dos conceitos pré-definidos, agarrar as rédeas da carroça, largar o papel de vítima e viver sem amargura.

Desejo que os poemas abaixo, de Carlos Drummond de Andrade e Adélia Prado ajudem a entender e relembrar o significado da força. Espero que gostem. E que a força esteja com você!

Poema de sete faces – Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Com licença poética – Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Por Cris Leão

Foto: Estefi Machado

4 pensamentos em “Quem é mais forte: O homem ou a mulher?

  1. Obrigada, Cris!

    Seu texto, foi hoje, o que eu precisava ler! Tenho uma rainha que completa 8 anos, dia 15 e uma princesinha que completa 4 meses, dia 16. No pude parar de trabalhar, pois tenho meu negcio e uma scia pouco solidria rsrs. Minha baby princesa tem me acompanhado todos os dias. Decidi no coloc-la na escolinha to cedo. Estou esgotada, porm sinto que a cada dia minha fora se renova, para que no dia seguinte eu possa vencer a mim mesma, nessa louca batalha emocional. s vezes, me sinto sozinha, mesmo com meu marido sendo ultra, mega, blaster companheiro.

    Quem disse que era fcil? Mas vale pena!

    Obrigada pela leitura, gosto muito dos seus textos. Hoje, porm me tocou mais fundo.

  2. Que legal que gostou, Simone. E parabéns pela força. Daqui a pouco sua filha de 8 anos pode ajudar com a baby princesa. A luta é difícil, mas olha quanta coisa boa você tem, né? Espero que consiga sempre separar um tempinho só para curtir tudo isso. Grande abraço!

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