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Fui conversar com o dentista antroposósfico Alexandre Rabboni sobre saúde da boca e percebi que não dá nem pra falar em dentes saudáveis sem falar em vida e educação saudáveis. Aqui, ele conta um pouco como contribuir para que seu filho tenha dentes fortes – e boa saúde – sem mesmo falar em escovação e flúor.

Quais são os maiores problemas de saúde bucal hoje? Têm solução?

Comecei a perceber esses problemas quando ainda estava na faculdade. Primeiro, vi que a chupeta estava muito presente na vida das crianças que não mamaram no peito. Depois, que muitas mães que tiveram dificuldade em amamentar foram as que fizeram cesáreas, quando os bebês saem do útero e vão direto para os cuidados das enfermeiras e só mamam 12 horas depois de nascer. É muito tempo e alguns perdem o primeiro reflexo de sucção, que aparece mais forte na primeira meia hora de vida. infelizmente, o que era natural há tempos atrás, amamentar no peito, passou a ter que ser aprendido. As coisas que sabemos naturalmente ou instintivamente estão se perdendo e o conhecimento está vindo por meio de conceitos que acabam não virando realidade. Esse é o maior problema das crianças que aparecem no meu consultório: estão longe do que é natural na vida.

Como a dentição está ligada ao desenvolvimento?

A vinda de cada dente está ligada a um momento da vida da criança. Ela nunca é a toa ou aleatória. Por exemplo: por volta dos 8 meses vêm os primeiros dentinhos, os incisivos inferiores. É justamente quando a criança começa a engatinhar. Depois vêm os incisivos superiores centrais e eles  tocam os de baixo. A boca, então, ganha dimensão vertical. E o corpo “copia” o que acontece na boca: o bebê começa a ficar de pé por volta de 1 ano, 1,5 ano, exatamente nessa fase. Aos sete anos vem a troca dos incisivos inferiores. E isso tem uma ligação com o processo de alfabetização. É nessa época em que as forças que atuavam no organismo para que ele se desenvolvesse se liberam para outros usos. Agora sim a criança está pronta para usar o intelecto. Por isso a alfabetização na pedagogia Waldorf deve começar na época da troca de dentes, lá pelos 7 anos. É quando as forças que eram exigidas para o desenvolvimento físico já podem ser direcionadas para outra coisa pois os dentes já estão todos formados, ainda que não possam ser vistos.

Por que isso coincide?

[Rudolf] Steiner (filósofo criador da Antroposofia) diz que a gente pensa com as mesmas forças que são usadas para formar o organismo. Nessa época de troca dos primeiros dentes, já se tem a formação de esmalte de todos os dentes que irão erupcionar até o segundo molar. Assim, todas essas forças que formaram os dentes e o ajudam a formar o organismo são liberadas para o pensar, para construir o intelecto. Elas ganharão outro emprego. E hoje começo a ver crianças que estão trocando os dentes muito cedo, entre 5 e 6 anos. Já vi até com menos que 5 anos. Isso tem a ver com a precocidade atual. À medida que você estimula intelectualmente uma criança pequena, ela responde. Você pode ensinar inglês com 4 anos, matemática com 5. Ela vai aprender, mas as consequências virão. Hoje tem criança com 5 anos que sofre de bruxismo! Com toda essa tensão no intelecto, ela vai perder forças que deveriam ser direcionadas para formar seu organismo, seus dentes, seus órgãos. Vai perder vitalidade quando ela mais precisa. E esse aspecto, de fazer o cérebro funcionar antes do tempo, vai ajudar até a determinar a forma que os órgãos terão ao longo da vida.

Qual a relação entre os dentes e o desenvolvimento de cada parte do corpo?

O organismo está todo representado na arcada dentária. Nos incisivos centrais temos o sistema neurosensorial, que corresponde à cabeça, pensamentos, intelecto. E, por isso, quando você troca os primeiros incisivos você está pronto para treinar o pensar. Quem é mais intelectual, pensa mais, é mais pálido, mais endurecido, vai ter menos problemas nos dentes incisivos, menos cáries, menos apinhamento etc. Os que estão mais ligados ao processo metabólico e motor (que corresponde às vísceras, às glândulas, membros inferiores), são pessoas mais quentes, mais coradas, mais ativas, geralmente terão os molares mais fortes e bem desenvolvidos e os incisivos nem tanto. Já os dentes caninos e pré-molares estão ligados ao sistema rítmico, que é a morada do nosso eu, e está ligado ao coração e aos pulmões: eles mostram como isso se desenvolveu em cada um, são um espelho. Não existe pior ou melhor. Existe a necessidade, a partir dessa observação, do que está mais fraco, de se buscar o equilíbrio entre esses três sistemas.

E como se busca esse equilíbrio?

Hoje pendemos para o intelecto. As crianças são muito mais neurosensoriais. Elas são obrigadas a pensar e isso desvitaliza o organismo. Os pais têm medo que a criança fique um ano atrasada na escola, mas esquecem que terão a vida toda para estudar. No entanto, o corpo só se forma durante um período especial e limitado da vida. Se seu filho está tendo que pensar cedo demais, alivie um pouco esse pensar. Faça um e escalda-pés antes de dormir, ponha uma bolsa de água quente nos pés ou na panturrilha na hora de ir pra cama, deixe ele brincar e se mexer bastante. Isso ajuda a tirar a tensão e o calor da cabeça e puxar para o sistema metabólico e motor, onde deve estar. E isso serve também para os adultos. Hoje temos um excesso de tensão na área da cabeça,  um excesso de pensamentos…

Você diz que ritmo está ligado ao desenvolvimento bucal também. Como?

Na verdade, está ligado ao desenvolvimento do corpo todo. Observe o ritmo diário e semanal de seu filho, isso dá a ele segurança e conexão com o que é natural. E quando falo de ritmo não estou dizendo pra fazer karatê às terças e quintas e inglês às segundas e quartas. Isso é rotina. O ritmo está ligado aos processos naturais e, para quem vive em uma grande cidade, é fácil perdê-los de vista. Temos o ritmo do dia: quando o sol está subindo nossa energia também está. Depois ele cai e a gente começa a se recolher. Por isso o ideal seria estudar e trabalhar mais intensamente no período da manhã. Na semana é o mesmo. Deveríamos começar a segunda com todo o pique e ir baixando a bola lá pela quinta, quando vai chegando o período de descanso. Mas a gente já começa a semana cansado porque se encheu de atividades no final de semana. Observe também o ritmo do ano: no frio a gente se recolhe e no calor a gente se expande. Essa observação traz saúde porque nos coloca em contato com o que seria natural e que está se perdendo.

Entrevista feita por Fabi Corrêa

3 pensamentos em “Saúde bucal não tem só a ver com escova

  1. Adorei este post Fabi! Muito obrigada! Já tenho contato com a antroposofia há um tempo, minhas filhas estudam em escola waldorf há cinco anos, faço terapia com uma psicóloga antroposófica, faço uso da medicina e da medicação antroposófica, mas ainda não conhecia sobre a odontologia antroposófica. Estou encantada! Adoro o blog de vocês, leio todos os posts (risos). Grande abraço e parabéns pelo excelente trabalho!

  2. A antroposofia permeia todas as áreas, medicas e não medicas, e na Odontologia não é diferente. Realmente é encantador … estou concluindo minha especialização na Odontologia Antroposofica, na unica escola brasileira da area, IDEIA – em Botucatu-Demetria com a Dra Celia Lulo e, é um prazer ter na odontologia antroposófica uma visão tão ampla do ser humano.Trabalho exclusivamente com crianças e no universo infantil posso atuar mais facilmente pois a ligação delas com o mundo espiritual ainda é intima !

  3. Olá!
    Tive a oportunidade de conhecer a biocibernética bucal logo após minha formação como dentista. Isto mudou meu modo de pensar sobre minha área de trabalho.Muito me ajudou a entender a pessoa como um todo. Parabéns. Hoje a Antroposofia está fazendo a divulgação deste saber, que bom, vamos ter Odontólogos diferenciados.Tenho um artigo sobre desmame

    publicado no Face
    Marlene Ferrari
    Cirurgiã Dentista aposentada.

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