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Quando eu trabalhava fora, na redação de uma revista de uma grande editora, e passava rapidinho pra deixar meu filho na escola antes de começar aquelas jornadas de 10 ou 12 horas (que se estendiam pra 16 ou até 18 nos fechamentos), tinha muita inveja (é, inveja mesmo) das mães que podiam ficar na porta da escolinha por mais um tempo, olhando seus pequenos brincar, batendo um papo com a professora para saber o que estava rolando e depois passavam na hora do almoço para buscá-los. E nas reuniões de pais contavam como é que eles chegavam da escola, todos sujos de terra, ou com uma flor na mão ou coisa assim. Talvez elas também tivessem inveja de mim, que em vez de estar de chinelinhos e um rabo de cavalo, ia de salto alto, maquiada, com uma bolsa bonita, direto pro trabalho. Ia para alguma reunião chata, sem muito sentido, que me mandavam para cobrir um chefe que estava ocupado. Também tinha inveja de quando elas contavam que na hora de dormir os filhos tinham falado isso ou aquilo, enquanto eu, de novo, estava revisando algum texto pela terceira vez ou correndo pra escolher uma foto para ilustrar tal matéria. Mas eu pensava: não tenho outra escolha, se eu não estivesse aqui, trabalhando loucamente, não poderia pagar a escola, o supermercado, a viagem de férias. E eu seguia em frente.

Sei que o trabalho realiza, sustenta e dá sentido à vida. E eu sempre tive orgulho do meu. Mas, naquela época, enquanto meu filho tinha 4 ou 5 anos, não conseguia achar que tinha algo mais importante do que passar mais tempo com ele, acompanhar o dever de casa, deixar ele me fazer de gato e sapato nas brincadeiras, almoçar junto. Precisava e queria trabalhar, mas não naquele ritmo. Mas, como a gente bem sabe, as empresas brasileiras estão se lixando para a importância de se exercer a maternidade como se deve. E meu chefe facilmente me chamava para uma reunião às seis da tarde, mesmo sabendo que meu filho ia pra cama às sete. Eu ia sem pensar muito, afinal, o sustento da casa dependia de mim e meu filho idem. E eu seguia em frente.

Até que um dia uma psicóloga me falou uma coisa radical. Pode até ter sido uma provocação de sessões de terapia, daquelas que se faz para ver a reação, para ver se cola. Mas dessa vez colou. Ela disse: seu filho não é prioridade nem na sua vida, nem na do pai dele. Ele não é prioridade pra ninguém. E criança tem que ser prioridade na vida de ao menos um adulto. Como assim, se eu trabalhava para dar o melhor pra ele? Como assim, se eu passava dias enfurnada em um prédio pra garantir o futuro dele? Enfim, desse dia em diante, não consegui mais seguir em frente.

Comecei, então, a pensar no que faria para ter mais tempo com o Antonio. Tentei acordos no trabalho, de entrar mais tarde pra passar a manhã livre. Mas sempre tinha um projeto importante para fechar e vira e mexe acabava indo mais cedo. Ou estava tão cansada que acordava mais tarde. Depois combinei de ter um dia por mês livre, após os fechamentos que se prolongavam pela madrugada, mas meu pequeno estava tão estressado porque tinha ficado uma semana sem me ver que esses dias eram os piores, com choros, birras e muitas emoções à flor da pele. Fui tentando, tentando, até que me senti tão cansada que tive uma crise de stress. Parei de trabalhar por um tempo e, quando voltei, já não havia mais lugar para mim. Na empresa. Porque o tempo que eu tinha passado com meu filho durante a licença mostrou que tinha um lugar imenso a ser preenchido lá em casa. Tive outros convites de trabalho, mas já não tinha energia pra isso. Como fazer, então, para continuar o papel que a vida me obrigou – ou suplicou – para que eu desempenhasse? Percebi que dava pra viver com menos. Menos cobranças, menos stress, menos viagens de férias caras, menos sorvetes de R$ 10 a bola. Passávamos férias no sítio de algum amigo ou na casa da vovó, o que pro meu filho é o lugar melhor do mundo. Como jornalista (e acho mesmo essa profissão maravilhosa porque te coloca em contato com muita gente), acionei meus contatos, passei a fazer frilas e dar consultorias, no início. Logo de cara, ganhava metade do meu salário anterior. Mas já não tinha necessidade daqueles presentes que a gente se dá, dizendo “eu mereço, já que trabalho tanto”. Aqueles jantares caros, aquele sapato lindo, aquele vinho bacana pra você relaxar quando chega em casa, cansado, do trabalho. O meu “eu mereço” passou a ser, naquele primeiro momento, passear na praça com o Antonio, dormir mais cedo pra acordar na boa quando o despertador tocasse às seis da manhã, fazer um almoço gostoso em família, poder trazer um cachorrinho pra casa e deixar meu filho mais alegre. Vi que dava pra viver com pouco mais da metade do que eu ganhava antes. E nunca tínhamos vivido tão bem.

Eu já não precisava mais de babá também. E por isso pude economizar uma boa grana. Passei a fazer parte do trabalho doméstico, com a ajuda do Antonio, que eu fui educando pra não bagunçar tanto. Minha mãe vinha pra me ajudar quando eu tinha reunião ou um trabalho grande pra entregar. Renegociei o valor da pensão com meu ex-marido, já que agora seria eu a babá. De alguma maneira, eu confiava em algo acima e mais poderoso que eu. E essa ajuda veio em diversas formas, em todos os momentos que precisei. Não me preocupava mais em juntar dinheiro para comprar algo novo, mas em viver o presente. E o futuro foi tão bem que nem eu acreditava. Minha relação com o meu filho (e todas as minhas outras relações) mudou completamente. Se ele antes já não contava comigo para colocar pra dormir à noite, agora esperava ansiosamente a historinha e a oração na cama. Precisava de mim para a lição de casa e me esperava na porta da escola. Meu filho passou a me ver mais forte e mais inteira. Era assim que eu me sentia e, no primeiro Dia das Mães desse novo momento, meu presente foi um desenho inesquecível. Uma mulher com os cabelos cacheados (eu!) enfrentando um dragão com uma espada. Sem titubear. “Eu te amo, mamãe”. Estava escrito lá. Nunca tinha recebido nada assim. E nem preciso dizer o quanto chorei ao perceber que meu filho viu, ao jeito dele, a minha força em fazer exatamente o que minha natureza me mandava fazer. Sem a pressão da carreira, do carro novo ou da prestação da casa, que não são ordens da minha natureza, mas da natureza esquisita da sociedade em que vivemos, onde status e poder de consumo importam mais do que cuidar de uma criança e onde as mães não podem contar com quase nada para ajudá-las nessa tarefa tão essencial em nossos dias.

Por Fabi Corrêa

PS. Em tempo: Cris Leão, minha companheira de blog, contou a história dela e o que ela ganhou quando parou de trabalhar fora no post abaixo. Inspire-se!

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227 pensamentos em “Como parei de trabalhar fora para ficar mais tempo com meu filho

  1. Me emocionei muito ao ler tudo isso, alem de me identificar bastante pois tambem deixei de trabalhar fora por causa dos meus pequenos por sentir a mesma necessidade que a autora do texto, agora tenho procurado dentro de mim alguma habilidade algum
    trabalho onde possa conciliar estar perto deles e ter alguma renda….

  2. Amei o texto e descobri que somos muitas que deixamos de trabalhar fora para cuidar dos pequenos. Não me arrependo pois consegui trabalhar em casa como freela fazendo tradução (sou formada em Letras). E todos os dias, eu sou a primeira e a última pessoa que meu pequeno de 1 ano e 6 meses vê ao dormir e acordar. Simplesmente amo!!

  3. Estou aqui novamente, ainda amadurecendo para tomar minha decisão, mas acredito que fazendo a contagem regressiva. Antes meus meninos tinham 6 e 4. Agora tem 8 e 5 (2,5 anos de diferença). Achei tudo que li muito rico e interessante, até o questionamento de Valéria Souza e a resposta de Cris Leão. Também já me fiz a pergunta sobre quanto deve ter ficado a renda familiar das que tomaram a decisão de deixar ou diminuir trabalho para que eu tivesse um parâmetro para a minha realidade. Também não tenho o apoio que gostaria de alguns familiares e boa parte dos amigos, pois não parecem entender o sentido de assumir com mais presença a maternidade diante da questão profissional. Pela minha própria experiência com famílias (trabalho com adolescentes) vejo como é crucial o papel dos pais (e aqui faço o destaque para as mães). Sei que muitas não tem ou não visualizam a possibilidade de sair do trabalho e, mesmo assim, dão seu máximo. Contudo, creio que é importante levar em conta, que essa energia para dar conta de tudo, às vezes fica escassa e, diante de tantas cobranças, algo fica pela metade ou então, a mãe fica em total desgaste e talvez adoecimento. É isso! Aprendo muito com esses depoimentos e espero ter novidades em breve!!!

  4. Eu também fiz essa escolha. Escolhi o meu filho, o MEU BEM MAIOR. Nossas vidas mudaram e muito. Para melhor. Não me arrependo dessa escolha. Ganho menos mas TENHO MAIS, muito MAIS. Estou acompanhando o crescimento do Leo de perto, participando mais ativamente da vida dele e, com certeza, tudo isso já fez a diferença em nossas vidas. PARABÉNS PELA NOSSA CORAGEM, amiga jornalista, mãe, mulher e muito mais.

  5. Olá Fabi! Amei o seu testemunho. Emocionante. Acabei de escrever um livro sobre este tema e gostaria de publicar o seu testemunho entre alguns que estarão como Apêndice. Se quiser ler o meu livro envio por e-mail!

    Deus lhe pague!

    Abraços

    Julie Maria

  6. Nossa, como eu me sinto assim.Estou ficando doente por ver claramente que meu filho sente a minha falta no seu dia a dia, assim como eu sinto a dele. meu filho esta com 5 aninhos também.Obrigada por compartilhar esse sentimento que é o mesmo que o meu. Estou estudando também as possibilidades de parar de trabalhar fora, e ter mais tempo pra nós.

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