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Uma vez eu li um texto da Danuza Leão com este título. E foi um verdadeiro tapa na cara, empurrão, banho de água fria, mas tudo no bom sentido. O sentido para cima. As mulheres são cobradas e se cobram tanto que realmente a melhor coisa a fazer é o exercício de desistir. Corpo, casa, marido, carreira, ser filha, ser mãe, ser amiga, ser dona de casa. Se você não desistir de alguma coisa, não vai conseguir nenhuma delas. Lembra aquela regra básica da física: Um corpo não pode ocupar ao mesmo tempo dois lugares distintos? É simples assim.

Dando o exemplo da minha vida, aos 24 anos, depois de me formar na faculdade e ter 3 anos de experiência no mercado de Belo Horizonte, foi ótimo desistir de ser filha, de ser irmã, de ser amiga dos amigos de infância (me desmisturar) e ir atrás da minha carreira. Fui para Portugal com meu portfolio debaixo do braço e decidida que ali eu ia aprender tudo o que eu queria na minha profissão. E em Lisboa eu aprendi a ser redatora, me banquei sozinha por 4 anos com direito a muitas viagens pela Europa. A única coisa que eu tinha quando cheguei lá, era o dinheiro do meu carro. (Um Ford Ka) E sim, eu precisei desistir de ter um carro.

Quatro anos depois, eu decidi desistir daquela vida e voltar a ser filha, ser irmã e ser amiga dos meus velhos amigos. De volta ao Brasil e pela primeira vez em São Paulo, o destino (e meu namorado na época) me fizeram grávida e depois de ser demitida aos 4 meses de gravidez, eu tive que desistir da minha carreira.

Abri uma marca de camisetas, mas desisti porque era muito trabalho para pouco lucro. Comecei a escrever para revistas, mas também desisti pelo mesmo motivo. Mudamos para NY e lá eu tive que desistir de querer ganhar dinheiro porque meu inglês era tão ruim que nem em uma lanchonete eles me empregaram. Depois de um ano e meio, comecei a trabalhar como redatora em uma agência super bacana. Mesmo tudo estando bem por lá, tivemos que desistir de NY porque minha sogra estava doente e nessa hora era mais importante estar com ela. Como voltei grávida de 6 meses, tive que desistir de pensar em procurar emprego, mas fiz bastante frilas. Quando minha filha nasceu, eu tive que desistir da profissão que em NY tinha tomado um novo fôlego. Porque com dois filhos pequenos não me via na rotina de uma agência. Comecei a dar aulas em uma faculdade. Mas um ano depois, decidimos que era a hora de comprar um apartamento, tive que desistir da ideia de trabalhar poucas horas e comecei a trabalhar de novo em publicidade. Depois de um ano, recebi o convite para ser diretora de criação, mas tive que desistir porque não aguentava mais ficar tanto tempo longe das crianças. Voltei para a faculdade e fui convidada a ser coordenadora. O salário era o suficiente para continuar pagando o apartamento e o horário era muito melhor do que na agência. Depois de um ano e meio trabalhando 4 horas por dia mas tendo a responsabilidade e uma distância de pelo menos 1 hora por trajeto, tive que desistir para ficar de novo mais perto das crianças.

Agora em Miami, sou mãe, dona de casa e motorista. Mas não estou desistindo de voltar a trabalhar um dia. Por isso escrevo no blog, por isso procuro freelances, procuro conhecer pessoas, sair ao máximo do universo de mãe, (sempre que é possível) respirar e ter outras conversas, por isso estou estudando Antroposofia. Não sei o que vou ter que desistir lá na frente, mas já entendi que a vida tem fases e quando sabemos respeitá-las e soltar o que está pesado e agarrar o que está pedindo, não parece que estamos perdendo nada no caminho, só andando para frente.

Em algumas fases da vida, os amigos parecem que dão mais trabalho do que qualquer outra coisa, então desista. Tem horas que o emprego que você amava, a carreira dos seus sonhos ficam parecendo um fardo muito pesado para carregar. E parece que cada dia que passa, traz a sensação triste e pesada de que foi um dia a menos. Então desista.

Eu sei que lendo assim parece que fica tudo muito fácil, é só desistir. Mas existe uma diferença grande entre sair desistindo das coisas pelo caminho, ou desistir do que parece que está atrapalhando o seu caminho. Acho errado desistir para optar pelo mais fácil. Não gosto de quem acha que a vida é férias constantes e que só leva a sério quem é trouxa. Não é isso que quero dizer. Sempre levei tudo muito a sério. Só entendi que não dá para agarrar tudo ao mesmo tempo. E que desistir agora não significa não voltar a agarrar depois. O que não dá é para querer agarrar tudo ao mesmo tempo e o tempo todo. Isso não sou eu que estou falando, é a regra da física.

Ontem à noite, li para as crianças a história de uma coruja que vivia em uma casa de dois andares. Quando ela estava em cima, sentia falta do andar de baixo. Quando ela estava embaixo, sentia falta do andar de cima. (Alguma semelhança com os seres humanos?) Então para resolver isso, ela ficava correndo de um andar para o outro o mais rápido que podia. Mas ainda assim ela sabia que quando estava embaixo não estava em cima e vice versa. E de tanto correr de um lado para o outro, ela ficou cansada e resolveu sentar no meio da escada que separava os dois andares.

Claro, o difícil de tomar uma decisão é abrir mão de alguma coisa. Eu que já tomei várias decisões (uma vantagem em se ter 37 anos) concluo que o melhor não é querer estar em todos os lugares ao mesmo tempo, mas sim estar presente onde se está agora. Sem ficar pensando que existe um outro andar, outras possibilidades, outras pessoas, outras conversas. E entender que a vida é mais leve do que consideramos na maior parte das vezes. Aproveitar mais e preocupar menos. Estar inteiro naquilo que se faz naquele momento, estar presente, parece muito banal e até sem sentido por ser uma frase tão batida, mas no fim, acho que é o grande sentido da vida.

Por isso nos momentos de angústia, lembre que você não está abrindo mão de nada disso para sempre. Só está desistindo do que é menos importante para você nesse momento. Porque sim, você descobriu que viver esse momento é o mais importante.

Nome do livro infantil para quem se interessar: Owl at Home de Arnold Lobel.

E para finalizar, palavras do mestre Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

Por Cris Leão

42 pensamentos em “Desista

  1. Estou amando seu blog. Concordo com muitas coisas, discordo de outras. Mas não consigo parar de ler. Tenho uma filha de três anos e um filho de três meses. Ele está dormindo em um cestinho ao lado da minha cama enquanto eu, com dificuldade de pegar no sono novamente, mergulho no seus textos. Minha palavra-chave para esse ano é desapego. E não é que dei de cara com esse seu post? Lindo! Continue escrevendo, continue inspirando! Um grande abraço. 🙂

  2. É Cris…..passo por uma situação parecida.Mas minha decisão de desistir foi a exaustão ! Meu corpo desabou e não tive mais forças….hoje vivo sem a angústia do dia de amanha,exatamente como vc descreveu,desistindo hoje do que é menos importante ,vivendo feliz o momento e mudando quando é preciso…..continue escrevendo,assim vc cumpre as palavras das escrituras sagradas “…..há mais felicidade em dar do que há em receber.”(atos20:35)e cuide de sua família !

  3. Lindo Cris! Muitas vezes dizemos um até logo…e realmente as coisas parecem se encaixar de uma forma melhor……bjs

  4. Lindo texto!Simplesmente amei!Estou vivendo exatamente esse conflito. Transferi meu trabalho para casa para ficar mais perto dos meus filhos. Tenho um filho de 4 aninhos que parou de falar quando foi para a escolinha com 1 ano e 9 meses. Descobri que ele é muito sensível então tive que optar em trabalhar em casa para cuidar dele. Agora que ele está com 4 aninhos tenho mais uma filhinha de 1 ano e cinco meses e continuo trabalhando em casa para cuidar deles enquanto eu puder. Quem trabalha em casa sabe que não é nada fácil conseguir dividir o tempo para todas as tarefas que somos exigidas, cuidar dos filhos, da casa, do marido e fazer o seu trabalho. Tenho a sensação que não estou fazendo nada direito, alguma coisa sempre fica pela metade. E meu tempo é muito cobrado pelas crianças e às vezes sou obrigada a dizer que não posso brincar agora porque tenho que trabalhar ou fazer o jantar….é difícil. Mas sei que é difícil para todas as mães, independente de trabalhar fora ou não. E você fica com a sensação de que está ficando desatualizada, a rotina de não ter colegas de trabalho para conversar, adultos com conversa de adultos…. te faz sentir meio perdida do mundo real. E para mim você me deu uma verdadeira lição quando diz que devemos estar inteiro naquilo que se faz naquele momento. Sem ficar se cobrando sobre outras possibilidades, outros andares…tenho que aprender que estou desistindo do que é menos importante para mim nesse momento, porque o mais importante para mim agora são realmente os meus filhos que tanto desejei!

  5. Cris, que blog sensível! Um acalento para a minha alma angustiada. Sou mãe de primeira viagem, compartilho muitas das suas idéias. Como tens feito para estudar a antroposofia? Me interesso muito pela escola Waldorf. No entanto, aqui em Vitória/ES nós ainda não formamos uma escolinha.

    Obrigada pelos lindos textos.

    Um bom ano para tua família,

    Bj
    Betânia

    • Oi Betânia, obrigada pelo comentário. Eu estudo junto com um grupo da escola. Temos uma especialista com mais de 20 anos de estudo de Antroposofia. Encontramos na casa dela uma vez por semana. No Brasil tem muitos cursos em SP e em Florianópolis tem um instituto grande com vários cursos inclusive de curta temporada e com complemento à distância. Dá uma olhada no site http://www.asssagres.org.br/. Quem sabe não dá para aproveitar umas férias e fazer? Um bom ano para você e sua família também. Beijo, Cris

  6. Cris, eu precisava ler isso hoje. Tudo que você disse aí eu já percebi na minha vida também. Também estou no meio dos 30 e já tive que desistir de muita coisa na minha vida, já passei por muitas fases. E, mesmo sabendo que a vida é assim mesmo, tem horas que ainda me pego ansiosa pela fase que estou agora (recém formada num mestrado, à procura de um emprego, e ao mesmo tempo ainda – novamente, como sempre – querendo abraçar o mundo com as pernas).

    Obrigada pelo texto lindo!

  7. Parabéns pelo blog! É muito bom saber que existem pessoas que “desistem”…, e com isso você não se sente sozinha nesse caminho. Foram 18anos na aviação, quando chegou minha segunda filha e percebi que passagens para qualquer lugar do mundo com hospedagem em Resorts já não me diziam mais nada. Agora, no auge dos meus 4.2 tento um novo segmento, onde me descobri fazendo trabalho voluntário com crianças em hospitais. O mais louco e encantador é você se encontrar com suas aptidões ou dom…que até então estava adormecido. Mas a vida te coloca situações e através do autoconhecimento e questionamentos descobrimos que somos capazes de nos reinventar. Porque acredito que o mundo está repleto de possibilidades e o universo conspira sempre a nosso favor. Beijos afetuosos e iluminados.

  8. Não conhecia seu blog até este momento e casualmente estou vivendo esta situação, desistindo de um trabalho que estou ha 11 anos para ter mais qualidade de vida, curtir meus filhotes e meu marido. Amei seu texto me deu ainda mais força!

  9. Estou adorando seus textos. Adorei este e me identifiquei muito com ele, desisti do meu trabalho e minha faculdade a 14 anos atras para cuidar de minha filha e sempre me perguntei se tinha sido uma boa decisão, pois passamos por muitas dificuldades financeiras, mais lendo o seu post percebi que realmente foi a melhor decisão pelo que era e é mais importante em minha vida que são meus filhos. Muito Obrigada.

  10. Cris, amei seus textos!!!
    Apesar das diferentes situações, somos todas mães, na expectativa de estar ao lado de nossos pequenos. Tenho uma menina que completa 4 anos em março e um garotão de 1 ano e 7 meses.
    É tão bom ler e saber que tem alguém que é igual a gente…rs
    Por que pra estar com eles, além de desistir de muitas coisas, ainda ouvimos muita gente dizer, você não deve mais amamentar, você precisa por ele na creche.
    Vou continuar curtindo e compartilhando seus textos!!!
    bjs 😉

  11. Cris,amei seus textos é mto bom saber que assim como eu existem tantas maes tendo que desistir,nem que seja só por agora e quem sabe daqui alguns anos ,recomeçar .bjs

  12. Cris estou amando seus textos. Aqui em casa aderi a TV só fim de semana. Este Texto particularmente bate com tudo que vivi e vivo. E agora estou retomando aos poucos. Um pouco insegura, mas estou caminhando. Desisti, segui, retomei algumas. Foram anos fora do Brasil, e depois voltei, com minha família (meu filhinho na época 4 anos), nunca tinha vivido aqui. Mas estamos 1 ano e meio de volta, continua as desistência, e retomada de algumas coisas. Obrigada pelo texto, me ajudou a compreender o que vivi e vivo este tempo todo, e não estou sozinha. Beijos

    Cris Lourenço

    • Obrigada pelo comentário, Cris. Eu sei como é difícil voltar. Como tudo na vida, não parece difícil quando se vê de fora. ; ) Mas com o segundo ano chegando, as coisas se ajeitam. Boa sorte! Beijos

  13. Nossa eu adorei esse texto. Fui deixar as criancas na escola e na volta minha cabeca ja comecou a pipocar com a quantidade de coisas para fazer, aí lembrei que tinha lido esse texto, mas foi num outro momento, ai pensei… nossa tenho que ler aquele texto agora. Muito lindo. Acalentou meu coracao. Parabens. Camila Furtado (do blog Tudo Sobre Minha Mae)

    • Nossa, Camila que alegria receber um comentário assim de você. Adoro seus textos. Me identifico muito com eles. Parabéns tb. Abraço
      Cris

  14. Simplesmente a tradução do que penso sobre a vida, conquistas e permanecer com o agora e com o que importa. Obrigada por traduzir tão bem e de forma tão simples a vida e sua evolução. Parabéns! Estava passando pelo seu blog mas agora decidi desistir de só passar e por aqui ficar um bom tempo…Um abraço. Lenice

    • Qual livro? O livro onde está o texto da Danuza Leão, ou o livro infantil? Se for o infantil, o nome está no post. Se for o da Danuza, provavelmente é o “Crônicas para Guardar”. Não tenho certeza. Mas é um livro com textos sobre assuntos diferentes entre eles. Abraço

  15. Muito bom o texto. Sou mãe de um menino de 2 anos e 8 meses e estou com uma vontade enorme de ter outro filho, tem dias que não penso em outra coisa. Hoje trabalho e meu marido pega nosso filho na escola, ele pretende fazer um curso mas pensamos, como faremos para conciliar os horários? Tenho muita vontade de ser mãe em tempo integral, é o meu maior desejo, mas nossa situação financeira não permite, sou recém formada em Direito e prestes a iniciar como advogada, não sei o q fazer, a renda familiar depende do meu trabalho e em casa não encontrei nada para trabalhar….alguém tem alguma dica??? Bjs

  16. ” Por convicção e amor, quero fazer o que faço
    e deixar de fazer o que deixo de fazer.” R. Steiner

    Difícil, difícil mas necessário.
    Amo ler seu blog.
    Beijo carinhoso.

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