Home

Outro dia gritei com meu filho (com muita razão, na minha opinião de mãe brava naquele momento) enquanto ele tomava café da manhã correndo para ir para escola, cedinho. Nem tinha sido exatamente um grito, digamos que eu tenha levantado a voz razoavelmente por conta de uma falta de educação. E meu filho, também irritado, chateado ou o que mais estivesse sentindo, deixou lá os ovos mexidos com torrada que eu tinha preparado e que ele ama. No caminho da escola, me disse que estava com fome. E eu: “claro, você não tomou seu café da manhã!”. E ele: “como você quer que eu coma com alguém gritando no meu ouvido?” De fato, pensei, eu perderia a fome se alguém gritasse comigo logo no café da manhã.

Meu filho é um menino muito sensível. Assim como a maioria das crianças, quando damos espaço para que elas desenvolvam sua sensibilidade e sintam livremente suas emoções. O problema é que não lembramos disso no dia a dia, muitas vezes. Naquele mesmo dia, no caminho para a escola, o amiguinho de carona disse que as vezes a mãe também gritava com ele. E que ele ficava muito triste quando isso acontecia. Me coloquei no lugar deles e quase chorei: o que eu sentiria se meu namorado ou uma amiga começasse a gritar comigo, mesmo que por conta de algo errado que eu havia feito, ainda mais durante uma refeição ou logo depois de acordar? Bem, não foi agradável o que eu senti.

Há alguns anos atrás, o Antonio passou por uma fase muito chata, me enfrentava muito e falava coisas bem desagradáveis. E eu me pegava gritando com ele várias vezes. Até que resolvi fazer o contrário: resolvi não me irritar e não dar mais nenhum grito. Nos primeiros dias, tive que sair de perto e ir tomar um chá quando ele começava um chilique. Depois fui percebendo que minha irritação alimentava a irritação dele e, com o tempo, ele também ficou mais calmo. Como somos mais conscientes do que está acontecendo, está mais nas nossas mãos do que na deles transformar essas situações. Logo, um grito da mãe ou do pai, que fere não só os ouvidos, mas o coração da criança, pode ser evitado de um jeito simples, percebi: eu parei de entrar naquela vibe de irritação. No começo com esforço,  depois com mais tranquilidade. Parecia mais sensato e generoso ficar tranquila frente aos pitis do meu filho do que entrar na mesma loucura que ele naquele momento. Fiquei meses sem um único grito. E acho que fui a maior beneficiada.

Claro, sempre tem a TPM, o dia em que estamos cansados, em que passamos horas berrando com o atendente da Vivo ao telefone (eu nunca berro, vai ver que é por isso que passo dias sem internet), mas até por isso é bom refletir sobre a melhor hora para ficar com nossos pequenos. Sim, sim, mas  o que fazer se eles estão ali em volta o tempo todo, se temos que dar banho, por pra dormir, dar jantar etc etc? Nesses momentos de irritação é importante ir ensinando aos nossos filhos que tem hora pra tudo, até pra encher a paciência do papai e da mamãe. Meu filho já sabe que, lá pelas sete da noite, na hora em que junta tudo isso o que eu falei aí em cima, não é o meu melhor momento. Estou cansada, preciso fazê-lo dormir, arrumar a casa para o dia seguinte e ir dormir também pois nosso dia começa muito cedo. Com o passar dos anos, ele se deu conta que esse não é o melhor momento para me testar e já coopera com os afazeres do final do dia. Outro dia fez até um chá com biscoitos quando cheguei de um compromisso, esbaforida porque precisava colocá-lo na cama urgente. Claro, ele já tem 9 anos. Com crianças menores, a consciência sobra para os pais e mães. Eles não vão cooperar tanto assim, mas também podem aprender que tem horas que os pais precisam ficar sós.

Agora, voltando aos gritos, se não gritamos à toa com maridos e esposas, se não gritamos com namorados, colegas de trabalho e nem com o chefe (espero, sinceramente, que você não faça isso, ainda que alguns mereçam), por que gritamos com essas criaturinhas tão delicadas que são nossas crianças? Segundo a antroposofia, o organismo de uma criança até os 7 anos é como se fosse feito de argila: tudo o que acontece fora dele ajuda a moldá-lo. Imagine o que gritos – e até tapas – não fazem? Eles gravam impressões nos órgãos e, como a criança só aprende por imitação nos primeiros anos, corremos o risco de encher o mundo de gritões. E ter filhos é uma oportunidade incrível pra rever os comportamentos que são automáticos em nós.

Não sou a favor de criança mal-educada. Aliás, tenho horror de criança que manda em mãe e pai que obedece filho. Minha casa está bem mais para uma ditadura (amorosa, sim, mas lá quem manda sou eu), do que para uma democracia. Mesmo assim, não acho que gritos ajudam a consolidar a ideia de que a autoridade – e a última palavra – são minhas. Pelo contrário. Acho que, se eu não entrar na dele, ganho muito mais força. E sem gritar com ninguém.

Por Fabi Corrêa

 

22 pensamentos em “Não me faça gritar com você

  1. Nossa este texto foi feito pra mim, hoje gritei muito com meu pequeno e estou me sentindo péssima. Todas as vezes que me sentir nervosa vou lembrar das “impressões no órgãos” e não vou gritar mais. Valeu a dica.

  2. Pois é, estou bem nessa fase com meu piá mais novo… Ele está com 3 anos, tem um comportamento completamente diferente do primeiro (que é tranquiiiiiilo), e por si só já chama a atenção. O que acontece é que ele grita bastante, é impulsivo e chega até a agredir. Tem muito da minha teimosia nele.
    Dia desses, depois de ficar enlouquecida por mais uma birra, meu marido me chamou de lado e disse: você é inteligente, ele também é. Use a sua pra acalmá-lo, e não pra piorar tudo.
    É extremamente difícil controlar a raiva, depois de mais um dia estressante de trabalho, mas se faz necessário. E já estou experimentando resultados: até o tom de voz eu mudei!

    Falta um looooongo caminho, mas quem disse que seria fácil?

    • Pois é, Priscilla, a tal autoridade amorosa não é fácil. Temos que nos impor simplesmente porque o poder em casa é nosso, mas sempre com amor e respeito por eles. Boa sorte! bjo

  3. Desde que meu segundo filho nasceu (três meses e meio) tenho gritado direto com minha filha (três anos e três meses). me sinto péssima, mas estou com muita dificuldade de controlar meu humor. Esse texto foi feito para mim! Obrigada

  4. È uma luta diária Fabi,de autocontrole e muitas vezes de arrependimento pq como vc disse é autómatico e está enraízado em nós desde a nossa infância.Mas é possível mudar…

    • Oi Sandra, eu pensei nisso ontem, sabia? O quanto meu filho veio a esse mundo para me ajudar em meu próprio desenvolvimento…Isso é lindo, né? Vou ver seu blog.

  5. Adorei!
    Estou passando por isso agora. Meu filho está com 9 anos e mudou de doce e calmo para agitado e nervosinho, e eu perco a paciência frequentemente (berros, ameaças, descontrole, e por último culpa). E tenho uma filha de dois anos que está assistindo a tudo. Estou muito preocupada.
    Obrigada pelo seu relato, de como vc lidou com a situação. Vou tentar fazer o mesmo. Me identifiquei pq aqui tb às 7 da noite é a hora que acumula tudo, cansaço do dia, casa e últimos cuidados com as crianças (a pior hora pra me testar).
    Tb sigo a linha antroposófica e tento (mais erro do que acerto) ser uma mãe waldorf.
    Tem sido uma jornada de muitas alegrias mas tb muitas dores, medos de causar danos a eles, pois com a informação (antroposófica) vem uma maior responsabilidade e cobrança de auto-educação, nem sempre alcançada a tempo e a contento.
    Meus limites internos de desenvolvimento pipocam na minha frente o tempo todo, dando uma frustração, uma sensação de fracasso, aumentando mais a pressão.
    É muito bom ver a história de outras mães, poder dividir, ter companhia nestes momentos. Dá um alívio.
    Muito obrigada

    • Carolina, sinto o mesmo que você, mas sou grata por pensar que, junto com meu filho, posso também me educar. Penso que eles vieram aqui para nos ensinar e, assim, mãe e filho crescem juntos. Talvez não no tempo que gostaríamos, mas no tempo em que é possível para cada um. Assim como você, também fico frustrada com meus limites. Estamos todas juntas, mas conscientes. E acho que é isso o que conta. Sobre seu filho de 9 anos, fiz um post chamado A Crise dos 9 anos falando exatamente sobre o rubicão. Talvez te ajude pois o meu filho está no mesmo momento e me questiona e critica em tudo. Até comprei um livro que foi lançado faz pouco sobre o assunto porque, benza Deus, haja paciência! Para mim, para você, para todas as mães dos meninos de 9 (dizem que as meninas são mais fáceis)! Boa sorte pra todas nós. Certamente vamos aprender muito nesse momento. Beijo e até!

  6. Parabéns pelo texto! Penso nisso constantemente. Meu filho (2,5 anos) sempre foi extremamente agitado e passa pela fase de me testar o tempo todo. Quando ele insiste em desobedecer fazendo algo que eu já disse várias vezes que não era pra fazer, perco a paciência, depois, vem o arrependimento…Aí penso na mãe que gostaria de ser, retomo com algumas regras, converso, explico… e assim, diariamente vamos aprendendo a ser mãe!
    Obrigada pelas palavras!

  7. to aqui, devorando seu blog post atrás de post e aprendendo muita, muita coisa mesmo (e eu, tolinha, que achava que já sabia um pouquinho de tudo).

    te agradeço de coração por compartilhar com a gente! ❤

    beijo

  8. Nossa Fabi, exatamente o que estou passando… me sinto péssima por gritar, sei que não é o certo e que perco muito com isso, mas as vezes é incontrolável, involuntário, quando dou por mim lá estou eu com uma palpitação terrível e minha filha de 4 anos chorando. Mas vou me esforçar ao máximo para controlar isso. Obrigada pelo Post. Beijos

  9. Nossa! Estou muito pensativa aqui com este texto e relatos sobre isto, tenho uma filha de apenas 2 anos e tem dia que ela me tira do sério eu involuntariamente grito com ela, e tem dia que ficamos “competindo” quem grita mais… hoje por exemplo meu esposo disse que ela falou com ele que “mamãe é brava” sutilmente ele respondeu a ela que sou brava mas que a amo! Isto me tocou e preciso me acalmar… trabalho o dia todo e meu esposo a noite, quando chego são tantos os afazeres que nem sei por onde começar, ela acaba tendo que fazer alguma arte para chamar minha atenção… ai que eu peco… ele me pediu para deixar tudo de lado e tentar dar o máximo de atenção pra ela… afinal ela é prioridade em nossa vida! Preciso me acalmar para que ela se sinta tranquila tb e segura ao meu lado e não mais uma a gritar dentro de casa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s