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Ao longo da vida percebemos o amor de muitas formas. E, com nossos filhos, damos esse afeto também de vários jeitos: carinho, autoridade, paciência, limites, sacrifícios. Mas tem também uma faceta nova, bem comum em nossos dias. Ontem eu estava na fila da padaria, esperando o pão de queijo, e vi uma mãe com uma menininha linda de uns dois anos no colo, que ela não parava de beijar um só segundo (era uma fofura mesmo) e a cada beijo repetia “eu te amo” para a menina. No começo achei fofo, depois de uns 5 minutos começou a cansar um pouquinho. Ah, Fabiana, como você é ranzinza. Pode ser, mas lembrei de uma entrevista do psicólogo Júlio Groppa Aquino na TV Cultura em que questionava exatamente essa avalanche de beijinhos e “eu te amos” que os pais de hoje fazem questão de falar aos filhos muitas vezes por dia. Segundo ele, esse excesso de declarações são um mal contemporâneo. Aí fiquei pensando nisso. E realmente duvidei muito que minha avó fizesse isso com os filhos. Não, claro que não. E, apesar de eu ter tido uma mãe bem carinhosa, também não me lembro de ouví-la repetindo pra mim eu te amo, eu te amo, eu te amo. 

Eu já sei que muitas mães vão aparecer aqui dizendo que acham muito importante beijar, beijar, beijar e dizer eu te amo três vezes por dia para seus filhos. E nada tenho contra. Também adoro beijar o meu. Mas, voltando ao Júlio Aquino, lembrei que ele classificou esses gestos como uma obscenidade. Pesado, eu sei. Em meio a tantas declarações amorosas, dizia ele, estamos conseguindo desempenhar pouco nossos papéis de educadores, que é para o que estamos aqui de fato. Sufocamos as crianças com tantas palavras, mas não encaramos a ideia de educar e assumir que somos os mais velhos, os que escolhem, os que mandam. Agimos quase como se as crianças pudessem se educar sozinhas. Essa “obscenidade declarativa”, como ele disse, tem a ver com o espaço imenso que as crianças tomaram em nossa sociedade, como se fossem de cristal e como se tivessem adquirido o direito de ter dias perfeitos 365 vezes por ano. Em suma, era isso o que ele dizia.

Parei pra refletir: já que declarar eu te amo todas as manhãs e todas as noites não é amor, então o que é? Bem, como eu disse no começo, o amor tem muitas formas. E o amor entre pais e filhos é muito rico. Mesmo quando os filhos dizem que nos odeiam, que não suportam etc etc e toda aquela ladainha que desfiam quando querem algo que não damos. Eu acho que esse é um momento muito importante do amor. Suportar toda essa birra com tranquilidade, certos do que estamos fazendo e que o motivo do nosso “não” é apenas o bem-estar de nossas crianças. Não seu bem-estar imediato, não o atendimento de seus desejos, mas o bem-estar da alma. A certeza que, dizendo não, estamos na verdade protegendo seus espíritos e os preparando para viver bem na idade adulta.

O amor, nesse caso, vem em forma de limites. E da real preocupação em proteger os filhos não das doenças, dos tombos ou das agruras da vida. Mas de ter sua infância roubada pelo excesso de desejos e de virar adultos mimados e pedantes. Exercitar a autoridade serena e amorosa com nossos filhos, ao menos é o que sinto, é uma maneira de amar muito mais vital do que os beijos e abraços. Principalmente porque é quase um sacrifício fazer isso em um mundo tão cheio de desejos imediatos a serem correspondidos. E, se consigo fazer isso com carinho, aí, sim:  tudo bem encher de beijinhos porque a gente também não é de ferro.

Outra forma de demonstrar amor, pelo menos na relação com o meu filho, é respeitar seu ritmo. Escolher o que é melhor pra ele, e não o que é mais conveniente para mim é um desses sacrifícios cotidianos que eu faço as vezes com alegria e às vezes nem tanto, mas que depois me rendem a dimensão real do amor que quero dedicar. São coisas simples, como escolher o programa do final de semana que fará bem pra ele e não o que seria mais divertido pra mim. No final, as duas coisas acabam se unindo pois dificilmente eu me obrigo a coisas que seriam chatas demais. E, se eu faço algo que acredito ser o melhor pro meu filho, seja ir ao parque jogar bola e se mexer, se cansar, brincar com outros meninos em vez de simplesmente relaxar no cinema, no final também me sinto gratificada pelo resultado. Se opto por colocá-lo na cama antes das 20h porque amanhã ele precisa estar bem na escola e, assim, perco alguns programas noturnos que me fariam bem, penso que é só por um tempo. E o que são 9 anos pra quem tem 40? Não me matou até agora, pelo contrário. Se vamos viajar pra praia, porque acho que natureza é mais legal do que cidade grande pras crianças, ainda que pra mim já seja figurinha repetida, tudo bem. Vou ter a vida toda pra ir pra Berlim, se for o caso. E, no final das férias, penso que nunca me diverti tanto.

Enfim, sei que cada um tem a sua, mas o amor tem muitas formas e faz bem refletir se estamos indo além das mais óbvias, mesmo que a reação a um “não” seja bem pior do que a um beijinho. Como dizia meu pai, um dia você vai me agradecer, filha. E eu sou grata.

A entrevista com o Julio Groppa Aquino levanta uma série de questões que acho incríveis para os pais. Aqui, uma versão editada. Na mesma página há o link para a versão integral.

Por Fabi Corrêa

Imagem do site Seaside Baker

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7 pensamentos em “Amar não é (só) dizer eu te amo

  1. Adorei a reflexão, Fabi. De vez em quando acho que sou uma mãe chata demais porque pra mim é super fácil dizer não. Também me incomodo com essa cultura de atender aos pedidos das crianças imediatamente e sempre. Comigo não foi assim e tento fazer o mesmo com minhas filhas. Mas tem horas que é tão difícil, que a gente só quer ceder pra deixar de ouvir ladainha, não é?

    Descobri esse blog tem pouco tempo e estou curtindo muito as postagens! Já está no meu Feedly.

    • Oi Ana, ah como tem horas que eu só queria ligar a TV, se tivesse uma…rs. E já fiz isso também. As vezes é tão cansativo. Hoje ficou mais fácil dizer não, teve momentos, em que estava muito cansada ou enfraquecida, que era mais difícil. Mas acho que essa é uma das formas de amar mais importantes pois nos coloca em nosso real papel de educadores. Que bom que você curtiu. Beijo e volte sempre.

  2. Acredito que tudo tem o seu lugar. Eu digo à minha filha que a amo umas 300 vezes por dia mas, na quase igual medida, também lhe digo não. Embora seja difícil, as crianças necessitam de limites lógicos e isso é uma forma de os amar. Quando me zango com ela digo-lhe ” eu amo-te minha filha mas não podes fazer isso.” Dai as
    300 vezes 😉

  3. Indago, com seriedade e at para abrir-me a viso. E se, independentemente do “pulso firme” imposto, ainda que aplicado o antigo dito popular “p de galinha no mata o pintinho”, for a me, por sua essncia, calorosa, verbalizando seus sentimentos para com os que lhe so caros? Haveria de se conter perante o filho, sob o risco de, no o fazendo, torna-lo mimado?

    • Oi Saraya, não vejo problema em dizer aos nossos filhos que os amamos. Só acho que isso precisa vir junto com outras formas de afeto.

  4. Acho que hoje julgam demais. Não se pode dizer vários eu te amo, não pode pode perder a paciência, gritar então, péssima mãe. Não pode dizer muito não, nem muito sim. Comida só natural, orgânica. Se você deixar comer bolacha recheada…
    Se fizer alguns programas de adulto junto com a criança (por exemplo um jantar e levar os filhos pois não tem com quem deixar), o olhar das pessoas te condenando é cruel.
    Se quero der um presente fora de data especial, ou se nunca compro nada fora de data especial. Sempre sou criticada.
    Será que precisa se policiar tanto assim, não é da nossa natureza ser mãe? Será que não está na hora de voltarmos para o nosso instinto, assim como foi nossas mães e avós. Que tal sermos pais mais naturais, que sim perdem a paciência as vezes. Dão milhares de beijos e mordidas gostosas. Faz uma panela de brigadeiro assistindo filme a tarde. Outro dia sai joga bola e vai no parque. Não é legal mostrar que somos humanos, erramos, acertamos e seguimos em frente. Não sou máquina de educar, a máquina é a escola. Eu não, sou mãe que ama demais, trabalha muito, cuida da casa, da família, tento cuidar de mim, dar atenção para todos e tudo da melhor maneira que consigo. Se é suficiente? Nunca é, sempre poderíamos mais. Mas foi o possível.
    Logo terá faculdade para pais, só poderá ter filho após ser diplomado. Os pais serão máquinas perfeitas, sem nunca sair do controle. Terá cálculos matemáticos para quantos eu te amo a criança pode receber. A comida será feita por um nutricionista. As frases serão montadas, pode dizer isso e aquilo. Tudo regrado pelo relógio, brinquedos só pedagógicos.
    Não sei, acredito no nosso instinto. Mas ainda agora que convivo com uma menina de 3 anos e vejo o cuidado, amor e firmeza que ela cuida das “filhas” dela. Quando vejo sempre penso, meus netos serão bem cuidados.
    Bom foi desabafo, ainda acho que o instinto de mãe funciona sim.

    • Oi Larissa, acho que o instinto funciona totalmente. A questão é que nos afastamos dos nossos instintos. Hoje, todo mundo é “educador” (incluindo nós, aqui) e os pais procuram o tempo todo por conselhos, gurus ou alguém que decida por eles pois ficou muito complicado educar em nossa sociedade. Se conseguimos nos conectar com esse instinto, no entanto, não tem nada mais valioso. É ele quem vai nos dizer o que fazer e o que vai trazer mais beleza pra essa relação entre pais e filhos. Eu faço tudo isso o que você falou: brigadeiro, beijos, erros. Como todo mundo. Mas também acho irreal e artificial, assim como esse policiamento, o outro lado, que é o excesso de cuidados com as crianças, o excesso de atenção, a falta de espaço. E, se puder, quero sim falar sobre isso pois acho que teremos consequências complicadas mais adiante. Mas, enfim, como eu sempre digo, é só a minha opinião. Obrigada por escrever!

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