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Não é de agora que se fala em ócio criativo. Mas eu quero propor uma outra história, só por hoje. O valor do ócio, sem criatividade (ou com até, mas não com esse intuito, exatamente). Pensei nisso hoje pela manhã, quando me dei conta que havia passado uma hora preciosa do meu dia sem fazer nada. Ele tinha começado às 6h da manhã, acordando meu filho pra ir à escola, cuidando de me arrumar e arrumá-lo para sairmos a tempo, antes das 7h. No caminho, buscamos dois amiguinhos que vão de carona. Deixei na escola e antes das 8h já estava de volta, lavando a louça do café da manhã e preparando meu café, que esfriou enquanto eu cuidava de limpar a sujeira do cachorro. Aí já era hora de levar o cachorro para passear na praça e dar uma caminhadinha, antes que ele fizesse mais sujeira. Às 9h30 já estava de volta para terminar um projeto de consultoria que está atrasado. Sobre minha cabeça pairavam os compromissos do dia. Responder os comentários do blog, arrumar as camas, sair para buscar os meninos na escola, deixar os amiguinhos em suas casas, servir o almoço para o Antonio, arrumar a cozinha, deixá-lo na aula de dança, ir pra minha terapia, partir para uma reunião com clientes no outro lado da cidade, revisar o tal projeto e enviá-lo para outro cliente, correr para o meu curso de antroposofia à noite, voltar pra casa e cair na cama pois amanhã começa tudo de novo, às 6h da manhã. E, mesmo com tudo isso, não consegui evitar. Me vi divagando sobre as árvores que vejo aqui da minha varanda, sobre o cachorro deitado tomando sol, sobre o bambuzal na rua de cima, sobre a possibilidade de que não verei mais nada disso daqui a pouco tempo pois tudo vai se transformar em prédios, como já está acontecendo no meu bairro. Aí pensei na velhinha da rua vizinha que nunca mais vi. Será que morreu? A casa dela está pra vender. Vai virar prédio, igual à da dona Branca, que morava aqui na frente. Corta, volta pra pia. Ai, não consigo. Mas tem louça pra lavar! Ah, tudo bem, deixa eu olhar mais um pouco o bambuzal e tomar meu café olhando o cachorro na varanda. Deixa eu tomar mais um raiozinho de sol no rosto.

O ócio nunca esteve muito presente em minha vida. Minha família de pais “operários”, aqueles que nunca tiravam férias e faziam disso um motivo de orgulho pois a dedicação traria uma aposentadoria segura e trabalhar duro é seu grande valor, não deixava. E, mesmo agora, quando meus pais estão longe (meu pai, no caso, tão longe que não sei o quanto), é minha cabeça que não me deixa. Ou os compromissos que assumi, exatamente porque ela me diz que preciso usar bem meu tempo. E quantas vezes já não me vi cortando os momentos de ócio do meu filho, que chega da escola pronto para divagar largado no sofá da sala, que esquece a comida no prato para olhar para os risquinhos do copo e enxerga ali pequenas estradas, que entra no banho e esquece que o objetivo era passar sabonete no corpo e lavar os cabelos e começa a apostar corrida entre as gotinhas escorrendo no box do banheiro. O que pode ser mais criativo do que esse ócio? O que pode alimentar mais a alma infantil, e a nossa, já adulta, quase velha, do que olhar a libélula tentando pousar perto da piscina, mas que o vento não deixa?

Conheço gente tão ocupada que precisa agendar o ócio. Tira um sabático pra concentrar, em um ano, o ócio possível de toda uma vida. Ou uma aposentadoria. Não, não quero fazê-lo esperar tanto. Quero tirar um sabático aos pouquinhos, todos os dias. E me aposentar um pouco a cada mês. Preciso é parar de olhar o relógio um pouquinho, parar de apressar as crianças que estão sempre “atrasadas”, segundo o meu relógio. Cada minuto é precioso, alguns me dizem. É, sim. Mas nem sempre para cumprirmos nossas metas, nossos compromissos, nossas reuniões, nossos deveres de casa. É uma preciosidade parar um pouco sem nada para fazer. Senão, antes que a gente se dê conta, o bambuzal vira prédio, a infância vira curso de esgrima, capoeira e inglês, o dia lindo vira noite e chega a hora de dormir pra acordar cedo e trabalhar disposto na manhã seguinte. E ir pra escola no dia seguinte. E ir pra aula de dança no dia seguinte. Pra reunião do dia seguinte do dia seguinte. Quanta coisa cabe em um dia, mas muitas vezes sinto culpa se encaixo também um pouco de ócio. E esqueço dos meus dias da infância, em que ficava horas olhando a chuva cair. Nem sei se era horas, mas assim me parecem agora. Quando foi que tive essa coragem desde que virei adulta? E meu filho, será que tem essa liberdade? Naturalmente, tem. Outro dia me lembrou, irritado, que não podia fazer mais uma aula de circo pois já tem dois dias ocupados com aulas na semana. E perguntou: “e fazer nada, quando é que vou fazer? Preciso de pelo menos uma tarde para não fazer nada. Estou sem tempo pra isso!”

Aqui, uma matéria da Folha de S. Paulo sobre o movimento slow parenting, que prega a desaceleração da vida infantil e até propõe regrinhas para isso. Na minha opinião, porém, é bem mais fácil. Para não fazer nada, basta não fazer nada. E as crianças adoram.

9 pensamentos em “O valor de não fazer nada

  1. Nossa, me sinto assim, um corre corre sem fim rsrs e se me deparo uns instantes olhando pela janela, me cobro, pois tenho tanto pra fazer…

  2. Querida Fabi, estou tua fã!!!!

    Desde que uma pessoa compartilhou teu depoimento em minha página sobre tua experiencia de despertar(!)

    para tua missão de mãe e onde colocas o desenho divino de teu filho que te projetou enfrentando um dragão com tua espada!!!

    Me emocionei as lágrimas pois me dedico a ser guardiã das crianças e a ajudar oa adultos e pais a despertarem!!!

    Muito obrigado por tudo!!!

    Maravilhoso esse teu texto, vou compartilhar!

    Um abraço afetuoso, muita Luzzzzzzzzzzz em cada dia!

    Ingrid

    http://www.ingridcanete.com.br

    • Oi Ingrid, tudo bem? E eu sou fã de todos (mães ou não) que se preocupam em ser guardiões das crianças como você. Obrigada e um grande abraço.

  3. Adorei seu texto, aliás mais um deles !!! Parabéns !!! É isso mesmo, precisamos permitir que nossos pequenos tenham seu tempo livre !!! Tenho uma filha de 7 anos e ela me fala assim: Mamãe, quando podemos fazer uma sessão de cineminha aqui em casa, só eu e vc? Rs…rs..rs… e ás vezes isso acontece nas manhãs dos dias da semana mesmo. Penso que não posso nega um pedido desses…Então ás vezes damos nossas escapadas da rotina !!!

  4. Olá Fabi gostei d+ sou mãe de duas meninas lindas maria de 1 ano e 8 meses e Helena de 6 meses e fiz a opção de trabalhar meio período para ficar mais tempo com elas pois para mim a presença de mãe é insubstituível sou grata a Deus pelas duas flores que ele plantou no jardim da minha vida, mas lendo seu texto percebi que tenho me cobrado d+ preciso fazer o que vc disse rss fazer nada simplesmente parar e curtir ainha presença muito obrigada querida Deus lhe pague !

    • Oi Cintia, que bom que você pode fazer essa opção. Todas as mães se cobram demais, você está na curva…rs. Amém e muitas bençãos para a sua família.

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