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Quando minha filha estava no jardim de infância do Quintal do João Menino em São Paulo, nas reuniões os pais reclamavam de falta de tempo para executar todos os pedidos da escola, falta de tempo para colocar as crianças para dormir na hora certa, falta de tempo para comprar frutas, falta de tempo para ouvir os filhos, falta de tempo para ouvir a professora. Então a professora deu para todos este texto:

“O tempo perguntou pro tempo,

quanto tempo o tempo tem.

O tempo respondeu pro tempo,

que o tempo tem o tempo

que o tempo tem.”

(Danilo Dias)

Afinal, será que somos vítimas da falta de tempo? Ou temos responsabilidade pela nossa falta de tempo? Quais são nossas prioridades?

Arianna Huffington, colunista, autora, presidente e editora chefe do grupo Huffington Post foi eleita pela Forbes uma das 12 mulheres mais influentes da mídia no mundo. Ela veio a São Paulo em 2011 e eu tive a oportunidade de ir na sua palestra. Ela controla um negócio que funciona 24 horas por dia, durante 7 dias na semana. E falou da importância (e da dificuldade) de se desconectar. Só que quando ela falou disso, estava só se referindo à internet. Mas acredito que o quadro seja mais amplo. A televisão sempre teve um lugar de destaque na casa da maioria das pessoas. Primeiro se pensa onde vai estar a tv e depois as coisas vão se ajeitando à volta dela. As coisas e a família, as visitas, as conversas. Esses ficam para o intervalo daquilo que está passando ali e é imperdível. Continuamos (muitos continuam) com este hábito, mas agora se soma a ele o celular e suas redes sociais, o computador, o vídeo game, as fotos, os vídeos, será que sobra tempo para a vida fora das telas?

Depois de sofrer um colapso fruto de estresse e chegar a cair no chão, Arianna virou garota propaganda do despertador. Nos últimos dois anos, é comum ela fazer o seguinte comentário nas entrevistas: “É fundamental ter 7 horas de sono por dia. Eu tenho um quarto livre de tecnologia. Então se acordo no meio da noite, não fico tentada a checar nada. As pessoas dizem que precisam de seus telefones como alarme – mentira! Eu comprei despertadores para todos os meus amigos.”

Ok, as palavras dela podem parecer um pouco exageradas para muitas pessoas. Mas o trabalho dela é grande e depende dos emails e das notícias que recebe ali. É claro que este não é o caso da maioria das pessoas, mas o vício é igual para muitas delas. Engraçado é pensar que as pessoas que mais trabalham com tecnologia, estão começando a relativizá-la. Como no artigo que saiu no New York Times em 2011 e foi traduzido e publicado na Folha de São Paulo. Filhos de importantes corporações da área tecnológica estão escolhendo as escolas Waldorf para seus filhos. Porque preferem que eles aprendam com papel, lápis e agulha de tricô do que com computador. De fato, a região do Vale do Silício é conhecida por ser o lugar que abriga as maiores empresas de tecnologia e ao mesmo tempo, abriga o maior número de escolas Waldorf nos Estados Unidos. Qual a conclusão que podemos chegar com isso? Quem conhece tecnologia, quem trabalha com ela há muitos anos, já entendeu que estar o tempo todo conectado não é o caminho. Talvez por estarem a mais tempo neste caminho, já viram para onde ele leva.

Vejo pessoas economizando palavras de afeto, conexão verdadeira porque não podem perder o que está acontecendo nas redes sociais. Mas quanto de tempo será que não estamos perdendo tentando alimentar essa sensação de estar o tempo todo “perdendo alguma coisa”?

Um dia desses assisti com meus filhos o meu vídeo de casamento. Foi a primeira vez que vimos juntos. O casamento foi no começo de 2005. Nenhuma pessoa fazia fotos (exceto amigos com máquinas com filme, fazendo poucas fotos), ninguém checava as redes sociais, ninguém mandava mensagens. (Não havia internet no celular) Era como se todos soubessem da finitude e da efemeridade daquele momento, as pessoas estavam ali presentes. Desconhecidos conversavam, amigos se abraçavam, senhoras sentadas olhavam a dança dos jovens (sem entender muito porque eles só pulavam). Todo mundo era dono do tempo. Uma festa como não se vê mais hoje em dia. Ninguém precisava saber de nada que não estava acontecendo ali. Sinto falta de momentos assim. E queria pedir para você que está lendo este texto que faça o exercício de estar presente. Estava certo quem viveu aquele momento como se fosse o único. Aquela festa nunca mais vai acontecer. Quatro pessoas muito queridas que estavam ali, já foram para o andar de cima. Algumas amizades se transformaram, alguns amores acabaram e os penetras a essa hora já tem festa melhor para ir. O show da vida não tem reprise. E como todo show importante, é no mínimo educado desligar o celular.

Ps: Escolhi a foto dos meus filhos tirada em Julho de 2011 porque este momento, esta idade deles, como tudo na vida, não vai mais se repetir. Abraço amigo, por favor? ; )

Por Cris Leão

12 pensamentos em “Quanto tempo você tem?

  1. Que bacana Cristina ! Realmente vivemos assim, temos que nos policiar. Obrigada por mais um excelente texto de reflexão. Beijos
    e bom final de semana.

  2. Eu estou muito consciente de tudo isso. Mas como fazer meu marido e filhos adolescentes se aperceberem? Passam a maior parte do tempo lendo, vendo séries ou nas redes. Digo que eles estão perdendo a liberdade, mas eles não me levam muito a sério!

  3. Ouça sempre seus filhos, em qq. lugar …no banheiro, almoçando, escrevendo, caminhando …ouça o ponto de vista deles sobre tudo, ouça e respeite sempre o que eles pensam e acreditam sobre determinado assunto e principalmente: Pergunte o que eles querem para si !! O que é melhor para os Pais, não necessariamente será o melhor para os filhos !!
    Somos únicos, não somos iguais !!!
    Isso é ter tempo !!

  4. O tempo nunca há de faltar, embora digam que falta tempo. O mundo tem vidas, a todo tempo… Concordo com a Melissa, somos exemplos para os filhos, e eles seguem, através das próprias escolhas, o que consideram o melhor para suas vidas. Afinal, nem sempre o que plantamos podemos colher, mas alguém colherá por nós…
    Tenho todo o tempo do mundo, enquanto aqui estiver. Quando partir, não farei mais parte deste tempo… rsrsrs
    Parabéns pelo texto!

  5. Tempo, tempo, tempo, … Gosto muito do que vocês duas escrevem! Penso muito no tempo e na priorização dele para o que realmente interessa na vida! Na minha vida! Hoje mesmo respondi a um pedido de reunião a noite, falando que pelo menos por enquanto não trabalho a noite, que decidi isso só enquanto eles não crescem. Talvez a pessoa ache muito estranho uma resposta assim, mas eu sei que as minhas pessoinhas acham perfeita!

  6. Com relação ao tempo, aprecio uma frase que, penso, é mais didática que o poema acima:

    “Você sempre tem tempo para o que é importante para VOCÊ.”

    Ou seja, quem vem com essa conversa fiada de que não tem tempo para os filhos é porque não os têm como verdadeiramente importantes.

  7. Me lembrou desse texto, que li há mais de um ano e ainda me vem à cabeça toda vez que ouço alguém falar que não tem tempo para nada
    http://opinionator.blogs.nytimes.com/2012/06/30/the-busy-trap/?_php=true&_type=blogs&_r=0

    Parabéns pela reflexão – hoje, na era do amor à conexão virtual, é tão raro ouvir pessoas tentando entender a seriedade da nossa dependência das redes sociais e da internet como um todo, fico feliz de ver que, mesmo que estejamos nadando contra a corrente, pelo menos não estamos nadando sozinhos.

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