Home

Nota para novos e antigos leitores: Não sou a favor do uso indiscriminado de tecnologia pelas crianças. Aprendi na pele que criança ganha muito mais subindo em árvore do que sabendo todos os nomes dos Pokemons. Mas amo cinema e nos finais de semana meus filhos são autorizados a assistir filmes em casa. Algumas vezes vamos no cinema juntos. (ver filmes infantis) Mas não como pipoca, porque excesso de sal ou de açúcar faz mal para a saúde, segundo pesquisas. : )

Cada dia que ouço uma criança cantando a música do Frozen, fico pensando: o que esse filme tem de tão especial? Até que chegou a certeza de que o filme é sim um fenômeno: Frozen alcançou 1 bilhão de dólares de lucro. (até dia 31/03/14) Foi a animação mais vista na história do cinema.

Minha filha nunca gostou muito de televisão e nem de cinema. Ela vai mais pela pipoca do que pelo filme. Mas com esse, a história foi bem diferente. Ela não só amou, como decorou a letra da música depois de ouvir duas vezes! E ela não só canta, como faz a coreografia. (Que ela mesma inventa) Umas 20 vezes por dia. Por isso que digo que não ver tv durante a semana e nos finais de semana com restrição, não é nada radical. O poder que alguns filmes e personagens têm sobre as crianças é tão forte que os dias sem tv são tipo um rehab. Eu já tinha visto minha primeira sobrinha obcecada pelo Rei Leão, mas nunca vi um fenômeno como o Frozen. E acho que o filme leva a importantes reflexões sobre a infância de agora e consequentemente sobre as nossas crianças.

Desde a faculdade e cursos que fiz na época, sempre fui fascinada por interpretar os filmes partindo do princípio de que o que está ali não são os personagens, somos nós.

O cinema como qualquer outra forma de arte é a expressão mais íntima do ser humano colocada para fora. A expressão de sentimentos, traumas, obstáculos que não conseguimos superar na vida real, mas sentimos aliviados de ver ali transpassados pelos personagens. A maior “sombra” do Frozen e que tem presença marcante em todo o filme, é a morte, que pode ser interpretada como separação, física ou emocional. O trecho da música “For the first time and forever, I won´t be alone.” (Pela primeira vez e para sempre, eu não vou estar sozinho.) Fala desse sentimento de separação. Por outro lado no filme, a salvação vem em forma de homenzinhos pedra. Como na Branca de Neve, os anões salvam a princesa, aqui também é a natureza a grande sabedoria. Só esses dois ganchos já seriam suficientes para te prender até o final, mas o filme vai além.

Desculpa se você não viu, mas vou contar então se não quiser estragar a surpresa, pare de ler. Pela primeira vez na história das princesas, o beijo do amor verdadeiro é de uma irmã, não do príncipe. Isso é muito forte. E de certa forma destrói todas as outras histórias, né? Porque pobre da Branca de Neve, depois de ficar sei lá quantas horas naquela caixa de vidro, ganhou o beijo de um príncipe que nem conhecia. Mas uma irmã salvar a outra, é mais do que provar que o amor de irmã é verdadeiro. É dizer: é a sua história que te salva, é o seu DNA, é você mesmo. Quando o “outro” te salva, é sempre uma salvação externa. Você é passivo. E isso, nenhuma das duas princesas são. Por isso amei o filme. Ele faz um reboliço com o que estamos acostumados a associar na palavra “princesa”. Uma prefere construir seu próprio castelo (mesmo que gelado), morar sozinha, cultivar seus monstros do que ter que se explicar e tentar consertar a merda que fez e faz o tempo inteiro numa espécie de dom ou defeito de fábrica. A outra vai atrás da irmã, sozinha, enfrentando tudo o que acontece no caminho, mesmo depois da irmã ter ignorado todos os pedidos de “vamos brincar?” ou “do you want to build a snowman?” e mesmo depois de uma briga feia entre elas quando a mais velha (e com poderes) dá um ataque histérico quando a mais nova fala que ia se casar.

Onde está a conexão das crianças com o filme? Como a maiora das meninas na infância, Anna e Elsa são inseguras, desajeitadas, com medo, impulsivas, ingênuas, espontâneas e perigosas, com um poder de adultos que ainda não tem certeza como manejar. Este poder é literalmente realizado na irmã mais velha Elsa, que congela tudo que toca, uma “maldição” tão repelente que ela mesma fica assustada com ele até que chega a ponto de estourar.

Essa ideia de ‘esconder, não sentir ‘ – que é o mantra e o gancho em que grande parte da música e letra do filme trava de Elsa – é certamente algo que todos nós podemos identificar, particularmente durante o período caótico da adolescência.

A irmã mais nova, Anna, por outro lado, é mais aberta para as delícias da vida, possuindo uma adorável jeito joie de vivre. Anna é a primeira verdadeira princesa pateta da Disney, satisfazendo suas necessidades emocionais com chocolate, falando besteira, caindo toda hora com seu estilo desajeitado/entusiasmado. Anna é impulsiva, o que a leva a cometer erros estúpidos, mas ela também é corajosa, aventureira e forte.

Há os homens em Frozen também, mas eles não estão lá como o objetivo final e inevitável para as mulheres. Numa notável mudança de ritmo para a Disney, o forte, doce e humorado Kristoff e o suavemente charmoso Hans não são a solução para os problemas de Anna e Elsa, nem os companheiros de uma cavalgada em uma típica cena final de romance ao pôr do sol.

É aqui que o filme realmente toma uma rumo diferente dos tradicionais da Disney. Frozen é sobre a aceitação de si mesmo, com verrugas e tudo, e por sua vez, aprender a aceitar o amor dos outros. Ele mostra às meninas – e aos meninos, claro – que não há uma definição singular de “verdadeiro amor”, que amor não tem nada a ver com um “salvar” o outro, mas cada um salvar a si mesmo, se libertar de dentro para fora. Em um resumo muito simplista, o filme salienta que tudo bem ser diferente e essa mensagem é importante, mesmo que ela seja formada na mente das crianças enquanto elas cantam repetidamente “Do you want to build a snowman” até o final do ano.

Ao contrário de muitos filmes de princesa da Disney, Frozen não coloca as mulheres em rivalidade. Não há mães más ou meias-irmãs que fazem a vida miserável, nem quaisquer bruxas malvadas cruelmente ameaçando as vidas de nossos heróis. Há apenas duas irmãs, Anna e Elsa, aprendendo a confiar uma na outra e a encontrar o seu lugar no mundo enquanto navegam pela vida.

Um filme de princesa sem príncipe encantado, onde talvez a grande fantasia feminina é celebrada: o concenso mútuo. (Não ser escolhida, mas ser escolhida e escolher ao mesmo tempo. Na cena final, Kristoff pergunta: “May I?” Posso? E Anna (beijando ele na bochecha) responde: “We may”  Nós podemos.

Como Up Altas Aventuras, Frozen mostra que ‘filmes difíceis’ são os mais interessantes e dizem algumas importantes verdades.

Essa é a minha interpretação. O que acha?

Por Cris Leão

23 pensamentos em “Sobre o sucesso de Frozen e o que podemos aprender com isso

  1. AMEI Cris!!!!!!! Porque era exatamente o que eu sentia sobre o filme……. Que eu mesma também adorei quando vi!!! Minha filha também canta um milhão de vezes a musica e faz a coreografia!!!! Parabéns pelos textos!!! Amo o blog de vcs!!! Bjo

  2. Tive uma interpretação parecida com a sua, levei meus filhos e minha sobrinha para assitirem no cinema e chorei, sim chorei, pois este amor entre irmãs é lindo, é puro, o beijo salvador que contraria todas as histórias de contos de fadas que conhecemos e seus príncipes! Sim ela foi salva pela sua irmã!

  3. Muito Bom!!! Adorei o filme, e claro, minha pequena canta “você quer brincar na neve” o dia inteiro….rsrsrrs

  4. teho uma filha de quase 3 anos e que pela 1a vez foi a cinema e justo para assistir Frozen. Imagina o resultado? Musica, gelo, frozen, elsa e ana fazem parte do nosso dia a dia. Camila (minha filha), aprendeu que a irma salvou a outra. O filme conseguiu passar isso para uma menina de menos de 3 anos de idade. Pra mim é o melhor filme da Disney, onde mostra a vida de um reino sem pais, onde as filhas devem governar tudo, mas que acima de tudo, o amor entre irmãs é poderoso e verdadeiro e que devemos aceitar a vida do jeito que ela é, com poder de congelar ou aquecer os corações e a alma. Adoro esse blog!!! Parabens

  5. Também amei este filme! Assisti com o meu filho duas no cinema ( e olha que ele é menino!), toda hora em que a musica Let it go toca na radio ele pede para eu aumentar o volume !
    Estou adorando o seu blog Cris, desobri ele semana passada e estou gostando muito dos posts que voce escreve.
    Parabens !
    Juliana

  6. Adorei a reflexão sobre o filme!Aqui em casa cortei depois de muita luta a televisão,aqui rola tbm cineminha em casa com a familia de vez em quando e levo meu filho ao cinema quando tem algum filme que valha a pena.Fomos assistir Frozen e me espantou o fato do meu filho assistir o filme inteiro sem me pedir para sair do cinema!Adorei a hst exatamente por encantar e prender adultos e crianças, saindo do convencional amor entre principe e princesa.
    Beijos!

    • Tem horas que acho que é até mais para adulto do que para crianças. E parabéns pela luta! Vale a pena. Beijos

  7. Nossa, esse inconsciente coletivo está muito forte! Minhas filhas (6 e 3 anos) também assistiram as férias inteiras, viram no cinema e na TV diversas vezes e amam a música. Eu também gostei muito da questão do amor verdadeiro poder ser um amor fraternal e não necessariamente um amor romântico. Mostrar que as princesas podem ir à luta sozinhas e que lutar por algo, e não somente aceitar, também é coisa de princesa, a Mulan também pode mostrar um pouco disso. Mas o que achei engraçado no seu post é que justamente hoje estava numa sessão de terapia discutindo o quanto este filme tem sido representativo para mim, em especial a música que, como você mesma disse é muito forte. Tenho escutado com as minhas filhas e, por vezes, me emociono. Realmente este filme teve algo de muito positivo a trazer. Obrigada pela sua reflexão, ela em muito me ajudou a faze algumas “costuras” por aqui. Grande abraço e parabéns pelo blog! (adoroooooo!!!)

  8. As monhas filhas também amaram… Sua leitira do filme é marVilhosa. Já assisti o desenho da “Valente”, também é bem interessante.

    • Eu assisti sim. Mas não marcou muito. Valente e Mulan (para mim) são muito estereotipadas. Mais difícil de conectar. Com Frozen foi diferente. Nunca vi tanta criança cantando a mesma música. Que bom que gostou. : )

  9. Acho q além de tudo q vc escreveu ainda tem a questão de se congelar a cabeça dá para consertar. Mas se o coração congela e o amor não aquece….podemos morrer. Isso é muito forte e real!

  10. Também me chamou muito a atenção essa grande diferença quando assisti ao filme.
    Assim como Brave, em que a relação chave do filme é da filha com sua mãe, que já havia me encantado.
    Tenho assistido com alegria à essa nova safra de mulheres da Disney. Nada de ficar sentada esperando por um homem te acordar de um feitiço, trazer um sapato até você, nada de ter que abrir mão da sua forma original (de sereia) pra poder viver um grande amor. Nada disso.

  11. Também fui assistir com minha filha de três anos e ela adorou todas a s músicas e os efeitos com cristais de gelo

    Confesso que me surpreendi com o significado de amor verdadeiro e sai refletindo sobre isso

    Acho que não fui a única que chorou no final deste filme….rsrsrrsrs.

  12. Eu amei o filme também, achei sensacional! Desde dezembro não tem um dia sequer que minha filha não cante Let it go em casa. Diversas vezes, em inglês e português! 🙂

    Sabe que eu acho que tem um tempo que a Disney está desviando do estereótipo de princesas? Valente foi outro exemplo (Brave). Nesse também não tem príncipe encantado e a relação principal é de mãe e filha.

  13. Oi Cris, adorei post sobre o filme !
    No caminho para a escola ( 30 minutos ) minhas filhas vão assistindo DVD, e tínhamos uma regra que cada dia uma escolhia o filme. Depois do Frozen, não existe mais regra, assistimos todos os dias.
    Agora, vou confessar, eu vou cantando no carro junto com elas e ate fecho a janela para não parecer uma louca !!! srsrsr
    Um super beijo, adoro seu blg.

    • Que bom que gosta do blog! Não se preocupe, Alessandra. Outro dia uma mulher perguntou no twitter se existe tratamento para pessoas que continuam cantando as músicas do Frozen mesmo sem os filhos por perto. rsss beijo

  14. Acabei de conhecer o blog e já me apaixonei!!
    Quanto ao filme Frozen, ainda não assistir, mas já sei toda a sinopse, e isso não me incomoda. Eu não assistir ainda porque estou esperando minha filha poder assistir também, agora ela está com 2 anos e 7 meses e então já, já poderemos assistir juntinhas. Mas quero deixar claro, que não assistimos ainda porque minha filha, na minha opinião, não tinha maturidade para acompanhar uma história, ou seja, ela não iria se concentrar, mas creio que ela já está com mais maturidade para isso, e eu não vejo a hora, kkk.
    Amei o seu post, outro dia vi outro post de alguém que não me recordo quem foi, que de forma irresponsável falou um monte de bobagem a respeito do filme, e a maior delas é que o filme incentiva o homossexualismo, ridículo, fico boba de como tem gente que fala tanta asneira!
    Vou ler todos os post!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s