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José Wilker morreu. Essa foi a primeira frase que minha mãe me disse quando liguei para ela no último sábado. Essa mesma frase estava por todo lado no meu Facebook. Até aqueles que sempre vão contra a corrente estavam falando sobre isso. Um deles escreveu: “José Wilker faleceu e eu não tenho nada a dizer sobre isso.” Mas já disse. E porque é tão difícil ficar indiferente? Eu fiquei triste. Sempre fico triste quando morre um artista. Quando Saramago morreu eu cheguei a sentir uma fincada no coração. Chorei uns 3 dias. 

Quando perdemos um ente querido, a tristeza da perda e a saudade antecipada são tão grandes que o holofote parece não estar direto na morte em si. Mas quando é com aquele ser que de alguma forma inspira, eleva o cotidiano, a cortina cai dura. É como levar um tapa na cara da realidade nua e crua da vida: ela acaba em um minuto e é geral, sem exceção. E pensando nessas coisas, meu sábado não foi animado.

Mas quando você é uma mãe em horário integral incluindo sábado, domingo e feriados não dá muito para ficar deitado na cama olhando o teto e pensando nas rachaduras da vida. Fomos na feira domingo logo cedo. Uma feirinha onde vendedores locais vendem suas frutas, legumes, pães e alguns pratos prontos. Fui rapidamente absorvida pela energia boa de quem trabalha na terra, faz o que acredita e compartilha (vende) com amor. Bebemos a melhor limonada das nossas vidas. Foi uma, duas, até que foram três. O plantador de limões/vendedor de limonadas fazia uma coreografia com as mãos para tirar o suco do limão sem usar liquidificador. E no fim para coroar a obra, um enorme galho de hortelã. As pessoas nos recebiam nas barracas como se recebessem em suas casas. E conversavam. Uma contou que tinha 15 cachorros, a outra contou da tartaruga que quando quer comer fruta fica em pé encarando os donos da casa da janela, outra passou uma receita para fazer mandioca. Ali não tinha chegado a tal cortina.

Pedimos empanadas e eram de comer chorando. A minha foi de espinafre com queijo mas era tão suculenta que o estômago ficou feliz. Meu filho João falou, “nossa quando a gente come uma coisa boa assim, parece que um raiozinho vai da barriga até a pele, né? É gostoso sentir isso.” Depois guacamole, que a moça me vendou com toda a delicadeza e bons modos e eu quando experimentei, tive vontade de cair de cabeça e comer assim mesmo, sem usar as mãos ou levantar o pescoço. Os alimentos tinham aquela energia vital de recém saídos da árvore, cuidado do dono, carinho com a comunidade. Coisas que não estão à venda nos melhores estabelecimentos.

Então voltei para casa com o céu da boca feliz e a alma tranquila. Lembrei do poema da Cora Coralina:

“Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”

E que assim seja.

Por Cris Leão

3 pensamentos em “A feira de domingo

  1. Nossa, que delícia de post, identifiquei-me pq tb fiquei triste com o José Wilker partindo p/mundo espiritual. bjs

  2. Amo seus textos! Tenho acompanhado o blog aasiduamente. Tenho uma pergunta: essa feira de domingo a que você se referiu no texto fica no Brasil? Abraço!

    • Obrigada! Não. Moro em Miami e essa feira fica no bairro de Pinecrest. Mas no Brasil também tem muitas, né? É uma das coisas que mais sentimos saudades. No meu caso, da Tapioca. ; )

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