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Uma vez li num texto de Rubem Alves, “que mãe haveria de enviar uma menina sozinha pela floresta escura onde o lobo andava?” Pois é, nunca entendi também.

E depois de passar meses tentando entender o filme Frozen, (e porque minha filha não para de cantar a música) escrevi este post e voltei a me perguntar sobre os personagens dos contos de fadas. Então minha terapeuta artística antroposófica me emprestou um material sobre o assunto e gostaria de dividir um pouco do que já aprendi até agora.

De onde vêm os contos de fadas? Se pensou em Irmãos Grimm, a resposta está incompleta. Os contos de fadas são sabedoria de um povo antigo. Como as lendas. Eles tratam de sentimentos humanos universais. Aprendidos por aqueles que viviam muito mais conectados com a natureza e a verdadeira sabedoria do que nós hoje em dia. A importância dos contos está em aprender a lidar com e diversidade desses sentimentos. Já que quando transformados em imagem, isso fica mais fácil. Ainda que a criança não entenda racionalmente (e claro que não) no campo onde vivem esses sentimentos mais profundos, elas conseguem assimilar e assim dissipar. E sim, os irmãos Grimm foram os responsáveis por juntar tudo isso e compartilhar nos livros. Cada país recebe a sua adaptação, mas no fundo o conteúdo é o mesmo.

Significados básicos:

Personagens – Esta foi a parte que mais gostei. Se você está acostumado a ler um conto de fadas e apontar o dedo pros personagens, identificando amigos e familiares entre as bruxas e os sapos, saiba que os personagens dos contos de fadas são todos você. O significado disso é mostrar as diversas camadas do ser humano, as heranças, as sombras, os comportamentos repetitivos, os comportamentos destrutivos, enfim, dos anões ao Gigante. 

Alguns personagens e seus significados:

Caçador: é o que domina e mata nossos instintos mais selvagens. Representa nossas forças superiores e quando as convocamos, as colocamos acima de nossas vontades terrenas (materiais, por exemplo). É o famoso o bem vence o mal, só que dentro de você.

Bruxa: simboliza as forças sombrias que se apoderam da alma (em um momento do conto a Bruxa sempre se torna a dona da situação), tentando impedir o desenvolvimento desta. Ela é a força que te prende ao passado, as antigas lembranças. Bruxa porque para prosseguirmos em nosso caminho, precisamos esquecer essa magia e, assim, nos libertarmos do passado.

Agora vamos ver como funciona na prática pegando como exemplo a interpretação antroposófica da Chapeuzinho Vermelho. Há várias interpretações sobre esse conto e também várias versões da mesma história. O que segue é apenas um caminho, uma luz.

O capuz a que o conto se refere não é o capuz externo e assim o interno, ou seja: o nosso cérebro pensante e ativo que comanda todo o nosso corpo. Por isso o antigo ato de tirar o chapéu antes pessoas respeitáveis como forma de saudação, representa a ideia de que: “antes de ti meu pensamento não tem valor, meu ser está aberto para o teu ser.” O tipo de pensamento produzido por esse cérebro reflete na cor do capuz. O vermelho significa a natureza da paixão. Estando vermelho e saudável, o sangue nos torna despertos e ativos, marcando a personalidade do Eu presente em cada um de nós. Ou seja, a Chapeuzinho Vermelho representa a busca do Eu interior, que guarda nosso maior potencial. É a ele que buscamos, mesmo quando temos em vista um outro objetivo que nos ajudará a crescer espiritualmente. Mas, o caminho dessa busca é árduo, cheio de obstáculos e dificuldades para serem enfrentados, entre os quais os nossos próprios instintos que, muitas vezes, nos tiram do caminho certo ao nosso objetivo.

O lobo na história representa justamente esses sentimentos de nossa natureza instintiva e animal. Esses sentimentos não são bons nem ruins, mas demonstram um imenso poder quando não dominados e podem devorar boa parte de nossos objetivos ou provocar consequências desastrosas. Entretanto, seria um erro rechaçar esse tipo de sentimento, pois eles fazem parte de nós e, pra que possamos evoluir, precisamos da presença deles para realizarmos missões fundamentais.

Quando Chapeuzinho Vermelho, diante da bifurcação, encontra o lobo, é seduzida por ele que lhe indica o caminho mais longo, cheio de borboletas, passarinhos e flores. Não que estes representem algum mal, mas a distraem, afastando-a de seu objetivo. Isto, entretanto, não significa que os momentos bons de nossa vida, as coisas agradáveis e que nos dão prazeres materiais devem ser evitadas, apenas não podemos deixá-las tomarem conta de nós e impedirem que sigamos o nosso rumo.

A missão de Chapeuzinho Vermelho é encontrar o Eu e alimentá-lo espiritualmente. Por isso, ela leva os alimentos em uma cesta. O Eu da nossa personagem é representado pela avó, pois é assim que ele é: antigo, experiente, sábio e nos ama intensamente, uma vez que é formado de uma mínima parte do Amor Universal, o próprio Deus. A avó de Chapeuzinho está doente e precisa do alimento que sua netinha irá levar.

Quando Chapeuzinho se deixa levar pelo instinto, o lobo engole a vovó – assim como acontece em nossas vidas – quando esquecemos nosso objetivo e somos seduzidos pela nossa natureza animal, esta se apodera de nosso Eu, devorando-o.

Ao chegar à casa da avó, Chapeuzinho Vermelho encontra o lobo deitado na cama, mas não consegue reconhecê-lo; apenas estranha a aparência de sua “avó”. Isso porque o lobo também representa parte da própria Chapeuzinho. Não é exatamente o que ela buscava, mas lhe é familiar. Portanto, se não tomarmos cuidado, acabamos nos confundindo e encontrando, dentro de nós, uma parte grotesca e assustadora, ao invés daquilo que realmente buscamos.

No entanto, todos nós sempre temos uma nova oportunidade. É o que acontece quando Chapeuzinho chama pelo caçador que representa as nossas forças interiores, forças saudáveis que nos ajudam a vencer nossos instintos. No conto, vendo-se engolida pelo lobo, Chapeuzinho reúne suas forças e chama pelo caçador. Dessa forma, ela o fortalece e, assim, esse consegue travar uma luta com o lobo e salvar Chapeuzinho Vermelho e a avó através de um verdadeiro parto. Representando um novo nascimento, o qual todos nós passamos quando, após o aprendizado com a nossa natureza animal, chamamos o caçador e conseguimos vencê-la. É um nascimento a caminho do nosso Eu interior.

Após salvar Chapeuzinho Vermelho e a vovó, o caçador enche a barriga do lobo com pedras grandes e pesadas que acabam matando-o. Assim o instinto terreno é aniquilado pela dureza e peso de seu próprio materialismo.

Gostou? Consegue identificar o seu lobo? Já chamou o caçador?

Leia Contos de Fadas para seus filhos resolverem suas pequenas e grandes questões. De preferência contando com suas palavras para que a emoção flua junto com a história. E sem ficar mostrando imagens, deixe que eles imaginem ou revivem essas imagens dentro deles.

” A alma da criança tem necessidade toda poderosa para fluir a substância dos contos de fada, semelhante à necessidade do corpo humano que deseja o alimento para saciar a fome.” – Rudolf Steiner

Foto Katerina Plotnikova 

* Usei para fazer este post o trabalho de 12º ano da aluna da Escola Waldorf Rudolf Steiner – Mariana Mercaldi Z. da Silva

Referências Bibliográficas:

Lenz, Friedel. A linguagem Simbólica dos Contos. Atibaia – SP, Editora Urachhaus.

Meyer, Rudolf. Die Weisheit der Deutschen Volksmarchen. 6ª Edição, Stuttgart, Editora Verlag, 1969.

Angel, Adamo. Meditando com as Fadas. São Paulo, Editora Gaia, 1977.

Grimm, Jacob e Wilhelm. Contos e Lendas dos Irmãos Grimm. 1º Volume. São Paulo, Editora Jacomo.

Por Cris Leão

11 pensamentos em “Para que servem os Contos de Fadas?

  1. Olá, Cris! Adoro seus posts em particular os antroposóficos! Vc saberia dizer se nós, pais e educadores, devemos apenas contar os contos, sem apresentar essas colocações do que estão por trás deles?
    Abraços, Juliana.

  2. Oi Juliana, obrigada. Devemos apenas contar os contos. A explicação serve só para nós adultos. As crianças podem sentir, sem precisar racionalizar. Essa é a grande beleza dos contos. Abraço!

  3. Indico também o livro FADAS NO DIVÃ, dos psicanalistas Mario Corso e Diana Corso. A dupla aprofunda as questões implícitas nos contos de fadas.

  4. Ola Cris, muito interessante, agora verei os contos de outra forma, mas tire uma dúvida, qdo vc fala do EU seria nossa essência própria essência? Grata Martha

  5. Já conhecia, sou formada em Literatura e falta aqui a Bíblia deste tipo de literatura-Psicanálise dos contos de Fadas-não me lembro do autor,mas li-o há mais de 17 anos.Aconselho.E há também um filme francês do início dos anos 90 que remete para este assunto!

    • Sim, Maria! Acho que se refere a Psicanálise dos Contos de Fadas de Bruno Bettelhem da Editora Paz e Terra. Também faltou O que Conta o Conto? de Jette Bonaventure, Edições Paulinas. Não quis colocar a lista completa porque o post ficou já longo demais. Mas obrigada por me lembrar de voltar aqui e passar a minha lista completa. Certamente ainda existem outros por aí. abraço

  6. No livro “Mulheres que correm com os Lobos”, da psicanálista Clarissa Pinkola Éstes, ela explora os arquétipos femininos existentes em diversos contos de fadas. Um livro maravilhoso, resultado de mais de 10 anos de estudo e trabalho.

  7. Excelente material Cris!!! Muito obrigado, me esclareceu muito e vou buscar ler estes livros citados!

    Um abraço, paz e Luzzz!

    Ingrid

    Enviado via iPad

    >

  8. Vocês poderiam me informar quem fez a tradução para o português do livro Bildsprache der Märchen de Friedel Lenz?
    Obrigada

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