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Estourado, avoado, na dele, tristonho. Na maior parte do tempo, como seu filho se comporta? A antroposofia divide os temperamentos (ou humores) humanos em 4 tipos. Conhecer esses tipos e entender qual a melhor maneira de lidar com cada um, suas necessidades e expectativas, ajuda muito. Acho especialmente útil quando a gente tem crianças, que se expressam pouco pelas palavras, mas muito pelas emoções. Se compreendermos que seu comportamento e seu tipo físico são uma expressão do espírito, fica mais fácil lidar com eles e conduzí-los ao equilíbrio.

Coléricos, sanguíneos, fleumáticos e melancólicos são os tipos. O assunto já era conhecido desde a Grécia antiga, um legado do médico Hipócrates, e Rudolf Steiner introduziu na pedagogia Waldorf, que pretende ser terapêutica ao mesmo tempo que educa. Todos temos um pouquinho dos 4, mas há sempre um ou dois que aparecem mais. Nas crianças muito pequenas eles não são muito definidos – vão se definindo à medida que se aproximam dos 7, 8 anos. E até então é muito comum que tendam para o sanguíneo. Mesmo assim, muitas vezes os traços principais estão lá e se soubermos logo cedo é um presente: a infância é o melhor momento para que sejam trabalhados e equilibrados. E também vale lembrar que ninguém é 100% uma coisa. Meu filho que era o próprio sanguíneo adquiriu traços melancólicos mais fortes ao se aproximar dos 10 anos.

Para entender rapidinho, um dia o pediatra dele me explicou assim: imagine que há uma grande pedra no meio do caminho. Se uma criança melancólica passar por lá vai pensar “ai, meu deus, uma pedra no meu caminho, que obstáculo, que azar”…e é capaz que sente e chore. Se for um fleumático, para e fica horas olhando a pedra, pensando que, se ela não sair de lá, então ele vai ter que desviar. Se for um colérico, chuta a pedra e continua pisando duro e, se for um sanguíneo, com seu andar que mal toca o chão, nem vê a tal pedra e continua flanando pelo seu caminho. Para falar mais de cada um, vou usar uma descrição física baseada no que tirei do livro A natureza anímica da criança, que acho a mais acertada de todas, mas no texto tem um pouquinho de tudo o que já li e ouvi sobre o assunto. Como tem muito pra falar, vou começar com o sanguíneo e, ao longo das próximas semanas, escrevo sobre cada um dos outros. Aí vai.

A criança sanguínea

Seu corpo e jeitinho

Cachos claros ou avermelhados, testa arredondada, olhos azuis (considera-se no texto o tipo físico germânico, por isso é bom fazermos uma licença poética) e nariz arrebitado. Seu corpo é esbelto, flexível e proporcional, braços e pernas são ágeis e ele gosta de andar na ponta dos pés. Salta e pula diversos degraus de uma vez só e, quando cai, chora um pouquinho mas logo começa a rir, ainda com lágrimas nos olhos. Se perde, fica ofendido, mas logo volta a brincar. Enjoa fácil da brincadeira e começa outra. Se interessa por muitas coisas, mas também se distrai facilmente com qualquer detalhe e logo abandona o que estava fazendo. Ao comer, parece um passarinho. Prefere frutas e alimentos salgados e azedos. Adora um suco de limão puro e um salzinho. É a melhor definição de “criança” que pode existir: alegre, distraído, saltitante, leve. Sua alma acompanha tudo o que o corpo quer e por isso essa criança nunca se cansa. Talvez por essa disposição é querido por todos e muito popular na escola pois está sempre inventando brincadeiras novas.

Tudo isso tem a ver com o processo de encarnação (que explico em um outro post, senão viraria um livro). Nesse caso, há um predomínio do corpo astral, aquele que é portador de todo o prazer, dor, sofrimento, impulsos, paixões e sensações. É o corpo que está ligado ao sistema nervoso e que a antroposofia vê como parte do ser humano. É um corpo que plantas e pedras não têm, mas os animais sim. No adulto sanguíneo, essa mobilidade vêm da alma sempre vibrante, mas na criança ela se baseia nos processos vitais que estão com toda a força: o modo como o ar entra nos pulmões ou os sucos digestivos passando pelo sistema digestório, por exemplo. Inconscientemente, uma criança sanguínea acompanha tudo isso de um jeito mais intenso do que os outros temperamentos. Se ela vê um brigadeiro, por exemplo, começa a salivar antes do que todo mundo. Até nisso há uma rapidez e uma disposição enorme. Talvez por isso precisem de muitas horas de sono e às vezes de uma pausa depois do almoço.

O que o desequilíbrio pode gerar

Uma criança hiper sanguínea corre o risco de ser volúvel, de não se fixar em nada, de se tornar um adulto leviano, descompromissado e que não consegue levar a frente seus projetos. O tal cabeça de vento. Preste atenção se seu filho sanguíneo ri e chora descontroladamente e seguidamente, se mal consegue olhar um livro com a mãe sem virar a página um segundo depois, se não consegue se fixar ou demonstrar interesse por nada, se tem dificuldade para além do normal (na criança, claro) para se concentrar em algo. E, mesmo que não faça nada disso, vai abaixo a maneira de cuidar desse temperamento para ajudá-lo a se equilibrar. E a ideia é essa mesmo: equilibrar, nunca tentar mudar. Mesmo porque seria trabalho jogado fora.

Como cuidar dessa criança

As forças que fazem a personalidade sanguínea atuam na respiração, na circulação, nas pulsações do coração, no sistema nervoso. Enfim, em tudo o que é móvel, tão móvel quanto essa criança. Por isso o ritmo é algo muito importante. Mas é um ritmo rápido, como uma respiração mais ofegante. Obrigar uma criança sanguínea a concentrar-se por tempo demais é uma tortura. Não dá pra tentar colocar nela o que ela não tem, é como esperar maçãs de uma bananeira. Ela não tem essa capacidade e você só vai gerar sofrimento e stress. Sabendo o que ela tem e é, aí sim, saberemos com o que podemos contar.

Se você prestar muita atenção vai ver que tem alguma coisa pela qual o sanguíneo se interessa de verdade. Um objeto, uma atividade que não passa batido, uma brincadeira. Mas tem que ser algo que justifique um interesse curto, coisas que não merecem que se dedique muito tempo a elas. Pensando aqui com meus botões, acho que seria plantar uma plantinha, jogar um pouco de bola ou pular corda por alguns minutos. Lição de casa, nunca!…rs. (Aliás, em casa eu divido em dois tempos quando meu filho tem muitos deveres.) Quando você encontrar esse tesouro, esse “algo” que é interessante para ele, pode oferecer esse objeto ou essa atividade como se fosse muito especial, mas sempre por um tempo curto. Depois tire da criança e ofereça uma outra coisa para que mais tarde ela se interesse de novo pelo que estava fazendo e volte a querer aquele algo especial. Se puder colocá-lo na aula de instrumentos de sopro, como uma flautinha, ótimo. Aliás, dar a ele várias e curtas tarefas é uma ótima maneira de deixá-lo entretido. Ou seja, o melhor jeito de cuidar de um sanguíneo é deixá-lo ser…sanguíneo. Eba, até que enfim uma coisa fácil! Mas, acima de tudo, e isso é o mais lindo na minha opinião, a criança sanguínea precisa amar verdadeiramente alguém com quem se relaciona. E aqui vou colocar um trecho de uma palestra de Rudolf Steiner sobre esse temperamento.

“Tudo deve ser feito para que o amor desperte numa criança assim. Amor é a palavra mágica. (…) Por isso os pais e educadores têm de considerar que não é inculcando pela força que se pode despertar na criança sanguínea um interesse duradouro por coisas. Devemos cuidar para que esse interesse seja conquistado pelo caminho indireto da afeição por uma personalidade. Devemos nos fazer amar por ela. Eis a tarefa que temos para com a criança sanguínea.”

Tá fácil, pensei, já que toda criança ama pai, mãe e professora. Mas acho que não pára por aí. O que ele quis dizer, em minha humilde interpretação, é pra desenvolvermos em nós ao mesmo tempo em que educamos a criança, uma personalidade digna do amor daquele ser, para além de sermos pais ou educadores. Aí é que está. Alguém que seja digno de admiração é um presente para esse temperamento. Ela se ligará e se fixará nessa pessoa por lealdade natural. Broncas, explicações demais e castigos são especialmente inúteis aqui.

Alimentação influencia

Por fim, as crianças – e pessoas – volúveis demais devem se ligar ao que é terreno, bem terreno, como as raízes (Steiner não recomenda as batatas comuns, pelo contrário). Faça uma sopinha de beterraba, um purê de batata-doce, cenoura refogadinha e tudo o que cresce sob a terra e dê para seu filho. E evite o açúcar, que vai deixá-lo ainda mais agitado e cabeça de vento, principalmente antes da escola, antes da lição de casa e perto da hora de dormir. Quem sabe assim ele termina de arrumar o quarto pelo menos uma vez na vida! 🙂

Na próxima semana vou falar sobre o colérico, aquele bem bravinho, que pisa firme e vai com tudo pra cima de quem o impede de fazer o que quer!

Por Fabi Corrêa

Bibliografia

– A Natureza Anímica da Criança, Ed. Antroposófica, Caroline von Heydebrand

– O Mistério dos Temperamentos e Temperamentos e Alimentação, Ed. Antroposófica, Textos escolhidos de Rudolf Steiner

– Consultório Pediátrico, Ed. Antroposófica, W. Goebel e Michaela Glockler

– Os Temperamentos, Ed. Antroposófica, Norbert Glas

 

 

 

 

 

 

 

12 pensamentos em “Os 4 temperamentos – como identificar, cuidar e equilibrar – Sanguíneo

  1. Oi, me interessei pel assunto e gostaria de começar a ler sobre. Qual livro vc me indicaria, considerando que sou compeltamente leiga no tema? Obrigada!

    • Olá, acho que o mais básico é o A Natureza Anímica da Criança, ele vai um pouco além do que eu escrevi aqui. Já o livrinho O Mistério Dos Temperamentos, de Rudolf Steiner, fala dos motivos porque somos cada um mais “dominados” por um temperamento. Eu leria os dois. Boa sorte!

  2. Oi Fabi, muito bom saber de tudo isso. Muitooo Obrigada por dividir isso conosco. Queria saber sobre o fleumático, já tem algo sobre ele? Não consegui achar. Grande beijo

  3. Adorei. Vi minha filha nesse texto, tanto no corpo quanto no temperamento, ela é tão desprendida, não se apega a nada que fico preocupada. E a professora dela disse que ela é a mais querida da sala, todas querem e até brigam pra ser a melhor amiga dela. Mas eu TB vi um pouco de colérico nela TB, mas só nas manhãs e birras ela tem 4 quase 5 anos. Vou comprar o livro e ler mais sobre o assunto. Obrigada adorei seu site, estou devorando ele.

  4. Pingback: A criança sanguínea: como identificar, cuidar e equilibrar | Biblioteca Virtual da Antroposofia

  5. Pingback: Um mundo belo e verdadeiro – Alternativas da Educação

  6. Nossa, eu me vi nesse texto! Estou ate chorando! Tenho 34 anos e me tornei aquela adulta que não conseguiu se fixar em nada! Nao consigo aprender nada suficientemente bem pq simplesmente me desinteresso! Gosto de coisas mais praticas e manuais, mas não sou habilidosa e quando tento desenvolver habilidades e vejo que não evoluo, fico de saco cheio, entro em pânico e abandono! Também gosto de coisas que envolvem criatividade, mas não sou criativa, pensei então em ser estudiosa dessas áreas, mas tbm nao tenho saco para apreciar seriamente! Sou predominantemente sanguínea mas sempre tive um tanto de melancólica, que quanto mais velha fico mais vai aparecendo, em se tratando de me fechar e tal.
    Enfim, estou desesperada tentando ser independente e encontrar uma profissão que eu possa seguir.. Você poderia me dar alguma dica? Alguma leitura… Alguma orientação sobre áreas de trabalho que combinem com meu perfil. Muito obrigada! E desculpe o textão..

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