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Minha madrinha estava no apartamento onde morávamos em Belo Horizonte conversando com minha mãe. Elas falavam da doença de um ente querido, falavam de problemas de família, até que minha madrinha disse: Vamos ouvir uma música? Nessa horas a gente precisa.

Acredito que música é a única expressão de arte que mesmo quando é ruim, ainda é boa.

Se você ouve uma orquestra em um ambiente com acústica própria vai sentir em todas as células e veias do seu corpo o que é música. Mesmo que não goste da melodia, a arte está ali. Se ao contrário ouvir num radinho de pilha uma música que te lembra um momento da sua vida, ou que te leva a um sentimento, vai ter as células do corpo em sintonia de novo, não importa a melodia.

Ouvi no rádio o caso de uma criança italiana que não sabia nada de inglês mas amava uma determinada música cantada em inglês. E um dia a mãe perguntou: Mas como você ama tanto? Está em inglês. O menino respondeu: Inglês? Não, está em musiquês.

Esse tal de musiquês me fascina. Na minha singela opinião, a música ganha todas as notas de arte nas mãos de Philip Glass. E fora ele, aprecio música clássica, ouvir realmente a melodia dos instrumentos. Mas os vocais as vezes conseguem esse feito. Fazem algo especial com palavras que se lidas ou ditas seriam banais.

Não estou falando de poetas da música como Beatles, Bob Dylan, Milton Nascimento, estou falando de música Pop. Ou qualquer outra variação de música que para artistas podem causar aquele sentimento de vergonha alheia. Uma vez um amigo me contou que a mãe dele lavava roupa no tanque cantando “segura o tcham! amarra o tcham! segura o tcham, laiá, laiá” Nunca mais consegui lavar roupa sem lembrar dessa música. Acho que ela foi feita para isso. A cada tcham, uma batida mais forte no encardido.

Ouvindo outro dia no rádio uma música que diz “All of me, loves all of you” fiquei emocionada pensando em quanto o amor é uma entrega e um encontro de coisas desejadas e coisas indesejadas. E algo dentro de mim foi alimentado ao ouvir essas palavras cantadas.

No mesmo dia à noite, vivi um daqueles momentos “especiais” de relação mãe e filha. Minha filha começou a falar que queria trocar de mãe. “Quero uma mãe que me deixe comer doce toda hora.” “Quero uma mãe que fale que não preciso tomar banho, nem escovar o dente.” E eu não perdi a oportunidade e disse: Pode trocar. Eu aproveito e troco você por uma filha que não reclame de tomar banho e escovar os dentes todos os dias. Eu vou adorar! 

E me senti aliviada pelo desabafo. Acho que criança precisa desse safanão. Antes de virar aqueles adolescentes insuportáveis que não respeitam o professor na sala de aula. E tantos outros exemplos. Como se diz “é preciso se recolher na sua insignificância”. Só assim você percebe que precisa ir à luta para se tornar significante. 

Enfim, desabafo é bom na hora que sai, mas nem sempre deixa uma boa energia no ar. E posso estar errando muito, mas acho que o amor faz ponte enquanto regras e racionalidade fazem muros e marcam territórios. O que também é importante, mas entre entre mãe e filha, não é suficiente.

Então depois do banho, onde ela se comportou muito bem porque é orgulhosa e se comportando bem ela sentia que estava me ignorando, eu enrolei ela na toalha como gosto de fazer (e sei que eles amam a sensação de estar enrolados) eu cantei a música para ela: “All of me, loves all of you. All your curves and your edges. All your perfect imperfections.” 

Ela olhou para mim bem no fundo dos olhos e disse: Não quero mais trocar de mãe. E me deu um abraço.

E assim vamos fazendo nossa melodia.

E se você também gosta de música e gosta de Philip Glass, faça um favor a você mesmo e assista a esse documentário.

Por Cris Leão

5 pensamentos em “Música resolve tudo

  1. Nossa, Cris, penso exatamente da mesma forma quanto à música e quanto à relação com as crianças! Estou ouvindo o Philip Glass, que não conhecia…

    • Oi Roberta, deve conhecer ele sim. As músicas deles são trilhas sonoras de muitos filmes. Veja o documentário no link que passei. É muito lindo!

  2. É mãe também é gente… Mas depois vira fada de novo, enche os olhos de lágrimas e o coração transborda de amor.

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