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Conforme prometido, aqui vai o segundo temperamento: o colérico. Para descrevê-lo, começo de novo com um trecho do livro A Natureza Anímica da Criança (uma das principais referências para esse e os outros textos sobre temperamentos, incluindo o sanguíneo, publicado na semana passada).

Seu corpo e jeitinho

“Tânia está fora de si. Com os dois punhos, bate num menino (ela tem 10, ele tem 12). Seus cabelos desgrenhados se levantam como as penas de uma ave de rapina. As proeminências em sua fronte bem redonda parecem se transformar em chifres. (…) Tânia pega do chão o irmãozinho – causa inocente da luta e que o menino grande empurrara – e o arrasta atrás de si. Ela não chora, mas soluça em convulsões que não consegue dominar e faz movimentos violentos para enxugar as lágrimas, que correm contra a sua vontade. Ao fazê-lo, caminha batendo os pés, ainda mais fortamente do que costuma, pisando energicamente com os calcanhares. Uma das mãos ainda está cerrada em punho e a outra segura firmemente o pulso do pequeno. (…) seu pescoço está encolhido entre os ombros, como se quisesse contrair e endurecer todo o seu ser.”

E aí, alguma semelhança com seu pequeno tirano? rs…Pois é, essa é uma palavra que muitas vezes se aplica ao colérico, pois ele quer fazer valer sua vontade acima de tudo. E para isso bate, morde, tiraniza os coleguinhas. Com o queixo avançado para frente (que fica mais proeminente nos coléricos à medida que envelhecem), define o que quer e luta por isso com unhas e dentes, literalmente. Se não quiser fazer algo que a professora manda, vai se negar até o fim com tanta determinação que pode acabar vencendo pela firmeza de decisão e pelo cansaço alheio. Se for algo que não o empolga, esqueça.

O colérico gosta de acordar cedo e ir cuidar de suas plantinhas ou de suas coisas ou de ficar desenhando enquanto medita sobre planos e os outros ainda dormem. Adora pontualidade, é concentrado, mas aprender não é algo fácil para essa criança. Seus desenhos, que não costumam ser os mais geniais da classe, têm traços grossos e fortes assim como suas pegadas, que quase abrem o chão de tão firmes. Seus olhos são brilhantes, com um olhar cheio de luz interna e muitas vezes são negros como um carvãozinho. Tende a ter um rostinho vermelho e acessos de febre e doenças inflamatórias da infância, como a escarlatina.

A criança colérica é cheia de vontade e presença e gosta de fazer tudo sozinha, sem ajuda de adultos. Isso acontece porque, nela, o “eu” se colocou com uma força superior ao que faz em outros temperamentos. Essa força cria um corpo robusto e firme, adequado para impor esse “eu” em qualquer situação. Por isso seus membros não são leves e ágeis como o do sanguíneo, que falamos na semana passada. É uma criança atarracada e fortinha – o “eu” dominante impede o crescimento dos outros corpos (astral, etérico e físico). Ela também tende a ser menor que a média, com o pescoço enfiado na cabeça e dá a impressão que está sob pressão, prestes a explodir, o que realmente acontece muitas vezes, quando fica fora de si. Acessos de vontade ou de ira são simplesmente mais fortes do que ela pode controlar. Por isso explode: ainda não aprendeu a lidar com tanta energia. No dia seguinte pára, ouve o que os pais têm a dizer e se dispõe, verdadeiramente, a mudar. Até que de novo saia do controle. São crianças entusiasmadas e se mobilizam por ideais. Napoleão é um exemplo de colérico famoso – e bem baixinho também.

Em um dos livros obre o assunto, li que é um temperamento cada vez mais raro. E não conheço mesmo muitas crianças coléricas. Na classe do Antonio, meu filho, entre 21 crianças deve ter duas, no máximo. Desconfio que tenha a ver com a incapacidade atual de as crianças encarnarem. Rudolf Steiner disse que haveria um tempo em que todas as crianças necessitariam de ajuda para encarnar e acho que esse momento é agora. Cada vez mais você vê criança que precisa de fonoaudiologia, reorganização neurológica, terapia, aula de judô e por aí vai como ajuda para receberem melhor o “eu” (algo que falei bastante nesse post). O excesso de mídia, tecnologia e a falta de espaço para serem realmente crianças, correndo, pulando e caindo, imagino, tem muito a ver com essa dificuldade de encarnar corretamente.

O lado difícil dos coléricos

Assim como o imperador francês, as crianças coléricas não tendem a mostrar arrependimento, ainda que saibam que agiram mal. Mas, como diz o trecho do livro acima, buscam fazer justiça com as próprias mãos pois têm um amor à verdade. Ficam irritadas e explodem se não chegam onde querem. Se esse querer, no entanto, é mais pra egoísta do que pra idealista, essas personalidades podem agir sem consideração pelo outro e serem vaidosas demais. Uma pessoa hiper colérica na juventude corre o perigo de ter um eu moldado irascível, que não consegue ser dominado e isso com certeza vai lhe causar problemas de relacionamento. Pior, podem se tornar obcecadas por um único objetivo, seja qual for. Para os pais e cuidadores, costumam ser crianças cansativas pois esperneiam, chutam, dão socos e são muito teimosas.

Como cuidar de uma criança colérica

Colocar o colérico para brincar ou se sentar ao lado de uma outra criança colérica na classe é perfeito. Os dois vão se empurrar e medir forças e, assim, amenizar seu temperamento. Para ele, é terapêutico contar histórias de coragem e ousadia, de homens que realizaram grandes feitos e dar tarefas difíceis e que exijam todas as suas forças. A criança colérica precisa enfrentar dificuldades que desdobrem suas forças interiores. Assim, ela não usa essas mesmas forças para “fazer bobagem” por aí. É, não dê moleza pra esse moleque! Torne a vida dele difícil dando atividades que ofereçam resistência: peça para bater o martelo em um prego ou carregar pedras pesadas pra construir uma fortaleza. Leve-o para brincar em espaços abertos. É o que ele precisa na vida pois é assim que vai aprender a usar a energia que traz dentro de si. Não é na base da força física ou dos castigos que vamos dobrar esse pequeno Napoleão, mas mostrando a ele obstáculos mais poderosos do que ele pode transpor. Carregar objetos, serrar um pedacinho de madeira, empurrar móveis com a mamãe, levar as compras. Isso fará com que ganhe respeito, que se dê conta que não é o super-herói que pensa ser e assim corre menos riscos de virar um tirano de verdade quando crescer. E não precisa de lição de moral. O importante é deixá-lo perceber tudo por si mesmo, como sempre devemos fazer com as crianças.

Frequentar aulas de um instrumento musical em que possa fazer solos é um bom desague para sua vaidade e ambição naturais. Em relação aos adultos, não vale o mesmo do que no sanguíneo, que irá acompanhar e ser leal a uma personalidade que lhe desperte amor. O colérico, acima de todos os outros, precisa respeitar e venerar alguém que possa mais do que ele: alguém mais forte e que saiba fazer coisas que ela ainda não consegue. Depois de seus ataques de raiva, de preferência no dia seguinte, após uma boa noite de sono, vale a pena conversar com ele sobre o que aconteceu com toda a calma do mundo. No fundo no fundo, ela vai ficar agradecido pela ajuda moral. Mais do que qualquer um, é necessária muita paciência pra lidar com esse temperamento. E auto controle também. Diante de uma criança que chuta e arranha, nossa tendência é querer fazer o mesmo, mas o que ela precisa é de alguém que não aja sob o calor das emoções e que possa mostrar a ela que um dia ela também poderá dominar e usar bem o cavalo bravo que existe dentro de si. Ela precisa, mais do que ninguém, da autoridade amorosa. Ela precisa, de certa forma, ser naturalmente barrada em seu caminho de passos firmes.

Alimentação mais adequada

Coléricos adoram frutas (se puder colhê-las, então, sobem na árvore com rapidez), detestam mingaus e preferem comidas secas e duras, que ofereçam resistência ao morder. São capazes de usar os dentes para quebrar nozes e não gostam muito de petiscar. Cuidado com alimentos muito calóricos e energéticos. Uma tigelinha de açaí pode dar força e energia demais pra essa criança. Chocolate pode gerar um estrago e vai ser difícil controlá-lo depois. Prefira refeições com elementos mais leves e pouco calóricos pois energia ele já tem de sobra.

Por Fabi Corrêa

Bibliografia

A Natureza Anímica da Criança, Ed. Antroposófica, Caroline von Heydebrand

– O Mistério dos Temperamentos e Temperamentos e Alimentação, Ed. Antroposófica, Textos escolhidos de Rudolf Steiner

– Consultório Pediátrico, Ed. Antroposófica, W. Goebel e Michaela Glockler

– Os Temperamentos, Ed. Antroposófica, Norbert Glas

 

 

18 pensamentos em “Os Temperamentos II – A criança colérica

  1. Adorei o artigo, mto bom! Tenho um colérico em casa, e acho q estamos no caminho certo (educação). Informação como essas são sempre bem vindas e agregam valor!

  2. Adorei seu artigo, você me fez descobrir que meu filho mais velho é um colérico e posso dizer que ele consegue tirar nossas energias quando fica nervoso. É muito teimoso e sente muito ciúmes da irmãzinha que é muito calma, então ele bate muito nela. Muitas vezes choro e me sinto completamente perdida porque não sei como ajudá-lo a controlar seu temperamento. Você poderia me indicar algum livro que possa nos ajudar e onde posso comprar, porque sou de Campinas.
    Muito obrigada, Ana Paula Messias

    • Oi Ana Paula, o colérico exige mesmo. Você pode comprar o livro que está na bibliografia, A Natureza Anímica da Criança, e O Mistério dos Temperamentos. Mas, antes de tudo, diante de um colérico é necessário ser forte e presente. É tudo o que ele precisa: direção, anteparo e obstáculo, sempre com amor. Compre no site da editora Antroposófica. Quem sabe lá você encontra mais alguma coisa.Boa sorte! Fabiana

      • Olá Fabi, gostei muito do artigo e fiquei com vontade de ler o livro. É muito técnico ou dá para um mero mortal ler? 😀
        Obrigado
        Max

  3. Vi a criança que fui na descrição do texto e vejo minha filha…
    Ambas coléricas, iradas e nem um pouco culpadas.
    E vejo que nada melhor que um colérico domado (como já posso dizer que sou) para entender as crises de um outro em treinamento. 🙂

  4. Estou acompanhando os posts sobre temperamento e achei muito interessante este destaque que dá para as características físicas das crianças com determinado temperamento…isso ´para mim é novo… apesar de sempre achar que certas crianças se parecem mesmo não sendo parentes e tendo o mesmo jeitinho… vou acompanhar e repassar todos eles.

    • Oi Renata, se você começar a prestar atenção vai perceber. O meu filho é exatamente como descrito no sanguíneo. E a postura do colérico é básica, com o pescoço mais atarracado.

  5. Muito interessante. e esses temperamentos podem se mesclar? muitas vezes vejo um pequeno colérico na minha frente, mas não com todas essas características.

  6. Olá Fabi, muito bom esse compartilhar,obrigada. Mas fiquei em dúvida quanto a uma afirmação ” na criança colérica o eu se coloca como uma força superior aos outros corpos”. Segundo Steiner, nas crianças a atuação dos corpos é diferente do que é nos adultos. Se nos adultos o Eu impera, o temperamento dominante será o Colérico e na criança o Melancólico. Se no adulto o corpo astral prepondera o temperamento será sanguíneo e na criança Colérico. Sendo assim para um criança ter o temperamento colérico como dominante o seu corpo astral é que se coloca como uma força superior aos outros corpos. Eu entendi assim, posso estar errada. O que você acha?

    • Oi Juliana, tudo bem? Olha, em toda a bibliografia a que recorri para esse texto não li sobre isso, mas – sim – você tem razão nessa diferença de atuações. Veja, tudo isso é o que li, pedi informações e entendi até hoje, vale dizer. Até onde sei, na criança colérica o Eu ainda não está manifesto. Aliás, como eu disse no primeiro texto, os temperamentos só se manifestam mesmo entre os 7 e os 14 anos. É o corpo astral quem faz o papel dominante no colérico até que o Eu tenha oportunidade de se manifestar. Se o Eu não conseguir se colocar quando chegar a hora, no entanto, teremos um colérico com problemas de comportamento, pois seu corpo astral continuará dominando, mas sem controle do Eu. Há um certo giro, sim, entre os comportamentos da criança e do adulto. Mas isso eu só ouvi falar, não li a respeito. Você tem o texto em que leu isso? Perguntei a um médico antroposófico, e a resposta que tive foi mais ou menos essa aí em cima. Se tiver mais informações para contribuir, agradeço. Beijo

  7. Pois e tenho um Colerico de respeito em nossa casa tem tres anos , e depois de nossa Dra Helena ter (pediatra) ter identificado seu comportamento encontro esse SHOW de informaçoes que é meu pequeno traduzido em letras , muito bom agradeço muito essas informaçoes . Sucesso para voce .

  8. Pingback: A criança colérica | Biblioteca Virtual da Antroposofia

  9. Amei! Estava no caminho errado… identifiquei meu filho mais velho como um sanguineo, mas ele é um colérico. Embora tenha alguns traços do sanguineo, preciso corrigi-lo como um colérico.
    Como colérica que sou, as coisas ficam mais dificéis! kkkk Ainda mais que tenho traços melancolicos,

  10. uma criança pode apresentar sinais de duas personalidades? meu filho é muito sanguíneo mas apresneta características claramente coléricas, embora sejam tão distintos. ele é teimoso, violento e gosta de comidas secas e duras, mas de resto é totalmente sanguineo…

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