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IMG_0567Mais um post sobre os temperamentos. Hoje é o melancólico, que eu escrevo com muito conhecimento de causa…rs. Aqui em casa tem eu e meu filho, que somos melancólicos AND sanguíneos (leia sobre esses aqui). Quem aguenta tanta mudança de humor? Só não é pior porque ele não tem TPM. Mas, voltando ao assunto, a antroposofia divide os humores humanos em 4 e vale lembrar que todos nós temos um pouquinho de cada, mas um sempre se manifesta com mais intensidade. E às vezes tem um segundo que também aparece com força, como é o caso dessa que vos fala. Nas crianças, como eu já disse, é um pouco diferente pois os temperamentos realmente se definem entre os 7 e 14 anos, mas em muitos casos já dá pra perceber logo cedo as manifestações. Vem comigo e descubra se seu filho tem a ver com essa descrição abaixo, que eu tirei do livro A Natureza Anímica da Criança:

Corpo e jeitinho

“Para o oitavo aniversário de Ivone, a mãe convidou seus companheiros de brinquedo da mesma idade. Porém Ivone despareceu. Retirou-se para debaixo da toalha. (…) Foge para um canto, chora muito tempo introvertidamente, fitando com o rosto sombrio, mas com o olhar cheio de ansiedade, a brincadeira das outras crianças. Finalmente, quando se decide a brincar também, fica feliz, olha para todas as crianças, uma após a outra, com olhos brilhantes, pedindo simpatia, e fica profundamente triste quando elas se vão. Principalmente uma das menininhas ela beija afetuosamente, declara-a interiormente sua ‘amiga’  atribuindo-lhe em silêncio as mais belas qualidades, principalmente aquelas que lhe faltam.

Ivone gosta de procurar recantos silenciosos para meditar. (…) Ela não é covarde, embora tenha medo de gente. Seus empreendimentos têm algo de aventuroso e brotam de um rico mundo imaginativo, um tanto estranho. Ela pensa muito. Em seus pensamentos, ela mesma representa um papel importante: uma princesa, uma pobre órfã, um herói, uma pessoa injustamente perseguida. Não pode ouvir falar na Gata Borralheira sem se ligar de tal modo com a personagem e a situação que julga passar, ela mesma, por suas aventuras. Seus olhos grandes e ligeiramente úmidos  olham ora sombrios, ora excessivamente alegres, sem que as causas sejam visíveis. Seus cabelos finos e lisos sobre a testa alta e pálida transformam-se, em sua imaginação, em cachos dourados, e então ela ergue com orgulho sua cabecinha, que é um pouco inclinada, e as costas finas, em geral um pouco curvas.””

Bom, já deu pra perceber que a vida do melancólico se passa, em boa parte, dentro de sua mente. Gosta de brincar sozinho e vive escondido em algum cantinho, lendo um contos de fada triste ou com uma boneca na mão. A criança melancólica sente o peso do mundo e da realidade e facilmente se entristece ou fica mal-humorada. Por isso até seu corpinho é envergado para frente e, quando caminha, olha pra baixo, enquanto mantém o andar firme, pausado, para carregar o peso do corpinho. Esse temperamento aparece quando o que predomina no homem é o corpo físico, o mais denso que temos. Assim, ele impede que se veja o mundo com leveza. Tudo é motivo para preocupação e viver é sofrido. No melancólico, corpo físico se opõe à comodidade do corpo etérico, à mobilidade do corpo astral e à firmeza do eu.

Sensível ao extremo, a criança melancólica tem consciência demais para um ser tão pequeno e guarda para sempre os castigos ou tapas que levou. Mais do que guardar, ela os relembra sem parar, sentindo-se uma vítima envergonhada. Em alguns momentos, isso faz com que ela se pareça um adulto miniatura, cheia de perguntas cabeludas e reflexões. Sua melancolia a faz sentir-se culpada das travessuras e danadices, como se fossem grandes pecados. A beleza da criança melancólica no entanto é que, quando alguém conquista de verdade seu afeto, ela sai da concha e abre-se totalmente. Precisa confiar para entregar amor, ainda que seja para tias ou até para a mãe. E, apesar de curtir sua melancolia,  é muito grata a quem a faz rir. Mas para chegar nessa risada solta é preciso enganá-la um pouquinho pois, se perceber que você quer fazê-la rir deliberadamente, é bem possível que segure a gargalhada.

Como cuidar

Se o colérico é difícil pela teimosia, o melancólico é duro de educar pelo excesso de sensibilidade e pela necessidade extrema de compreensão. Não quero dizer mimar. Pelo contrário. O melhor é que ele nem perceba toda essa atenção pois é “egoísta e quer sentir-se no centro”. O que a criança melancólica precisa sentir é que o ambiente em que vive é caloroso, um lugar onde pode se soltar, sentir e não ficar guardando tudo o que traz no peito. Pesado? É assim o mundo para esse temperamento. Ufa! Bacana também é encarar suas pequenas loucuras e esquisitices como algo normal e não ser exigente demais, deixando a criança se abrir e saber que pode confiar. Dê ao melancólico um ombro amigo e você vai ganhar esse coraçãozinho endurecido, mesmo que só tenha 10 anos.

Seja qual for o temperamento do seu filho, o melhor é nunca tentar corrigí-lo, mas evitar que se desequilibre ao extremo. Um adulto excessivamente melancólico tenderia à depressão, no mínimo, e até à loucura, que seria seu maior perigo, diz Rudolf Steiner no texto O Mistério dos Temperamentos. Assim, se soubermos como tirar esse melancólico de sua concha e ajudá-lo a suportar o peso do mundo, teremos uma criança mais saudável e um adulto mais equilibrado. E a melhor coisa para tirá-lo dessa concha pesada por alguns momentos é alguém que possa ser companheiro em sua dor.Uma pessoa vivida, que já passou por muitas coisas e provas duras vai ser uma ótima companheira para esse tipo de criança. Quando eu conto ao meu filho alguma tristeza que sofri na infância, um cachorrinho que morreu atropelado, sinto que ele se ilumina pois percebe que não é o único a sofrer e assim pode se abrir, relaxar. De alma pra alma, diz Steiner. É disso que seu pequeno melancólico precisa. Vale também contar, para crianças maiores de 9 anos, biografias de pessoas que tiveram uma vida difícil e até trágica (nunca de horrores, mas de um certo sofrimento). Para os menores, um conto de fada cheio de revezes e dificuldades sentimentais ajuda muito.

Assim como o colérico precisa de obstáculos para equilibrar sua força, o melancólico precisa de tristezas para equilibrar sua…tristeza. O melhor é que esse sofrimento interno se desvie para uma dificuldade que está do lado de fora. Ajudar alguém, curar um passarinho que caiu do ninho, cuidar do cachorro que quebrou a pata, recolher agasalhos pra quem não tem e entregá-los em um dia frio, cuidar do irmãozinho doente ou ajudar a mamãe que está com dor de cabeça e não consegue terminar de arrumar a casa. Enfim, olhar para o sofrimento do mundo e contribuir para diminuir esse sofrimento faz bem ao melancólico pois ele pode dar um rumo ao que traz dentro dele. E, se ele roer as unhas ou chupar a ponta dos cabelos, saiba que isso é uma manifestação do seu temperamento: é importante não dar broncas a ponto de fazer com que ele sinta mais vergonha do que já tem, naturalmente.

Faz bem para essa criança expressar todo o seu sentimento em um instrumento como o piano ou o violino. Ter aulas de música, principalmente entre 8 e 11 anos, é uma boa maneira de equilibrar essa tristezinha que carrega. Ela precisa muito mais disso do que praticar esportes.

Alimentação e cuidados físicos

O corpo da criança melancólica pede mais cuidados do que o de outras crianças. Ela precisa de calor – não apenas espiritual – sem exageros. Um banho quente antes de dormir, um escalda-pés à noitinha, uma bolsa de água quente na panturrilha ao ir pra cama a ajudam a dormir melhor (já que ela costuma demorar pra pegar no sono pois fica imersa em pensamentos). Banho de mangueira só em dias de muito calor.

Para que seu corpo não sofra ainda mais, o melhor é oferecer pratos bem variados, mas nunca pesados (como para todas as crianças). Raízes não fazem muito bem a ela: o melancólico precisa da força do Sol para viver melhor, por isso frutas maduras e que cresçam bem longe do chão são o melhor alimento. Além disso, saladas, verduras e carne branca em pequena quantidade (essa última só depois dos 3 anos, de preferência). De todos os temperamentos, é o que mais gosta de um docinho – e até precisa disso pois açúcar estimula. Mas um pepino em conserva vai bem pois o gosto ácido também atrai. Como essa criança tende a ter dores no estômago, prisão de ventre e problemas no intestino, é bom fazer uma dieta com muitas fibras.

Por Fabi Corrêa

Bibliografia

A Natureza Anímica da Criança, Ed. Antroposófica, Caroline von Heydebrand

– O Mistério dos Temperamentos e Temperamentos e Alimentação, Ed. Antroposófica, Textos escolhidos de Rudolf Steiner

– Consultório Pediátrico, Ed. Antroposófica, W. Goebel e Michaela Glockler

– Os Temperamentos, Ed. Antroposófica, Norbert Glas

Gostou? Leia mais:

A criança colérica

A criança sanguínea

 

4 pensamentos em “Os Temperamentos III – O melancólico

  1. Pingback: A criança melancólica | Biblioteca Virtual da Antroposofia

  2. Que gostoso respeitar esses traços. Me parece queo que se considera como certo ou como objetivo é ser extrovertido. Mas, o que seria do mundo sem esse olhar do melancólico… Rssss

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