Home

Já parou para pensar que tudo que é verdade verdadeira mesmo, está escrito em algum lugar na Bíblia? Eu tenho pensado muito nisso desde que comecei a estudar filosofia e ler livros de pessoas que têm uma vida inteira dedicada ao estudo e a pensar de um jeito diferente. No frigir dos ovos, eu paro e penso: mas isso está na Bíblia também, né?

Foi quando comentando com amigas sobre o quanto os pais estão protegendo as crianças e o quanto os adolescentes de hoje em dia estão sem interesse por nada, completamente apáticos (ou se achando gênios, com 12 anos e o futuro brilhante garantido) e bobos, minha amiga falou. “Eh, como disse Jesus, os últimos serão os primeiros.” É verdade. Vi isso nos quase 4 anos dando aula em faculdade em São Paulo. Esses pais que protegem demais, que agradam demais, que dão tudo que o filho quer, que só ficam batendo palmas, não imaginam o desserviço que estão fazendo.

E então comecei a pensar na minha vida. Voltei no tempo que eu era uma menina magra, magra, magra. Para vestir a calça jeans 36, eu precisava colocar um moleton por baixo. Mas a cabeça e o joelho não respeitavam o peso de 37 quilos. Então eu era aquele pessoa desproporcional e desengonçada. Aos 13 anos saí da casa dos meus pais no interior de Minas para ir estudar em um colégio cheio de gente metida a besta em Belo Horizonte. Para pioar meu visual, sempre gostei de pegar roupas emprestadas das minhas irmãs. Sendo minha irmã mais velha, mais alta do que eu, um dia na aula o professor parou tudo e, apontando para mim, disse: Você veio de pijama? Todo mundo riu e eu senti que nunca seria igual a ninguém ali.

A verdade é que aquela menina magrela, que saía no final da aula correndo porque tinha vergonha de ser a única da escola inteira que não tinha uma mochila Company, hoje realizou todos os sonhos que teve. E quando lembro que aos 19 anos fui sozinha para Barcelona sem falar uma palavra de espanhol. Quando lembro que com 24 anos, fui para Lisboa, procurei emprego, finquei minha bandeira e depois de passar o maior perrengue por ficar mais de um ano morando ilegal por lá eu realizei meu sonho de morar na Europa, me banquei sozinha por 4 anos, viajei para todo lugar que queria com a tranquilidade de um residente e aprendi muito profissionalmente. De quebra conheci o homem da minha vida. Os amigos mais engraçados que uma pessoa pode ter e até andei de helicóptero de Nice para Cannes quando ganhei com meu dupla, o prêmio de melhores jovens criativo de Portugal.

Eh professor, eu vim de pijama porque todas essas risadinhas e esse desprezo que estão me dando agora vai ser o que vai me dar força para conquistar tudo o que desejo. Sei que alguns dos meus colegas – que faziam 3 viagens internacionais por ano, vestiam seus tênis importados na época que classe média só comprava Bamba ou falsificações – não tiveram a mesma sorte que eu. Um deles pulou do alto de um prédio no meio da viagem de alguma droga que eu nunca experimentei, em alguma festa que eu nunca fui convidada. Alguns estão fazendo faculdade até hoje. Morrendo de medo de sair da barra da mãe. Porque é verdade, o mundo lá fora pede gente forte.

E força vem de calo. Por isso é preciso ficar por último para aprender como fazer para ser o primeiro.

Mas então o quê? Não vou comprar roupa bonita para a minha filha? Vou ficar me sentindo mal quando meus filhos tiverem boas oportunidades ou forem populares na escola? Vou me esforçar para fazer a vida deles miserável? Não. Só acho que não precisamos nos sentir mal toda vez que vemos os filhos perder. Toda vez que a gente ver que claramente, aquele outro amiguinho é muito mais engraçadinho, mais bem vestido e até mais inteligente. Acho que não precisamos recompensar as tristezas e as amarguras da vida. Não precisamos nos cobrar e nem desejar que os filhos sejam sempre felizes. Como diz este vídeo do Porta dos Fundos, “Isso aqui é vida real, não é seriado do GNT.” Se amar se aprende amando, ser forte se aprende precisando ser forte. E o querer, meus amigos, não nasce dentro da gente. A criança precisa desenvolver. Quando a vida é apertar um botão, ou pedir e pronto: já está – sonho realizado! Ou quando brincar é só apertar botõezinhos e mesmo se você for um sonso, perde tudo e o jogo começa de novo, não estamos dando espaço para o “querer” nascer.

Não desejo que nossos filhos sejam os primeiros, não desejo que nossos filhos sejam os últimos. Só desejo que eles tenham oportunidades para desenvolver dentro deles, a força que precisam para conquistar o que quiserem e brigar pelo que acreditam. Como diz na bíblia “seja quente ou seja frio, só não seja morno que eu te vomito”.

Fiquei naquele colégio 6 anos. Passado os dois primeiros, me encontrei, fiz amigos que são pessoas que admiro muito até hoje, fiz uma apresentação de inglês cantando Vando e jogando flores (tirei nota 10 : ) e tive professores que com certeza marcaram a minha vida para sempre. Carrego meu livro do Drummond com as observações da professora de português até hoje. Ela me fez gostar de ler. Por tudo isso, sou muito grata por meus pais nunca terem feito minha vontade e me tirado de lá.

Por Cris Leão

18 pensamentos em “Os últimos serão os primeiros

  1. Texto irretocável. Me vi na sua narrativa, inclusive quanto a mochila da Company ! A única diferença era q ao invés de magrela eu
    era estrábica…

  2. Adorei o texto! Só quando vivenciamos as coisas é que percebemos a nossa capacidade para lidar com elas! Excelente!

  3. Muito bom. É isso que desejo também. Vejo crianças e adolescentes “de plástico” andando por aí e penso: não quero minhas 3 crianças nessa bolha! Mesmo a mais novinha, que é autista, o que mais quero é vê-la com autonomia suficiente para vencer as barreiras do preconceito explícito ou velado, ser ela mesma e ser feliz apesar das pedras que virão pelo caminho.

  4. Na Bíblia também está escrito: Ensina a criança no caminho em que deve andar e ainda quando for velho,não se desviará dele.Provérbios 22:6

  5. Concordo em partes, pois eu conheci pessoas com a história de vida muito parecida com a sua, e a pessoa se matou, pois não aguentou a pressão do ser diferente, eu acredito que essa força de vontade de ser alguém vem de dentro da pessoa, eu tenho uma prima hiper bem de vida e mesmo assim ele é a número um na sala de aula, aprendeu inglês sozinha e hj ela ja fez até intercâmbio sem nunca ter pisado em uma sala de cursinho de inglês, e minha tia sempre deu de tudo a ela…então quando a pessoa nasce com essa vontade de fazer as coisas acontecerem independe da forma a qual ela foi criada, pois hj existe vários moradores de comunidade ostentando o que não tem e pagando de rico no facebook, enquanto outros estão correndo atrás. ….mas como eu disse concordo em partes com o seu ponto de vista…. essa é somente a minha humilde opinião. ….

    • Oi Alex, obrigada pelo comentário. Como eu disse no fim do texto, não é sobre ter ou não ter, ser o primeiro ou ser o último. É sobre ter a oportunidade de desenvolver a força do querer. Tive alunos na faculdade em SP que tinham uma condição financeira invejável, mas que os pais sabiam impor regras, cobrar, tratá-los como pessoas responsáveis. E eles seguem em frente, com vontade. Enfrentando os problemas e vencendo. Na Antroposofia acredita-se que a força do querer não nasce com a pessoa. Ela se desenvolve a partir da infância. Os pais de hoje estão errando muito em aplaudir e super proteger os filhos o tempo todo. Como se eles não pudessem sofrer e como se já tivessem nascido vitoriosos e então dão para eles a certeza de que todos os sonhos serão realizados. Não é assim. Para os professores, por exemplo, está complicado ter alunos reclamando que a aula não está “divertida”, que não gostam da matéria porque o assunto é “chato”. E os pais quando são chamados a atenção para o comportamento dos filhos, acham que a escola está errada e o filho certo (sempre). Independente de tudo isso, o melhor da vida é se esforçar para conseguir. Não podemos tirar isso das crianças. Um grande abraço

  6. Cris, eu adorei esse texto e já senti exatamente isso – fui a magrela, a bigoduda, a quatro-olhos – enfim, um horror. Hoje, de fato, os populares estão com mais dificuldades do que eu – e já vi algum estudo que dizia isso mesmo, que os adolescentes populares tendem a ser os adultos fracassados. Eu sofri muito (MUITO) buillyng, ninguém chamava assim e isso me fez forte. Por outro lado, eu me pergunto se precisa mesmo ter tanta dor. Resisto aos pedidos das minhas filhas com facilidade, claro, em geral estou ok que ainda não fomos pra Disney e todo mundo foi, que elas não tem e nem terão as coisas da moda, etc. Mas, por exemplo, quando minha filha tem que usar o tampão de olho, e sofre de vergonha, eu sinto uma certa compaixão, quase quero chorar, e digo que ela pode usar só em casa – o oftalmo disse que poderia ser 3 horas por dia, e fechamos que as 3 horas serão em casa. Nunca sei se estou certa, talvez eu devesse força-la a usar na rua, na escola, ela tem que enfrentar isso, eu fui forte por ter passado essas vergonhas, mas, por outro lado, também tenho meus traumas e inseguranças pelas mesmas vergonhas. Já fui bem mais fria e dura com meus filhos por causa disso, e, depois, comecei a pensar que eu talvez não precisasse ter passado tudo isso. Talvez também seria forte sem sofrer essas risadinhas, esses cochichos, sem ter tido tanta vergonha de ser quem eu era. Enfim… Pra pensar né?

    • Oi Kika, estava ouvindo agora na rádio a palestra de um artista francês chamado Philippe Petit. Ele falou muitas coisas interessantes e dentre elas, ele disse que quando erramos, não devíamos pedir desculpas automaticamente. É como se fosse feio errar. Não. Erro é aprendizado. Acho que o mesmo se dá nas diferenças. Não devíamos ter vergonha de ser diferentes. Afinal de contas, quem é igual? E igual a quê? Usar o tampão em casa ou fora dela, acho que não importa. O importante é que as crianças se sintam bem em ser diferentes. Isso vai levá-las a algo muito maior e melhor do que a eterna busca de “ser igual”, seja lá o que isso signifique. Mas entendo seu ponto. E acho que a reflexão é grande sim. Beijo!

  7. Adorei o texto. Me encontrei nele… E também na angústia expressa em alguns comentários.
    A gente se sente vitorioso hoje por ter superado as mazelas da adolescência, mas quantas vezes não “odiamos” nossos pais por não entenderem como sofríamos?
    E, sabendo disso, será que eu quero que a minha filha sinta o mesmo por mim um dia? Não sei, sou nova no ramo da maternidade…
    Mas me parece que o bom senso deve imperar. No caso do tapa olho, acima, o médico disse que só precisa usar 3 horas? Beleza! Mas se tivesse que usar 8, não seria legal poupar a vergonha de agora e comprometer todo o futuro.
    Aprendi com nosso pediatra a sempre responder a pergunta de ouro: faz sentido para você… (Completar a frase com a ação e a possível consequência)? E, se fizer, tudo bem!

    • Boa dica, Luciana. Eu acho que o importante é aceitarmos que um “sofrimentozinho” agora pode fazer um bem danado ali na frente. Não precisamos com isso torcer, desejar ou aplaudir o sofrimento. Mas mais importante, reconhecer que o papel dos pais não é dar alegrias (o tempo todo!), é educar e preparar o ser humano que o filho vai ser no futuro. Aprender a lidar com frustações é um ótimo começo.

  8. Oi Cris, gostei muito do seu texto, a gente se identifica né…
    quanto as verdades bíblicas, elas são realmente sábias e acredito que precisamos urgentemente resgatar os valores pregados por Cristo, principalmente o amor ao próximo. Quando os dez mandamentos são respeitados, não há violência…

  9. Textos maravilhosos como sempre, Cris.

    uma das melhores coisas desse ano foi ter achado esse blog.

    Obrigada por compartilhar tanta maravilha, tanto conhecimento e desabafos com a gente.

    No fim, ainda há esperança.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s