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Algumas leitoras me escrevem pedindo informações sobre morar fora com crianças. Como sobreviver sem empregada, como sobreviver em uma cultura diferente, como funcionam as escolas – são as perguntas mais frequentes. Respondo todo mundo e sempre fico com a sensação de que falei só uma parte do todo. E que alguma coisa muito importante ficou de fora da jogada. Até que li este texto e chorei rios, lembrei que o mais difícil de morar fora com crianças é o contato de emergência.

Lembro quando chegamos aqui e meu filho já com 7 anos precisava ir logo para a escola. Fomos e então aparece aquela papelada para preencher com as informações que a escola precisa para a matrícula e lá me deparei pela primeira vez com as palavras CONTATO DE EMERGÊNCIA. Eu perguntei: (fazendo cara de sonsa) Pode ser meu marido? E ela respondeu: Não, seu marido entra em pais. Precisa ser uma terceira pessoa, alguém que possamos ligar caso aconteça alguma coisa. E nessa hora a caneta que eu segurava ficou grande, umas 10 vezes o meu tamanho. E eu segurando aquela coisa pesada respondi: Então, não tem. A mulher deve ter me olhado com a cara dela de sempre em uma segunda às 8h da manhã. Mas para mim, ela lançou um olhar de susto, tristeza e quase indignação por eu falar uma coisa dessas. E nessa hora, nem pude mais segurar a caneta. A vontade era voltar correndo pro lugar onde eu tinha um Contato de Emergência.

Mesmo não sendo de SP, como vivi lá 6 anos (5 deles com filhos) eu tinha meus contatos de emergência. Minha amiga Nelma, que eu conheci logo que cheguei na cidade era a pessoa que mais me socorria. Foi para ela que liguei uma vez quando tive um problema e não pude embarcar (de mudança) com o João bebê para NY. Eu super chateada, porque o erro foi meu e ela me acolheu super bem. Na mesma hora falou: (tipo 10h da noite num domigo) “vem aqui pra casa” e saiu da própria cama para eu ficar com o João até acertarmos os documentos. Lembro que quando a Maria Teresa nasceu, (4 dias depois da morte da minha sogra) foi ela que fez o almoço de recepção na minha casa. Lembro de ter pedido a ela para buscar o João na escola no período que a Maria Teresa ainda era muito bebê e nem sempre dava para eu ir andando com ela para buscá-lo. (eu não tinha carro) Sempre falei para ela “Não sei como te agradecer. Só saiba que nunca vou esquecer tudo que fez pela minha família.”

Então quando você muda com crianças, essa é sua maior perda. Mas com sorte, você vai conseguir superar. Esse ano já preenchi os tais papéis da escola de novo e quando deparei com as palavras CONTATO DE EMERGÊNCIA, escrevi sem pestanejar, ah, o Pinhal! Pinhal e Jéssica são nossos contatos de emergência aqui. (Já eram nossos amigos e se mudaram para cá 6 meses depois da gente) Quando acontece um imprevisto, ligamos para eles. Já liguei pra Jéssica pedindo para ela ficar com as crianças para eu ir em reunião de pais da escola (com meia hora de antecedência porque foi quando meu marido disse que não ia conseguir chegar em casa). Já pedimos a eles para virem alimentar o cachorro e o gato quando viajamos na semana da primavera. (Leve em consideração que nosso cachorro é o mais anti-social do mundo e nossa gata tem, digamos, uma intensa produção intestinal.) Foi na casa deles que passamos o Réveillon. Já tivemos umas 5 noites de folga onde as crianças vão na sexta para a casa deles e buscamos às 11h de sábado! Eu fico tão empolgada que até me estresso um pouco. Acho que é porque a situação é muito nova ainda para mim. Então fico querendo aproveitar para fazer tanta coisa que da última vez, tivemos que colocar o relógio para despertar às 7h no sábado porque se não, não daria tempo. A melhor parte é ver a carinha deles quando voltam. (ok, a segunda. A melhor é a minha carinha quando deixo eles e realizo que a noite é nossa!) Eles voltam alegres, cheios de histórias para contar. E na sinceridade e simplicidade da criança você percebe que eles ficam assim porque é assim que a vida tem que ser: coletiva, em comunidade. Como na expressão africana popularizada nos Estados Unidos quando Hillary Clinton foi a primeira dama “It takes a village to raise a child”. Para criar uma criança, é preciso uma vila inteira. Obrigada Pinhal e Jéssica, por serem os tios e os avós que meus filhos têm por perto. Olha a foto da Jéssica na apresentação da classe da minha filha no dia dos avós. S2

dia dos avós antes que eles crescam

Além deles já temos outros amigos muito queridos. Quando mudamos de casa, por exemplo, há 2 meses atrás, minha amiga da Romênia levou meus dois filhos para o zoológico e lá ficaram o dia todo. (posso mudar todo sábado?) Foi o suficiente para colocarmos as coisas minimamente em ordem. Provavelmente não estaria escrevendo numa mesa agora, se não fosse por eles. Como organizar e desfazer caixas com duas crianças empolgadas e um gato e um cachorro surtando? Também tenho amizade com outras mães da escola, tenho minha amiga Vanessa que conheci logo que cheguei aqui e é meu motor de arranque, sempre que preciso de um empurrãozinho pra subir alguma ladeira, é ela que me empurra com seu jeito carioca de ver a vida e temos outros amigos brasileiros, que já conhecíamos e se mudaram para cá e fazem nossa vida aqui parecer antiga. Dá para fazer churrasco e ter a casa cheia.

Por tudo isso que falei, esse é o meu desejo para você que vai mudar de país. Já que não pode ter a família por perto, que encontre a sua família lá. Porque se tiver isso, a faxina, a escola, as burocracias, tudo isso se ajeita.

Ps: Dica prática, saiba que na maioria dos países do mundo as pessoas se viram nos afazeres da casa. Sim, você pode pagar, mas é caro e algumas vezes os serviços são difíceis de se conseguir. Portanto se não quiser gastar 80 dólares em uma faxina (mal feita). Pagar 110 dólares para alguém pregar quadro na parede. Comece a aprender agora. Ok, não dá pra aprender tudo de uma vez só, mas comece a aprender. Cozinhar, fazer as unhas, fazer o cabelo ficar apresentável, qualquer coisa que for importante para você. E se tiver filhos grandinhos, coloque eles para aprender também. Isso vai facilitar muito a adaptação de vocês. E se não for mudar de país, essa dica também vale para você e seus filhos. Aprender a fazer essas coisas é ter independência e isso nunca fez mal a ninguém.

Ps 2: João ainda sente muito a falta dos amigos. Como é o caso da Iara (na foto acima clicada pela minha querida Estefi Machado) Mas da pessoa que me disse nos dias antes da mudança (completamente coberto de lágrimas) “Você e o papai estão arruinando a minha vida, me levando para longe da Iara e do Victor.” Hoje ele já tem o mesmo entusiasmo com os amigos Pinhal, Jéssica, Michael (filho da minha amiga Romena) e o Ben. (filho de uma espanhola que conhecemos logo que chegamos). Um dia desses, um amiguinho da classe que ele nunca gostou muito, chamou para ele ir brincar na casa dele. Brincaram muito e o João ficou muito feliz. Disse que tinha mais um amigo. E antes de dormir me falou, “mamãe, daqui a pouco o meu problema vai ser ter muitos amigos.”

Ps 3: Nada como um dia após o outro, também vale na mudança. E quando esses dias todos formam um ano, a coisa toda muda. ; )

Celebrando 1 ano e 3 meses de Miami. E mais uma vez com a certeza de que, o melhor da vida, são as pessoas que encontramos pelo caminho. Concorda?

Cris Leão

12 pensamentos em “Sobre morar fora e ter um contato de emergência

  1. Nossa Cris, tb chorei rios com o “contato de emergência”. Morei fora, em Portugal, por 9 anos. Nos mudamos qdo fiz 21, e lá, longe de toda família, e sem saber fazer uma simples sopinha, tive a minha filha. Sobrevivi a todas as dificuldades, longe de toda família, sem empregada, passadeira, cozinheira… Mas vivi momentos de muita alegria, fiz amizades incríveis e comi muitas cerejas… Ahaaa e tb vi neve pela 1ª vez, que foi um momento inesquecível.

    • Nem me fale das cerejas de Portugal… Também morei lá 4 anos. E esses momentos inesquecíveis ficam pra sempre, né? Espero que a sopinha hoje vc já tire de letra. ; )

  2. Concordo plenamente! Eu moro na Espanha há 10 anos, meu filho tem 3, eu não tenho família aqui, só o meu marido tem. E realmente ter amigos, queridos, de confiança, para o que der e vier, é o mais importante quando se mora fora, não só para ajudar com o filho, a casa, mas também e principalmente quando você precisa de um apoio moral e a sua família está do outro lado do oceano! E não, sogra não é a mesma coisa! 🙂 Nenhum homem é uma ilha, precisamos de ajuda sempre.

  3. Lindo texto amiga!! Me identifiquei demais! Nada como um dia após o outro não é mesmo?? Obrigada pelo carinho! E, por favor, coloque meu nome na lista de contatos de emergência da escola tb??? Bjsss

  4. Eu estou amando seu blog!!! Ainda não sou mãe, mas sinto na pele tudo que vc escreveu. Moro no Japão ha 3 anos e aqui não tenho essa rede de pessoas que você tem. Quem sabe um dia nessa caminhada, eu consiga também…
    Devorando todos os excelentes textos!

  5. Olá Cris, conheci o seu blog a pouco tempo e simplesmente estou adorando ler. Este post me fez lembrar de mim. Eu tbm passei vários perengues em SP com meus filhos pequenos, mas sempre tive ajuda dos anjos que Deus me enviava. Nao sei o que seria de mim tbm se nao tivesse estas amigas. Imagina uma pessoa com o filho internado e o marido te liga para avisar que esta no pronto Socorro e necessita que voce vai buscar os pertences dele em casa pq vai fazer uma cirurgia de urgencia. Meu chão se abrir, mas minhas amigas me ajudaram a cuidar de minha outra filha que tinha em casa com 4 anos. Graças a Deus saiu tudo bem.
    Hoje tbm moro fora no Canadá e graças a Deus, Ele tbm me enviou mais anjos aqui a qual sou muito grata. Bjs

  6. Ola Cris,
    Estou lendo seu texto e fico pensativa.
    Meu marido acaba de ser transferido para o Panama. Tenho um filho de 2 anos e muito medo na mala. Medo da saudade, medo de não dar conta, medo dele sentir. Nossa, estou perdida nesse momento.

    • Quando a vida te dá um limão… Nada de medo, Aline. Toda experiência pode ser positiva quando a gente encara com amor e coragem. No fim, é isso que a vida pede para nós o tempo todo. Boa sorte!

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