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E chegamos, finalmente, ao fleumático, o quarto e último post sobre os temperamentos. Para quem não leu os anteriores (sanguíneo, melancólico e colérico), eles são definidos, segundo a antroposofia, de acordo com que corpo que prevalece em cada pessoa. Nesse caso, é o corpo etérico, o responsável pela nossa vitalidade, pelos processos de crescimento e que se expressa pelo sistema glandular. Mais uma vez, vamos lembrar que é entre 7 e 14 anos que se intensifica e se define o temperamento de alguém, mas muitas vezes ele vai se mostrando mais claramente à medida que a criança se aproxima do final do primeiro setênio. E tem gente em que dá pra ver logo no jardim de infância.

Seu jeito e corpinho

O chamado bem-estar ou mal-estar tem tudo a ver com o corpo etérico, ele está ligado a nossa vida interior e mantém cada função de nosso organismo em equilíbrio. Por isso, quando o corpo etérico predomina, quando o organismo está em ordem, o indivíduo vive um bem-estar interior e não quer sair de dentro de si. É uma pessoa ensimesmada, sabe? É como se fosse tão bom ficar lá dentro que a vontade de fazer algo do lado de fora é menor do que em outros.

Vamos, como sempre, à descrição de Caroline von Heidebrand no livro A Natureza Anímica da Criança:

“Joãozinho está encarrapachado em sua carteira e olha apaticamente para a frente. Não obstante, não é de todo inativo, embora se desinteresse por completo das explicações do professor sobre os mistérios da tabuada. Está sonhando com o sanduíche que sua mãe, como ele não deixou de observar, cobriu com uma boa camada de manteiga e queijo, e com a bela maçã vermelha que ela lhe pôs na lancheira. João fixa durante um instante o professor com seu olhar sonolento e vê que este lhe vira as costas para escrever algo na louza. Então abre com seus dedos gordos o papel do sanduíche.

(…)Em casa, João leva uma vida pacata. Sua educação não teve problema algum. Horas a fio, ficava tranquilo no carrinho, segurando na boca a chupeta (imprescindível para a paz de sua alma) e abandonado ao seu torpor, quando não acompanhava com o olhar os movimentos lentos de suas mãozinhas gordas, que durante muito tempo eram seu único ‘brinquedo’. Só a visão da comida conseguia tirá-lo da apatia.  (…) Não adoece frequentemente e, para alegria sua de sua mamãe, ele digere os sanduíches mais pesados, as omeletes mais gordurosas, o pudim mais denso. Aprendeu a andar bastante tarde.”

É, o fleumático é mais lento que a média. Sua fantasia não é das mais fortes, demora para andar, tem preguiça de engatinhar e prefere ficar na mamadeira até mais tarde do que as outras crianças. O que for mais fácil! Ele levou um bom tempo para aprender a falar e, até hoje, pronuncia as palavras devagar. E de vez em quando senta-se ao sol (ele ama calor, inclusive calor humano) com as perninhas dobradas, curtindo o calor e cantarolando – ele tem sua própria musicalidade.

Uma das melhores coisas  desse temperamento, pelo menos pra mim, é seu senso de ordem. Ele é aquele coleguinha do seu filho (ou o seu próprio, com sorte), que arruma a roupinha na cadeira antes de dormir e gosta que todos os seus brinquedos estejam no lugar. Se vai dormir na casa de alguém e não encontra seu travesseirinho, pode dar um piti daqueles. Nessa hora, ele vira um perfeito colérico. Tudo porque saiu do seu ritmo e da sua ordem, tão necessários para seu bem-estar. Suas refeições têm que ser servidas todos os dias na mesma hora (e ele nem precisa do relógio para isso). Dorme fácil e profundamente e sabe a hora de ir pra cama. Por isso mesmo, nele você pode confiar. Ele sabe a hora de dar comida ao cachorro e, uma vez que assimilou um hábito, vai repetí-lo pontualmente. Decora facilmente histórias e cantigas e canta direitinho, sem errar. Mas bem devagarzinho.

O fleumático é, normalmente, mais gordinho, mais cheio, mais inchadinho. Segundo Steiner, é nessa “abundância” que as forças formativas, aquelas que nos mantêm vivos, atuam. É como se a troca entre dentro e fora estivesse em déficit (pra fora, claro). Seu andar é arrastado, desleixado, seu rosto tem pouca expressão, o olhar um pouco apagado. Talvez por isso não tem muitos amigos. É possível que as crianças, principalmente as sanguíneas, tenham pouca paciência para sua fleuma.

Paciência, aliás, é uma qualidade importante para lidar com esse pequeno. Não o mesmo tipo de paciência que se precisa ter com um colérico, mas aquela tranquilidade de quem sabe esperar. Um bom professor para o fleumático precisa saber esperar seu tempo, que é diferente dos outros. Mas, calma, ele chega lá. Ele gosta de praticar e, se tiver espaço para isso, não será mau aluno. As funções vegetativas em seu corpo funcionam perfeitamente e por conta disso tem uma boa memória e dons musicais e de pintura. Talvez seja um pouco mais difícil quando chegar ao ensino médio, em que se exija respostas mais intelectuais e o raciocínio tem que ser mais rápido. Se muito entregue ao seu temperamento, o fleumático vai ser aquele cara meio bobão. Mas os pais e professores podem fazer muita coisa para que se evite esse desequilíbrio. E não é difícil.

Como cuidar dele

O temperamento fleumático pode enfrentar preconceitos e alguns pais não gostam quando seus filhos são definidos como tal. Bobagem. Sua lentidão não é necessariamente um problema. O melancólico, que muitas vezes é um prodígio na escola, pode ser egoísta, depressivo e inibido. Tão ruim, portanto, quanto a inércia e a gula do fleumático. Nada de preconceitos com esse comilão e meio preguiçoso! É só o jeitinho dele…rs.

Se o fleumático for compreendido e “bem-educado” em casa e na escola, será paciente, persistente, ordeiro e fiel. E, pela própria falta de ânimo, vai passar numa boa pelas tempestades da vida. Para essa boa educação, o ideal é não deixá-lo se entregar totalmente a esse bem-estar interno. Não o deixar dormir demasiadamente, dar uma duchinha fria ao final do banho morno e evitar que ele passe horas comendo à mesa. Seu café da manhã, antes da escola, deve ser leve. Caso contrário, ele vai se “concentrar” na sua deliciosa digestão em vez de prestar atenção nas aulas. Em vez das comidas pesadas que ele adora, dê frutas, verduras e saladas. Alimentos integrais em vez de farinha branca também farão bem. É uma boa fazer de tudo para evitar que essa criança acumule a gordura que seu temperamento tanto deseja. “Mantendo-a relativamente magra já teremos feito muito para o seu desenvolvimento espiritual e psíquico”, diz Caroline no livro.

Brincar sozinha o tempo todo, algo que uma criança fleumática faz de boa vontade, não é o melhor e vale a pena interferir para acelerá-la com jogos animados que despertem sua vida psíquica. Ela precisa da companhia de outras crianças mais do que qualquer outro temperamento. Como nada desperta seu interesse, ela vai acabar sendo educada pelos interesses dos outros. Logo, quanto mais crianças, melhor. Amizade e relacionamento com o maior número de pessoas vai fazer muito bem para seu pequeno bicho preguiça. Se ele cochilar durante a lição de casa ou no sofá depois do almoço, é bom acordá-lo com um barulho forte ou uma batida na mesa (algo que nunca se deve fazer com o melancólico) pois isso o fará voltar a si. Mas, também, como em todos os outros temperamentos, é essencial encontrar algumas situações em que sua fleuma se justifique, em que ele possa ser ele mesmo sem objecões e que isso faça sentido. Ver a chuva cair (e ficar pensando que ela vai molhar em algum momento), é um alívio e dá pra ser fleumático nessa hora sem problemas. Olhar as ondas do mar ir e vir, passar o pincel em uma tela lentamente é coisa pra fleumático. Alguém tem que fazer, que seja ele.

Carinhos ininterruptos e afeto gratuito não são o melhor para essa criança. Ela precisa de um estímulo para “sair de si” e vencer sua inércia. Suas emoções são mais ou menos como uma lesminha que precisa de impulso para sair do caramujo e, com algum esforço, ganhar corpo e musculatura. Quando ela sentir esse impulso e aprender a amar, o que só ocorre houver a necessidade de ir até alguém, por isso não devemos lhe dar carinho indiscriminadamente, mas fingir uma certa distância às vezes, será o amor mais equilibrado e fiel que existe. Não é atirado e maluco como o sanguíneo, nem exagerado como o melancólico e muito menos agressivo como o colérico. É aquele amor tranquilo da música do Cazuza, imagino.

Essa criança costuma ter uma veia artística logo cedo, mas que pode ir embora facilmente quando chega a consciência, lá pelos 8 ou 9 anos. Quando isso começar a acontecer, não deixe mais com que ela faça apenas rabiscos coloridos ou manchas de tinta no papel. Para desenvolver seus talentos, vai precisar produzir conscientemente e ser conduzido, até um pouco exigido, assim que encontrar algo que realmente lhe desperte o interesse. O fleumático, mais do que qualquer outro temperamento, precisa de mais um tanto exigentes ou que o guiem quando chega a uma certa idade. Pacientes, mas que exijam uma certa dedicação e não o deixem viver metade da vida dormindo.

Alimentação

Já falamos que esse temperamento é o melhor garfo de todos e tem uma grande tendência a engordar. Faz parte do funcionamento de seu organismo. Mas não é por isso que ele pode comer pizza no café da manhã, pelo contrário. A cada vez que ele fizer a digestão, vai ficar mais sonolento do que todos e não se concentra em mais nada. Alimentos leves, sem sair do ritmo e de preferência que venham de plantas que não levem muito tempo para crescer, vão fazer bem ao fleumático.

 

Por Fabi Corrêa

4 pensamentos em “Os Temperamentos IV – O Fleumático

  1. Pingback: A criança fleumática | Biblioteca Virtual da Antroposofia

  2. Muito boa matéria. Me identifico como fleumático (alias, já fiz muitos testes com meu professor, no qual resultaram o temperamento). Estou tentando buscar o máximo de informações sobres os temperamentos, tais como: comportamento; tipo de rosto; biotipo; emoções, etc. Essa matéria me ajudou muito, porém só não concordo com o fato de o fleumático ter a tendencia a ser “gordinho”. Já fiz curso sobre biotipologia, estudo com professores de psicologia junguiana, na qual dizem que por eles comerem mais lento em relação aos outros temperamentos eles são os que se saceiam mais rápido, pelo fato de suas demoradas mastigadas, o que aciona um sistema hormonal que avisa ao estomago que já esta na hora de parar de produzir os hormônios responsável pela sensação de fome. Os Fleumáticos alimentam-se de forma calma e deliberada e normalmente são aqueles que terminam a sua refeição em último lugar, sendo esta a principal razão pela qual raramente ganham peso (são necessários cerca de 20 minutos para que o organismo sacie a fome). – (http://educamais.com/temperamento-e-habitos-alimentares/)

    Mas é só uma observação. Ainda sou muito leigo no assunto, e como eu disse, estou tentando buscar o máximo de informações sobres os temperamentos. Se poder tirar minha duvidasobre isso eu agradeço.

  3. Muito bom. excelente. Existe algum teste para aplicação com crianças, assim como para os adultos?

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