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Outro dia fiquei pensando, nunca contei aqui nenhum episódio vivido na escola dos meus filhos. Alguma coisa que justifique porque escolher uma escola no subúrbio, uma escola pequena, uma escola particular em uma cidade com boas escolas públicas, uma escola onde não se pode ver televisão e nem comentar sobre filmes. Pois quero contar um pouquinho do que é essa escola.

Talvez você conheça, já tenha ouvido falar ou possa imaginar como é Miami. O que talvez não saiba é que aqui – na escola:

–       Existem pessoas que criam galinhas no quintal do bairro nobre de Coral Gables só para que as crianças possam comer ovos sem hormônios.

–       Existem pais que acham tempo na sua rotina corrida para promover (do próprio bolso e esforço) café da manhã com delícias feitas em casa (naturais, sem glúten) só para ter um tempo para conversar com os outros pais da escola.

–       As pessoas fazem festa de aniversário em parques ou em casa, sem exceção. (e sem refrigerante ou sucos industrializados)

–       No Halloween não existe nenhum só personagem da Disney, todas as fantasias são lindamente feitas em casa ou com tecidos de verdade, nada de plástico, nada de marcas. Tudo muito rico de imaginação.

–       As crianças levam alimentos de casa e isso não inclue doces, bolachas ou sucos industrializados. Elas bebem água.

–       As crianças parecem crianças, se sujam, correm e sobem em árvore. Conseguem passar uma tarde inteira em um parque sem brinquedos, só brincando.

–       Crianças de 12 anos ainda são crianças. Nada de salto alto ou mini adultos.

–       Pais não tratam os filhos como um plano de previdência para o futuro. Ou seja, os pais não estão preocupados com a carreira dos filhos enquanto eles são crianças.

–       Pais investem o dinheiro que têm colocando os filhos nessa escola só para que a infância deles seja preservada;

Em uma cidade (Miami) onde é comum crianças menores de 6 anos indo ao cinema ver filmes como Homem de Ferro, festas de crianças em spa com direito a passeio de limousine com as amigas todas maquiadas – as amigas de 6 anos. Cidade onde é comum você ver uma criança de 5 anos e uma mãe de 46 anos vestidas do mesmo jeito – como se fossem adolescentes. Tudo isso aí em cima tem um valor muito grande. E só acontece porque essas pessoas estão muito dispostas e por isso nadam contra a corrente.

Contando um episódio que vivi dentro de sala de aula, foi aniversário da Maria Teresa. Quando entrei na sala, as crianças estavam todas sentadas nas cadeiras divididas em duas filas formando um corredor no meio. Nesse corredor, uma seda extendida onde estava pintado um arco-iris. Maria Teresa sentou comigo na ponta desse arco íris. No extremo oposto, sentou a professora. Ela começou a falar a história da vida da Maria Teresa (que eu tinha dado a ela, mas ela contava lendo de um livro). As crianças estavam todas em silêncio e ao mesmo tempo completamente envolvidas com o que ouviam. Maria Teresa estava encantada. A professora falava tudo com muita doçura e calma. A cada ano da vida dela que passava, a professora ascendia uma vela até chegar a cinco. Ao fim da história, Maria Teresa andou pelo arco iris e recebeu uma coroa da professora. (De feltro com detalhes bordados à mão) Depois seguimos para a sala de refeições onde sentamos todos nas cadeiras. Nesse momento, recebemos cada um, um cupcake feito no dia anterior pela professora. Ela perguntou se alguém tinha algum desejo a fazer à Maria Teresa.

–       Quero que nessa noite a cama dela se transforme em um avião e ela possa ir até a casa da Ariana (a melhor amiga) para elas brincarem a noite inteira.

–       Quero que ela tenha sempre muito bichinhos de estimação. (porque na história dela, o amor pelos bichinhos era frequente)

–       Quero que um arco íris traga para ela um monte de desejos.

Imagina isso vindo de crianças com 5 anos de idade. Essas são só 3 frases, foram muitas e no meio de excitação que eles anunciavam os seus desejos, eu só podia ouvir uma coisa: pureza. Sai de lá com o coração cheio.

Apesar desse episódio e de tantos outros. E de tantos trabalhos lindos das crianças, nunca tentei convencer ninguém a ir para uma escola Waldorf. O blog surgiu da necessidade de dividir sim, muitos aprendizados ricos dessa pedagogia. O João entrou aos 4 anos. (Estamos quase completando 5 anos de escola Waldorf.) Olha as belezuras que já encontrei na sala de aula aqui:

arvore antes que eles crescam

caderno antes que eles crescam

lousa antes que eles crescam

lousa antes que eles crescam

lousa antes que eles crescam

lousa antes que eles crescam

Mas sempre que alguém me pergunta se essas escolas são um paraíso, eu digo que o meu testemunho é de que não, elas não são. Não vou comentar das 2 escolas que passei em São Paulo. Trago ótimas e assim não tão boas lembranças de cada uma delas. Mas vou falar sobre um episódio vivido na minha atual escola, em Miami. Um desabafo para ajudar você a encontrar a sua verdade.

Há uma semana atrás fomos convidados para uma festa de aniversário. Minha filha foi muito saltitante encontrar seus amigos na festinha. Chegando lá, uma festinha típica de crianças Waldorf: feita no quintal, todo mundo à vontade sentado na grama, comida natural (frutas e várias saladas), suco natural e água para beber. Tudo lindo, feito com muito capricho. A aniversariante vem nos receber e a primeira frase que diz para a minha filha é: “A Ariana (melhor amiga da minha filha) não foi convidada. Minha mãe falou que não conhece a mãe dela e que nem quer conhecer.”

Minha filha é uma criança doce, que acredita na bondade das pessoas. E é por isso que eu gosto que ela fique em uma escola que valoriza as qualidades do coração e não só as qualidades do intelecto. Mas mesmo lá, mesmo a mãe que cria galinhas no terreiro em uma cidade que valoriza o luxo e o superficial como Miami. Mesmo com tudo isso, uma mãe consegue não convidar duas crianças (também o melhor amigo menino da Maria Teresa não foi convidado) em uma turma de 10 alunos. (o ano letivo aqui está acabando só para deixar bem claro o cenário) Minha filha ficou completamente decepcionada. Ficou sem graça, ficou triste. Ela sabia que a amiga estava louca para ir nessa festa. E estava contando que ia receber o convite.

Talvez você esteja lendo isso e pensando “nossa, mas isso é tão comum, acontece sempre”. Eu sei. Já aconteceu nas outras escolas Waldorf que passei em São Paulo também. Mas isso foi um começo de vários acontecimentos que surgiram na semana seguinte (mas você não precisa saber de tudo) um exemplo é suficiente para dizer (e de novo aqui no blog) não julgue pela capa. Por trás do discurso de uma escola Waldorf ou de um pai Waldorf pode existir apenas o ego de querer ser “superior” ser “melhor” e isso, meu caro, eu tenho nojo.

Não estou dizendo aqui que vou sair da escola amanhã (apesar de ter pensado muito seriamente nisso). O que quero dizer, e é uma mensagem muito positiva, é que precisamos procurar a verdade dentro da gente. E como disse uma vez o pediatra das crianças de São Paulo (de quem sinto muita falta), Dr Cesar Deveza – homeopata ayurveda – quando eu falava com ele que estava muito difícil sair de Alto de Pinheiros para ir para Vila Olímpia (uns 40 minutos – com sorte – por trajeto) para levar meus filhos na escola e ele me disse: “Pra quê você se preocupa tanto com a escola? A educação quem dá são os pais. Principalmente a educação moral e espiritual. Eu tenho 4 filhos, (o mais novo com 12 anos na época) toda sexta feira à noite temos nossa rotina espiritual (fazem yoga e meditação), alimentamos bem, temos regras, temos valores e isso eles não precisaram aprender na escola.” Eu não vou tatuar essa fala no meu braço, porque eu não vou conseguir esquecer mais.

E depois de passar os últimos dias questionando, pesquisando outras escolas, conversando com algumas mães, me queimando por dentro (só entende quem esforçou tempo e dinheiro acreditando em alguma coisa e depois viu isso ser partido), acordei hoje, e depois de ler o trecho abaixo, do livro Awakening to Your Life´s Purpose, entendi de uma vez por todas. Ele cita uma frase do Budismo “dedos apontados para a lua não é a lua”. Fazer discurso, decoração, é fácil. Mas e a prática e o dia a dia? E mais importante do que isso – e dentro de você?

E ele finaliza o raciocínio sobre a “verdade” com o pensamento de Santo Agostinho:

Ame e faça o que quiser. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.

Essa vai ser minha resposta agora, quando alguém me perguntar sobre escola.

E não, não vou sair da escola. Vou é procurar fazer com que cada dia mais, o que eu acredito e está na pedagogia Waldorf e na Antroposofia estejam cada vez mais, dentro de mim e da minha casa. Para que eu não precise encontrar a verdade em lugar nenhum.

Ps: Este livro que citei é mais uma das preciosidades que minha terapeuta artística antroposófica colocou na minha vida. (Você é o meu anjo, Ceci Staubli) E hoje tive a agradável surpresa de saber que existe também a versão em português e o pdf aqui. Recomendo fortemente.

Não entendeu? Ficou com dúvida? Ficou cheio de certeza? Leia o adendo deste texto.

Cris Leão

93 pensamentos em “A verdade de uma escola Waldorf

  1. O meu relato refere-se a minha vivência com meus sobrinhos, desde pequenos até agora, época do vestibular.
    Eu não conhecia o método, passei a conhecer através dos meus cunhados, que optaram por uma escola Waldorf muito famosa da capital.
    Eu não concordava com o método, pois via filhos dos meus amigos evoluindo no aprendizado tradicional, o que não ocorria com meus sobrinhos. Eu presenciava meus cunhados empenhados com as atividades artísticas e festividades da escola Waldorf e eu sempre perguntava porque aquela opção e eles se confundiam nas respostas.
    Pois bem, veio a época do vestibular, da realidade. E ela, infelizmente mostra que meus sobrinhos são praticamente semi-analfabetos, se comparados aos seus colegas de cursinho. Não sabem escrever uma frase sem muitos erros de português e não saber ler muito bem.
    Eu que vivenciei isso observando de fora, concluí que a opção dos pais causou um problema imenso para os dois. Estão num cursinho que tem 18 salas divididas por desempenho intelectual e estão na última claro, a 18º. Ambos querem fazer medicina e me pergunto: quando eles terão a mínima condição de concorrer com os vestibulandos que cursaram o método tradicional???
    As namoradas dos dois, também oriundas da Waldorf, vivem a mesma realidade, uma quer cursar medicina e a outra decidiu ser atriz. Sem qualquer aptidão, na minha opinião.
    A opção pelo método de ensino precisa avaliar todo o futuro do seu filho. Infelizmente, a sociedade e o sistema de admissão nas faculdades não perdoa quem optou pela filosofia Waldorf. Será que isso é realmente o melhor para o seu filho? Eu espero que sim.

    • Acho a walforf imbativel na primeira infância (até os 7 anos). Depois, depende mto do professor e nao deixaria no High school.

  2. Sempre pensei errado achando estar certa, pensava: quando tiver um filho, vou dar a ele livros para ler, brinquedos apenas que incentive sua mente a exercitar. Me achei tão egoísta ao ler sobre as escolas Waldorf, em não respeitar o espaço de um filho quando criança e de como isso é importante para o próprio
    incentivo de sua mente e de seu potencial. Muito bom! Parabéns pelo Blog!

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