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antesqueelescrescamUma pesquisa mostrou que, entre mulheres de 14 países, as profissionais brasileiras são as que menos retornam da licença-maternidade. O levantamento foi feito pela consultoria de RH Robert Half no ano passado e concluiu que as empresas brasileiras são as que mais vêem suas profissionais irem embora de vez após a licença-maternidade entre os locais pesquisados.

Entre 100 diretores de RH entrevistados, nenhum disse que existem chances altas (acima de 75%) de uma mulher voltar ao seu posto depois que teve filho.

Em 85% das empresas pesquisadas no Brasil, só metade das mulheres retorna da licença-maternidade.

E por quê será? Toda semana recebemos mensagens no blog de mulheres que se veem nesse dilema, divididas entre ter que sustentar a casa e voltar ao trabalho que gostam, ver os colegas e produzir, ou cuidar dos filhos. Infelizmente, o Brasil não é um bom país para mães que precisam trabalhar. Ou melhor, para as mães que querem trabalhar sem deixar de ter tempo para ver seus filhos crescerem, para acompanhar o dever de casa ou as festinhas na escola, sem deixar de colocar o filho na cama duas ou três vezes por semana, sem buscar no jardim de infância.

Os mesmos diretores de RH que reclamam não conseguirem “reter talentos” por conta da maternidade, não criaram condições até hoje para que as mulheres possam ser profissionais e mães dedicadas ao mesmo tempo. Empregos de meio período, em que duas mulheres dividem o mesmo cargo, ganhando menos, ok, mas ainda assim trabalhando, não seriam uma saída? Eles existem na Inglaterra. Mais home office, mas que o fato de você trabalhar em casa não signifique que você precisa ficar disponível 18h diárias no celular ou email. Seria uma boa. Licença-maternidade estendida, não em um mês, mas até um ano. Ou mais. Ou licença para o pai. Se os dois pudessem trabalhar meio período, não precisariam tão cedo pagar um maternal, ou babá e a coisa não ficaria toda nas costas das mulheres, como acontece hoje. Por que não? A Procter & Gamble fazia isso (licença maior para a mãe, emprego meio período e licença para o pai), não sei se ainda faz. Não é essencial esse período de dedicação para formarmos seres humanos mais preparados para a vida, para o mundo, paras as relações e, mais adiante, para o trabalho? Então porque as empresas investem um dinheirão na redução da pegada de carbono (que é importante, claro), mas não separam uma pequena parte de sua verba para investir na educação de um ser humano? Ou seja, não criam espaços para que mães, pais e filhos desenvolvam seus laços com mais segurança e menos sofrimento?

Eu conheço várias mães que, ao voltar ao trabalho após a licença, fizeram acordos com seus chefes, alguns deles sendo mulheres com filhos, para sair mais cedo durante o período de amamentação, pelo menos, ou para ter horários mais flexíveis. Mas, na prática, acabavam saindo mais tarde ou levando um monte de trabalho pra casa. O fato é que, quando tem que bater as metas, todos os chefes esquecem que existe um bebê em casa precisando de apoio, de afeto, de leite, de atenção. E a mãe, ao colocar isso na balança, sabem que só tem um trabalho na vida em que ela é insubstituível. E não é o que está na sua carteira de trabalho. Seria lindo se não precisássemos optar, se tivéssemos maneiras, que existem, de conciliar.

Como é que se sai de casa tranquila deixando um bebê de 4 meses, QUATRO MESES, gente, com uma babá  ou numa creche? Ou, com muita sorte, com sua mãe, quando ela está disponível para cuidar dele? Você, que é empresário, diretor de RH ou presidente da empresa, já se perguntou com que espírito uma mãe deixa um recém-nascido, que depende totalmente dela pra sobreviver, em casa o dia todo, nas mãos de outra pessoa? Já se perguntou como ela se sente ao fazer contas, relatórios ou reuniões para vender mais carros ou sabão em pó enquanto tem alguém em casa fazendo um trabalho que deveria ser desempenhado, principalmente, por ela, que agora passa 10h dentro de um escritório, correndo atrás de lucros para sua empresa? Já se perguntou como é que essa mulher consegue trabalhar feliz, que é o humor que se espera nas companhias hoje em dia, mesmo que o trabalho seja vender carro ou sabão em pó? Ou como ela pode “colaborar”? (Já que as empresas agora resolveram chamar seus funcionários ou empregados de “colaboradores”, o que é bem bizarro, pois ninguém está lá o dia inteiro 5 dias por semana por livre e espontânea vontade, mas por contrato, por mais que goste do emprego). Como a mulher vai fazer tudo isso com um sorriso no rosto se está separada do que é mais importante na vida naquele momento essencial?

“A sociedade deveria reconhecer a gestação, o parto e a amamentação como um trabalho da mulher para a sociedade”, diz o pediatra Marcos Renato de Carvalho, do site aleitamento.com, no documentário Com Licença (que você pode contribuir para financiar aqui). Ou, como diz o filósofo Mario Sergio Cortella, palestrante que as empresas amam contratar para dar treinamentos, mas pelo jeito não conseguem botar na prática seus ensinamentos: “Esse não é um problema de quem tem filhos e nem um problema do prefeito, é um problema nosso, mas a lógica é cada um por si e Deus por todos. Tem que ter uma reserva do orçamento coletivo em uma sociedade que não quer descuidar. Quando se cria bloqueios para que se tenha uma maternidade completa, todos perdemos. Não existe nenhuma vantagem em descuidar do cuidador”. Viu, RHs, quem tá dizendo isso é o Cortella amado de vocês, não sou eu.

E, claro, estamos falando basicamente da classe média. Mas tem uma situação pior de mães profissionais, ainda mais triste do que essa: a das mães que precisam trabalhar para sustentar seus lares e não podem, porque o governo não garante o direito a um cuidado decente para suas crianças. Cerca de 40% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, mas só na cidade de São Paulo faltam mais de 170 mil vagas em creches. Tenho uma amiga na Austrália que é mãe solteira: ela recebeu ajuda financeira decente do governo para ficar com o filho até ele fazer sete anos sem ter que trabalhar o dia todo.

É isso, quem quer trabalhar e cuidar do filho ao mesmo tempo não encontra um jeito porque as empresas/sociedade/governo não criaram mecanismos para isso. E quem precisa trabalhar para sustentar o filho também não consegue porque o governo, assim como as empresas/sociedade não apóiam a maternidade. Nem a maternidade de classe média, nem a maternidade das favelas, nenhuma maternidade é vista como um papel essencial na sociedade brasileira.

Tudo bem, dá pra levar assim. Só não dá pra reclamar do aumento nos índices de depressão, violência, doenças, stress e tudo o que vem com essa falta de cuidados generalizada.

Por Fabi Corrêa

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7 pensamentos em “Conciliar maternidade e trabalho é lindo, mas como?

  1. É por compartilhar do mesmo pensamento e do mesmo sentimento que eu simplesmente amo seu blog. Quando as empresas/sociedade/governo vão mudar? É muito triste ter a sensação de que estamos muito longe de uma mudança nesse país e que muito provavelmente minha filha que hoje tem apenas 1 ano vai enfrentar os mesmos dilemas que nós todas vivemos….

  2. Ah, Fabi, concordo com tudo o que você disse. Nunca imaginei que seria tão difícil tentar conciliar trabalho e maternidade… Minha filhota foi com 5 meses para um berçário…Estudou em escola integral até os 4 anos… Agora, com 6 anos, estuda no período da tarde e eu estou em casa, com ela, na parte da manhã. Sou jornalista, sempre trabalhei muito, mas sinto que, cada vez mais, ela precisa muito de mim. E eu também preciso dessa interação com ela. Gosto de fazer as tarefas de casa, levar pra natação, ter tempo pra brincar, conversar…Não quero terceirizar isso! Aliás, com todo o respeito às cuidadoras e babás, não acho que ninguém esteja realmente capacitada para fazer esse papel com a minha filha: o papel de mãe é meu! Resultado: fico frustrada, pois aparecem várias oportunidades de trabalho na minha área, mas não posso aceitar…Período integral, 10, 12 horas fora de casa, viagens…não quero isso mais! Tenho a sorte de ter um marido trabalhando, pais que nos ajudam financeiramente, mas não é só pelo dinheiro,( que faz falta sim, claro!) que preciso voltar a trabalhar! É a vontade de me sentir útil, de novo, na profissão que escolhi e exerci por tantos e tantos anos…Acho triste ser forçada a fazer uma opção, mas vou me virando aqui com um freela, umas aulas, umas palestras…Parabéns, mais uma vez, pelo blog maravilhoso!!!!

    • Oi Raquel, também sou jornalista. Mas quando eu passei a ficar em casa com meu filho, já aos 7 anos, percebi que nunca havia sido tão útil na vida. O que pode ser mais útil ao mundo do que se dedicar à educação de uma criança? Depois, passa tão rápido a infância… E o bom é que podemos fazer frilas, consultorias etc. Obrigada e um beijo!

  3. Oi Fabi! Como me identifico com seu texto! Meu filho tem 1 ano e 1 mês e eu tomei a decisão de sair do meu emprego para cuidar dele. Não porque eu não gostasse do que fazia, muito pelo contrário, gostava do trabalho, da empresa, das pessoas, do meu chefe… mas não vi saída. Não consegui deixar um bebê de 4 meses, que ainda mamava, que queria colo pra dormir, com outra pessoa. Creche então… nem pensar. Hoje penso em voltar, mas como? Como deixar deixar um bebê (pois ainda o considero assim) por 10 horas ou mais separado de mim, sendo que até hoje estamos juntos 24 horas por dia. E eu sei que a empresa que me contratará não vai levar em conta que meu filho hoje precisa de mim porque está com febre, que amanhã quer meu colo porque está insegura… Enfim, juro que não vejo muita saída, mesmo querendo muito as duas coisas (trabalhar e cuidar BEM do meu filho)

  4. Oi Fabi,

    Gostei tanto do seu post que compartilhei na minha página do facebook! 🙂 Também acho que a maternidade está muito desvalorizada em nossa sociedade e é provavelmente por isso que tantas mulheres estão optando por não ter filhos, ou adiando esse momento o máximo possível. Há dois posts no meu blog sobre este assunto que eu gostaria de compartilhar com você:

    http://maternidadeproativa.blogspot.ca/2012/12/meu-bebe-nasceu-e-logo-termina-minha.html

    http://www.maternidadeproativa.blogspot.com.br/2012/07/inverno-demografico-e-desvalorizacao-da_14.html

    Espero que goste!

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