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Quando escrevi o post O que ganhamos quando a televisão saiu de cena, contei meu relato pessoal. Minha experiência com as crianças. Mas depois senti que era importante ter uma conversa mais profunda com o professor do João e dividir com vocês quais são os motivos, dentro da Antroposofia, para proibirem tecnologia para as crianças na escola Waldorf em Miami. O resultado é a conversa que segue abaixo. Feita no sofá da minha casa com participação ativa do Pipoca (meu cachorro que você vê na foto).

Cris Leão: Gostaria que explicasse um pouco mais sobre os efeitos da tecnologia nas crianças:

Professor: Acredito que existe bastante informação sobre isso disponível, mas penso que devemos tomar cuidado com as informações que coletamos. Você pode encontrar estudos científicos que provam uma coisa e depois estudos científicos podem provar diferente. Então acho que cada um tem que olhar para a sua criança e fazer a decisão do que é melhor para ela. Mas como professor. E como professor Waldorf, que tenta desenvolver a imaginação das crianças, eu tenho percebido algumas coisas. Por exemplo, as crianças que assistem muita televisão ficam com as imagens na cabeça e sempre que fazem um exercício de desenho, eles tentam desenhar aquelas imagens que viram na tv. É difícil para o professor estimular a imaginação assim. E também é difícil aprender a desenhar assim. E em uma escola Waldorf, damos para eles uma imagem através de uma história que contamos e queremos que essa imagem se desenvolva de uma maneira artística, desenvolvendo a imaginação deles.

Para crianças pequenas, o problema é que elas precisam viver experiências de verdade. Quanto mais nova é a criança, mais as suas sensações e impressões são importantes e afetam sua formação. Por isso, mesmo uma coisa pequena, pode ter um grande impacto. Quando têm em torno de 1 a 2 anos, as suas experiências estão realmente formando quem eles são e como se relacionam com o mundo. E com uma criança olhando para uma tela, a experiência não é real como deveria ser. Especialmente vídeos games. A criança está ali mas não está fazendo nada. E ela precisa fazer. Elas precisam experimentar o mundo. É assim que vão se desenvolver de forma saudável.

Então quer dizer que os pais que estão com seus filhos jogando vídeo game e pensando que estão passando um tempo com os filhos, na verdade não estão fazendo nada? Isso não é real?

Professor: Não, é real. Um pouco. Na antroposofia e pedagogia Waldorf, temos a ideia de que a consciência – a psique dos humanos – pode fazer 3 coisas: pensar, sentir e fazer. Mas essas 3 coisas não estão separadas, elas vivem juntas. Então ainda que jogando vídeo game você esteja fazendo alguma coisa, é na maior parte do tempo, o pensar. Vamos pegar como exemplo a mão, você provavelmente usa essa parte da mão (palma) para realmente fazer alguma coisa. Ou agarrar alguma coisa. Mas quando você está fazendo alguma coisa que envolve só o seu pensar, normalmente você usa a ponta dos dedos. E os olhos, que estão posicionados próximos do seu cérebro. Todas essas 3 coisas, ponta dos dedos, olhos e cérebro estão profundamente envolvidas no pensar. Então mesmo que a pessoa jogando um vídeo game possa sentir que está fazendo alguma coisa, a maior parte do tempo é só a cabeça que está ativa. Então é comum ver crianças que cresceram jogando vídeo games – frequentemente – são crianças que ficam frustadas mais facilmente quando elas precisam ir no mundo físico e fazer algum trabalho.

Existe muitos programas educativos para crianças. Com temas como sustentabilidade, educação, ciência. O que vc pensa sobre isso?

Professor: Eu acho que é um pouco perigoso para crianças serem muitos desenvolvidas/pressionadas no intelecto quando são muito pequenas. Para mim, esses programas sobre ciências fazem com que as crianças virem pequenos colecionadores de fatos. E esses fatos fazem com que eles fiquem confiantes que são bons e sabem alguma coisa. Mas na verdade, o que sabem são uma lista de fatos que você pode ler em qualquer lugar quando for mais velho. Então é um falso senso de confiança.

Então a criança fica com a sensação de que sabe das coisas então não precisa experimentar nada, não é? Não precisa estudar, não precisa observar, não precisa aprender porque já sabe. Já viu na tv.

Professor: Sim, é um mundo morto porque não há espaço para crítica, para a construção. A ciência vai dar a resposta, ou alguém vai descobrir.

Por algum motivo, vivemos em um mundo onde os pais estão preocupados com o futuro profissional das crianças pequenas. Então as crianças estão começando a ler aos 3 anos. E a televisão e tecnologia vem junto nesse pacote para que os filhos tenham mais informação. E para essas pessoas, simplesmente deixar as crianças brincar parece pouco.

Professor: A base do intelecto é o desenvolvimento saudável dos sentidos. Os olhos, os ouvidos, a maneira como falam, o movimento do corpo, o lado direito e o lado esquerdo do corpo, a coordenação. Com tudo isso formado, as crianças podem experimentar o mundo a volta delas. Isso é a primeira coisa. Descobrir o mundo através dos sentidos é uma condição do corpo humano. O corpo precisa disso para funcionar na sua totalidade. E com isso o corpo pode ir ao mundo e fazer mais pesquisa. O que quero dizer é: por exemplo, o que estamos fazendo com as crianças do primeiro ao sexto ano é usar o corpo que foi propriamente desenvolvido através do brincar e desenvolver a imaginação propriamente. Pensar é completamente limitado pela imaginação. Então nós precisamos fazer a imaginação deles começar a se ampliar. E a maneira que fazemos isso é, nós contamos histórias para eles e pedimos que eles recontem as histórias para nós. Isso vai de encontro com a conversa que tivemos inicialmente sobre não assistir televisão em dias de escola, ou preferencialmente nenhum dia. Porque as imagens que dei para as crianças, precisam ser processadas quando eles dormem. É quando todo o crescimento acontece. Isso é um dado fisiológico. Você cresce dormindo, músculos crescem quando você está dormindo, os neurônios se reparam no sono, isso é um dado científico básico. Então você dá para eles uma imagem e uma maneira artística de desenvolver essa imagem e com isso, eles vão descobrir mais fatos sobre a realidade. E isso é um tipo de pesquisa. Como exemplo, eu contei recentemente uma história para o segundo ano sobre uma mulher que precisa ir da vila onde ela mora, a vila do marido dela (no alto da montanha), até a vila onde ela nasceu. Ela precisa descer para chegar na vila onde ela nasceu. Essa foi a imagem que dei para as crianças. E entreguei um balde cheio de areia. E com isso eles descobriram coisas sobre a realidade. Eles descobriram que quando você tenta construir, em algum momento aquilo se ergue, mas também cai. Com isso descobriram sobre erosão. Descobriram como a areia gruda. E claro, não só a areia, argila, cera de abelha, papel. Eles descobriram várias coisas sobre ciência. Só que se a base do corpo não tiver desenvolvida propriamente, quando formos educar esse aspecto, não conseguimos. Mas quando essas duas coisas são educadas propriamente e chega a hora de observar o mundo de uma maneira científica, eles vão ter um valioso conhecimento de onde se basear. É incrível, de verdade.

Os pais que se preocupam com o futuro da criança e em quem vão se tornar, se serão competitivos no futuro, precisam entender que ter imaginação/criatividade é provavelmente a melhor habilidade que eles podem ter. Por exemplo, aqui nos Estados Unidos o crescimento da economia é baseado no empreendedorismo. E a base de um empreendedor é claro, imaginação e criatividade.

As pessoas falam da importância de ter equilíbrio na vida. E por isso, um pouco de tecnologia não faria mal. O que você pensa disso?

Professor: Tenho alunos na minha classe que não têm nenhum acesso a televisão ou outro meio eletrônico. Não comem em lanchonetes fast-food, não vão a shopping centers. E mesmo assim eles conhecem alguma coisa sobre isso. São mais ingênuos que as outras crianças, mas conseguem conversar sobre essas coisas.

Sim. E eles podem aprender mais sobre isso quando forem maiores, né?

Oh sim, claro! Definitivamente. Eu não acho que isso vai ser um problema.

Qual o seu conselho para pessoas que vivem em uma cidade onde é difícil deixar as crianças soltas brincando. Então por morar em um apartamento e ambos pais trabalharem fora, os pais têm dificuldade em negar a televisão. Qual o seu conselho para criar crianças sem tecnologia nesse cenário?

Acho que na turma que tenho agora, os pais estão tendo muito sucesso trabalhando em comunidade. Os pais se revezam e cada dia um busca o filho do outro na escola. Vão para parques ou levam para casa, mas assim uma criança pode brincar com a outra e não há uma sobre carga para cada pai, uma vez que revezam. E as crianças ganham por conseguirem assim subir nas árvores, sujar na areia e fazer coisas que são supostamente para ser feitas na infância. Quero dizer, eles precisam brincar com seus amigos. Um dos pontos importantes da educação Waldorf é que nós não herdamos nossa comunidade mais, nós escolhemos. Claro que sempre que fazemos uma escolha, isso envolve mais trabalho, mais aprendizado, mais esforço e consciência. Então você escolhe os pais que você queira repartir a infância do seu filho, e você precisa cooperar com eles, você precisa fazer sacrifícios.

Espero com isso ter conseguido esclarecer as dúvidas que ainda existiam sobre esse assunto. E inspirar mais pessoas a desconectar da tecnologia e conectar com a vida real.

Cris Leão

 

6 pensamentos em “Professor Waldorf explica sobre os efeitos da tecnologia nas crianças

  1. Gratidão! Que entrevista maravilhosa! É isso que quero para minha filha! Já estamos no caminho certo; com 14 meses, ela não tem contato com TV ou eletrônicos e se desenvolve lindamente através do brincar.

  2. Dois anos depois e essa entrevista ainda é divulgada via facebook. Um belo indicador de sua relevância.

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