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Um dia desses, uma mãe escreveu um comentário assim no blog: Também quero parar de trabalhar e ser feliz ficando em casa com as crianças. O texto dela era mais extenso do que isso e queria dizer que ela acreditava que ficar em casa seria experimentar uma profunda felicidade. Eu quase caí da cadeira. O dia a dia das mães que ficam em casa cuidando dos filhos não é nada parecido com um comercial de margarina. Então respondi para ela, faça o certo, mas não preocupa tanto com a felicidade. Felicidade é overrated (super valorizada). É o que penso. Não parei de trabalhar para ser feliz com meus filhos. Fiz isso porque eles precisavam de mim e senti que a dinâmica da família ia melhorar muito. E tem dias que essa minha vida de mãe em casa cuidando dos filhos me parece uma benção do céu. E agradeço mesmo, de coração, por ter essa oportunidade. Como na segunda feira passada, passei a tarde com eles no parque e a Maria Teresa achou essa flor (embaixo) e me falou: “Olha mãe, o que o anão que mora naquela árvore deu pra gente.” Repara, tem dois corações na flor! Eu acredito em magia. E ela acontece em muitos momentos na relação mãe e filho. Mas você precisa estar presente para acontecer.

flor coração antes que eles crescam

O contrário também acontece. Como em outro comentário que recebi dizendo: “Vocês devem estar muito loucas de parar de trabalhar para ficar com os filhos. Eu não faria isso de jeito nenhum. Ficar em casa ia ser ter que aprender um monte de coisas que eu não quero aprender.” Ela tem razão. Eu precisei aprender um monte de coisa que nunca tive vontade. Nos meus primeiros 3 anos de mãe com o João, tive que aprender a ficar em casa. E eu nunca gostei disso. Tenho uma amiga muito querida, mãe exemplar, que também parou de trabalhar para cuidar dos filhos (3 diga-se de passagem) mas mesmo tendo babá tempo integral, tinha dias que ela pirava (3 filhos, minha gente). Um dia ela entrou no carro de pijama (uma hora da manhã) e pensou com ela mesma, vou fugir. Cenas que não se vê em um comercial de margarina. Além do cansaço, tem a saudade imensa do salário. Quem é que gosta de ser dependente? E fala sério, quantas vezes você já enfiou nos dedinhos na areia (suja) de um parquinho sonhando com o dia que aqueles mesmos dedinhos vão poder poder demorar folheando uma revista e seus ouvidos vão parar de ouvir aquele despertador (não só para te acordar) Mãe! Mãe! Mãe! Mas você se agarra na linha do sorriso do seu filho e segue sendo mãe porque sabe que quando eles crescerem, vai morrer de saudade dessa fase.

Enfim, a vida real não é um clipe da Madona. O que vai acontecer com essa mãe (do primeiro comentário) depois que se demitir do emprego (com horário para entrar e sair, dinheiro para pagar por uma ajuda, unhas feitas, cafezinho na empresa com momento fofoca) quando a vida dela for ter que lidar com a repetição, exaustão e sentimento de impotência –que é cuidar de crianças? Por isso, tem horas que é bem melhor parar de mirar na felicidade e mirar no que você precisa resolver naquela hora na sua vida. Caso contrário, a quebra de expectativa pode ser muito grande. Como diz meu personagem favorito da televisão (Phil do Modern Family), “As coisas mais incríveis que podem acontecer com um ser humano, vão acontecer com você. Você só precisa baixar as expectativas.”

Image

Conversando com um amigo sobre escolhas, ele me falou: “Sabe o que eu penso, o importante é seguir a intuição. Seja lá onde a intuição levar, esse é o caminho certo.” E eu falei: Pois é, eu sempre pensei isso mas agora estudando o livro Intuitive Thinking as A Spiritual Path, do Rudolf Steiner eu estou um pouco confusa. Porque acho que às vezes a intuição é para você se libertar (para crescer) self improvement, mas outras vezes é um desejo kamikaze de pular no abismo –  self destruction. Ele falou: “Mas self destruction também é self improvement. Talvez é preciso passar por esse aprendizado.” E pensei: Bingo! Será que toda escolha que fazemos precisa ser mesmo para ser feliz? Principalmente, para ser feliz no dia seguinte?

Por isso eu convido você a parar de se perguntar tanto “O que me faria feliz?” e se perguntar: “O que me faz infeliz?” Estou cansada de ver gente falando que precisa emagrecer, mas os anos vão passando e a pessoa vai se distraindo e nada faz. Ou aquela mãe que já decidiu que precisa se desfocar um pouco dos filhos e ter um alimento próprio mas entre uma ida ao supermercado e uma assistida de televisão, tudo continua igual. Lembro de uma amiga que tive em uma agência que trabalhei. Ela era super talentosa e extremamente infeliz no ambiente de trabalho. O sonho dela era virar ilustradora. Um dia ela me falou, tô com tanta raiva dessa rotina que queria pedir demissão agora. E eu falei toda empolgada: Pede! E ela, ah não, não quero fazer nada assim no impulso. E eu falei: Pois acho que no impulso é que você faz o que é verdadeiro. E ela pediu demissão. Isso foi há 9 anos atrás e até hoje ela me agradece. Claro que a vida dela agora não é um comercial de Molico onde ela só fica dançando com roupas brancas e esbanjando um sorriso de noiva no dia do casamento. Não, ela precisou enfrentar suas sombras. Ficou sozinha, teve medo e trabalha muito. Mas quando você olha para ela, tem certeza de que não está vivendo um rascunho, um protótipo, um quase, ela está vivendo o que é verdadeiro para ela. E inspira pessoas de tanto talento que põe para fora. Ela é um flor que desabrochou.

Foi pensando em tudo isso, que li esse texto (Hugh MacKay, autor de The Good Life) e não podia concordar mais: (o que segue é a minha tradução)

“Atualmente estou rejeitando o conceito de felicidade. A ideia de que tudo que nós fazemos é parte de uma busca pela felicidade me parece uma ideia perigosa e tem sido a causa da doença contemporânea da sociedade ocidental – o medo da tristeza. É muito estranho ver pessoas dizendo “escreva três coisas que te fizeram feliz hoje” “levanta a cabeça” e “nascemos com o direito de ser feliz” e por aí vai. Nós estamos como que ensinando nossos filhos que felicidade é uma condição natural. Isso é péssimo. O crescimento é o que nós deveríamos estar buscando e parte disso é a tristeza, a decepção, a frustação, os fracasos; todas essas coisas que nos fazem quem somos. Felicidade e vitória são coisas bacanas que também acontecem com a gente, mas elas não nos ensinam muito. Todo mundo diz que ficamos mais fortes com a dor e na mesma hora que te vêem sofrendo, falam, “Vamos lá! Sai dessa! Levanta a cabeça!” Eu gostaria de ter pelo menos um ano em que a palavra “felicidade” fosse trocada por “crescimento”. Pergunte a si mesmo, “Isso está contribuindo para o meu crescimento?” e se você estiver tendo um dia dos infernos, a resposta é sim.”

 

Cris Leão

28 pensamentos em “Cuidar dos filhos não é sinônimo de ser feliz

  1. Que delícia seus textos…
    O difícil nessa história toda é vivenciar e estar junto de fato, aprendendo e crescendo junto com eles… porque mães em casa com os filhos tem aos montes, mas aquelas dispostas a experienciar as diversas (e as vezes, enlouquecedoras!) facetas da maternidade, não são tantas assim!
    E essa real e intensa vivência é TÃO boa, é o que faz tudo valer a pena no fim das contas.

  2. Amo seu blog! Sempre leio seus textos, especialmente qdo dizem respeito a este universo tão complexo chamado ‘maternidade’. Sou mãe em tempo integral de 4 filhos (e cuido sozinha) e às vezes (muitas vezes) a frustraçao é minha companheira … frustração por situações te dão sensação de impotência, por não saber lidar com alguns comportamentos, por precisar respirar sem eles e achar que isso é injusto, enfim, por muitas coisas. Suas reflexões, porém, me ajudam muito a saber que mães sao parecidas, que todas lidamos com situações semelhantes e que somos mortais, imperfeitas. Obrigada por cada texto que abre a mente e o coração de quem precisa trocar a palavra ‘felicidade’ por ‘crescimento’!!

    • Giulliana, 4 filhos não é brincadeira. Parabéns pela coragem de viver isso e não só ser mãe, mas criar os filhos. Que a santa paciência te acompanhe. ; )

  3. este texto me levantou neste dia , obrigada
    deixei minhas filhas na escola com um sentimento de que nao fiz nada certo neste dia, e este texto me fez ver que nem todos os dias serão certos, mas o importante é que estou seguindo meu coração e estou no caminho certo, erro acerto, mas estou a caminho e isso é o mais importante…

  4. Uau!!! Real demais esse texto… parece a minha vida!!! rsrs. Muito, mas muito obrigada por me fazer sentir como “uma pessoa normal”!

  5. Olá. Muito legal o seu texto e caiu como uma luva pra mim. Tenho trigêmeos de 5 anos e sempre trabalhei. A questão é que tinha que fazer um monte de coisas em um trabalho pouco flexível. Foram 5 anos de correria total e estou prestes a deixar o emprego e virar mãe em tempo integral, pois percebi que estava apenas fazendo milhões de coisas e vivenciado de verdade quase nada com as crianças e comigo mesma. Valeu.

  6. As lágrimas molham meu rosto, hoje mesmo, por não conseguir ser a mãe que desejo para minha filha, por ler tantas coisas e na hora da impulsividade dela eu não conseguir controlá-la, mesmo com todas essas táticas de olhar nos olhos, colocar de castigo e outras que só me deixam cada vez mais impotente. E olha que só tem 3 anos. Hoje me sinto péssima, simplesmente por não saber agir com a minha filha que amo tanto. Nesse blog eu me sinto bem mais confortável, pelos textos que nos impulsiona e nos faz refletir. A busca nunca para………

  7. Adorei esse texto. É bem assim mesmo. Ser mãe (ou ser humano, na real) é encarar o que precisa ser feito na hora que tem que ser feito. Felicidade só entra em pauta quando alguém te lembra que “precisamos ser felizes”, Eu tb tô nessa de achar 3 coisas felizes no dia, e isso tem estado sido bem difícil. Cansada demais até pra ser feliz….a minha menor tem sido um desafio diário, num tô dando conta de filhos, casa e trabalho (sou professora e levo trabalho pra casa tb) e sem grana pra sustentar tudo, stress total todo dia…. sempre uma lista imensa de tarefas, que nunca consigo cumprir a contendo e a tempo. Então se isso significa que tô tendo crescimento, sim estou rsrsrs Obrigada pelo alento.

  8. Amo receber seus textos!!!! A cada dia tenho aprendido mais…Nos mudamos de Estado e para trás ficaram meus familiares, emprego de anos e uma vida considerável. A nova experiencia com meu marido e filhos tem sido ótima, mas há dias que realmente…sinto vontade de entrar no carro e fugir! Essa semana conversando com meu marido lembramos de quando nosso filho tinha 2 anos (atualmente com 7) e percebemos o quanto eu perdi não podendo estar com ele em casa. Hoje, com mais um filho de 2 anos, temos aprendido a viver mais e fazer o que devemos, agora! Isso tem contribuído para nosso crescimento.

  9. Cris…descobri sua página pelo face onde fui marcada…e li já alguns dos seus textos!
    Concordo totalmente com você sobre ser presente na vida dos filhos!
    Mas me diga como funciona toda a outra parte?..sim aquela de pagar contas!?
    Pagar um plano de saúde pra eles(que custa caro)?Uma boa alimentação!?roupas para vesti-los (que perdem a cada 30 dias)?
    Quando você tomou coragem e largou seu emprego, você só penso como seria viver sem suas boas roupas, sapatos, viagens caras , bolsas e atualizar a fofoca na hora do cafezinho ou você também pensou na estrutura minima necessária para criar os filhos?
    Se sim como foi? como resolveu?

  10. Texto brilhante! Por isso não deixo de visitar o blog!
    Realmente não é fácil ficar em casa cuidando dos filhos, e a primeira dificuldade é ter que encarar as críticas das colegas de trabalho que nunca tiveram a coragem (ou a vontade) de fazer isso. Passei por isso no meu antigo emprego, parece que a minha decisão ofendeu muita gente.

  11. Tão verdadeiro e humano Cris! Eu não estou trabalhando, tenho um bebe de 11 meses, tenho ajuda e tem dias que choro de exaustão. A rotina repetitiva, as birras, as compras p casa etc Isso não tem fim. Fizemos um acordo: marido trabalha muito e eu fico com Antonio! Mas como disses, crescer é a palavra. Saí da minha zona de conforto e olhar para o Antonio nas suas descobertas, podendo eu doar esse amor lindo, é uma grande recompensa. Saude para tua familia! Blog sensacional

  12. Cris, este é o seu melhor texto. Ou o que mais me tocou…
    Enfim, acho que eu estava precisando ouvir isso hoje. E como você mesma disse, eu acredito em magia, e acredito que as coisas tem motivo pra acontecer na hora e do jeito que acontecem.
    Obrigada por me fazer, dia-a-dia, ver que não estamos sozinhas nesta difícil tarefa da criação dos filhos.
    Grande beijo

  13. Olá Cris!
    Gosto muito de acompanhar o seu blog e me sinto mais “viva” a cada vez que vc compartilha suas experiências conosco.
    Sou professora de espanhol e deixei a sala de aula para me dedicar à minha filha (hoje com 1 ano e 11 meses). Não é fácil comandar uma família, e ainda mais sendo mãe de primeira viagem, morando em outro estado, longe de família e amigos. Mas, apesar de tudo, tenho certeza que não existe dinheiro que pague poder compartilhar cada descoberta, cada frustração, cada sorriso que a minha filha dá.

    Grande abraço!

  14. Eu comecei a ler o texto gostando já, mas pensando: ah, ela vai falar mal da felicidade, da busca da felicidade! E bom, foi isso mesmo que você fez! rsrs… Porém, de um jeito que eu concordo muito. Desde que meu filho nasceu eu ando buscando algo, algo que não sabia o que era, e exigindo de mim uma constância emocional irreal!

    Ai, descobri depois de tanta auto cobrança, que não era mesmo a felicidade que eu procurava, era só viver em sintonia com minha essência. Ok, pode ser meio metafísico de mais para alguns, então vou tentar deixar mais objetivo: viver de acordo com o que acredito. Então, descobri que para mim, o que preenche o vazio pode ser melhor definido como motivação, inspiração, intuição… tá na moda dizer propósito também. Mas eu me cobrava para achar o bendito propósito e nada! Até que descobri que um bom propósito é encontrar o tal propósito e estou nesse caminho, bem perto de descobrir o meu, sinto!

    E sim, nesse processo há felicidade não é constante, mas tem um outro sentimento que me acompanha que eu gosto mais até: paz com minhas escolhas! Eu posso estar triste, puta, chateada, com raiva e até feliz mesmo, por trás de tudo isso costuma ter a paz de saber que estou seguindo meu próprio caminho. E mesmo quando a paz não está, tento aceitar meus sentimentos e fluir por eles. Desapegar deles (as crianças fazem isso como uma maestria incrível!)

    E sobre o livro do Steiner, me lembrou uma frase que me acompanha em todos os meus processos: “caio para dentro de mim com a vertigem dos que aprendem em queda livre, já que tudo mudou, mudou tão de repente!” (F.UR.T.O) – aprender para mim é isso, queda livre. Acho que sou adepta de saltos kamikazes, saltos de fé… talvez eu goste da destruição ;]

  15. Cris Leao, parabéns por este grande talento que possui de escrever e transmitr sabedoria ao outro, compartilhar experiências ricas. Também trabalhei em Sao Paulo, agência de publicidade, instituto de pesquisa de mercado e hoje moro na Alemanha e tenho dedicado um bom tempo na criacao do meu filho, hoje com 7 anos. ´Só posso dizer que cresci muito também, uma experiência muito rica, há dificuldades, desafios, só felicidade é mesmo irreal e cada um deve ir em busca do seu próprio caminho….nao há receita pronta de felicidade!! Grande abraco e que voce continue nos inspirando com textos tao lindos!!

  16. Cris, obrigada, estou naqueles dias em que pesa bastante a questão de ser mãe, profissional, esposa, filha, amiga. Ir pro trabalho, voltar, pegar na escola, dar comida, banho, ajudar na tarefa, etc etc etc. Não é mesmo um comercial de margarina e temos alguns dias difíceis (como estou hoje), mas ser mãe tem seus momentos de recompensa…Obrigada 🙂

  17. Cris, estou feliz em conhecê-la. Estou aguardando ser avó e somente agora percebo como minha visão ao ser mãe era ao mesmo tempo moderna e antiga. Antes da maternidade, nunca havia tido contato com crianças e tudo que fiz na criação de meu filho foi seguir alguns conselhos de minha mãe e por intuição. Acertos e erros. Sempre trabalhei muito, e meu filho sempre foi uma criança muito companheira. Tive sorte ? Talvez. Não acho que tenha sido uma mãe excepcional, mas fui o que fui. Hoje vejo que poderia ter feito melhor, mas filhos não vêem com bula. E a vida, por incrível que pareça, fez com que minha atenção se voltasse às crianças. Acredito firmemente que criar filhos não é uma questão de ser melhor ou pior, fazer sacrifícios, sentir culpas, cobranças ou buscar auto elogios. Alegrias e tristezas fazem parte da vida. Nossas e de nossos filhos. Sempre em processo de auto aprimoramento. Será que o que precisamos não é um pouco de calma? O que é realmente a grande aflição das mães hoje em dia?

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