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Dr. Aranha, pediatra antroposófico, fala sobre a necessidade de estimularmos a imaginação infantil com brinquedos simples em vez de recorrer a brinquedos sonoros, coloridos, vibrantes ou eletrônicos. (Nas fotos, criações do Antonio, meu filho, com objetos que encontra pela casa. Provando que muita coisa pode ser brinquedo nessa vida).

A publicidade e a indústria descobriram, faz algum tempo, que as crianças são alvos fáceis para estratégias que estimulam o consumo. Uma parte dessa propaganda conseguiu convencer pais, educadores e até mesmo terapeutas bem intencionados da necessidade de “estimular” as crianças de todas as maneiras. Assim, sons estridentes e repetitivos, cores vibrantes e luzes piscando o tempo todo entraram para o repertório dos itens que, em teoria, ajudam no desenvolvimento de crianças ou mesmo de bebês.

Acontece que brincar é algo natural em toda criança, é assim que ela torna-se ativa em seu ambiente, experimentadora, criativa, descobridora, criadora. Se olharmos para boa parte dos brinquedos, inclusive os educativos e estimulantes, na visão da indústria, eles fazem da criança mera espectadora, ainda que ela tenha que apertar um botão para acender uma luz ou ligar um som a um animalzinho. Nesse caso, ela não está criando nada em sua imaginação, apenas respondendo a um estímulo. E esse brinquedo rouba suas oportunidades de fantasiar, de imaginar, de criar. Tudo isso, mais tarde, vai dificultar a formação da individualidade e do eu.

Qual é o melhor brinquedo, então? É aquele que torna a criança “ativa” – no sentido de que ela vai ativar sua imaginação para completar o que falta naquele objeto. Um simples guardanapo de pano dobrado ou uma colher de pau podem se transformar em uma princesa ou uma girafa. Mas para isso ela terá que criar, algo que só acontece dentro dela. Se o brinquedo for completo, uma princesa com rosto perfeito e vestido radiante ou um caminhão colorido que anda sozinho, não restará espaço para essa imaginação.

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Sendo assim, fazer sons com objetos da cozinha, como colheres ou panelas, é um brinquedo. Tampinhas de metal, uma bacia com água, gravetos, pedacinhos de madeira e retalhos de tecido logo se transformarão durante a brincadeira: a criança irá equipá-los com sua imaginação, cada vez de uma maneira diferente, uma atividade essencialmente humana. Nada disso é possível com brinquedos que já saem de fábrica cheios de detalhes. E enquanto um pedaço de madeira ou um novelo de lã ajudam a desenvolver o tato, brinquedos de plástico feitos de cores berrantes  tornam grosseiros os sentidos que estão em desenvolvimento. Afinal, se cada madeira tem cores e ranhuras diferentes, se cada tecido é sentido de uma maneira diversa pelos dedinhos curiosos de uma criança, plástico é quase sempre igual.

A relação entre atividade corpórea (eu me refiro ao movimento, não atividades esportivas) e formação cerebral é uma velha conhecida. A melhor prevenção para distúrbios da fala e da dislexia é feita por exercícios de habilidade, equilíbrio e orientação espacial, além de atividades sensoriais. Nos primeiros sete anos de vida, os órgãos dos sentidos e todo o sistema nervoso estão em formação e dependem de estímulos adequados para que não se atrofiem. Uma criança com distúrbios de fala ou com limitações motoras, por exemplo, tem mais dificuldades em manifestar sua individualidade.

Seu filho está no jardim-de-infância? Repare se ele está sendo estimulado em seus sentidos. Se tato, visão, equilíbrio, paladar, audição e a capacidade de fala estão sendo desenvolvidos no contato com materiais diversos, como areia, madeira, lã, pedrinhas, sons harmoniosos e alimentos naturais e saudáveis.

Vai fazer uma festinha de aniversário? Será que é mesmo necessário contratar animadores profissionais? Você deve se lembrar que, até pouco tempo, bastava reunir as crianças em um quintal e deixá-las em paz para que criassem as próprias brincadeiras sem a ajuda de nenhum adulto. Alguns educadores já se perguntam se uma das causas da dependência de drogas e do consumismo estão ligados ao fato de a criança crescer dependente de aparelhos que a entretem continuamente. Não conseguem lidar com o tédio ou passar muito tempo sem nada para fazer, por isso estão sempre olhando para telas, seja durante um jantar com a família ou uma viagem de avião ou de carro. Já sabemos os prejuízos que a fast food traz para a saúde, mas podemos ficar alertas para os fast toys, brinquedos mortos, padronizados, auto-suficientes, que fazem muito bem o papel de distrair e emburrecer as crianças e impedir que sejam espontâneas e criativas.

Dr. Antonio Carlos de Souza Aranha é medico antroposófico e terapeuta familiar

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6 pensamentos em “Depois do fast food, os fast toys

  1. Você percebe o quanto esses brinquedos super eletrônicos atrapalham no desenvolvimento quando vc trabalha com criança e percebe a dificuldade que elas tem de imaginar ou criar coisas/situações…

  2. Na inocuidade do silêncio; na esterilidade de um objecto natural pode despoletar-se um turbilhão de vozes, uma explosão de cores no rasgo puro da imaginação…mas, ao invés, no ranger do som electrónico; na ofuscosidade plástica colorida observa-se um contemplamento passivo, um adormecimento dos sentidos, um desfalecimento do imaginário da criança…

  3. Perfeito! Estamos em um tempo que encontramos tudo muito pronto, preparado, nas mãos. Ir em busca, fazer tentativas, conviver com os erros, orgulhar-se de algo produzido por si, são fatos que infelizmente estão se perdendo com o tempo. Mas ler esse blog e saber que outras pessoas estão sendo afetadas por textos como este me trás otimismo.
    Na minha infância dos anos 90 lembro como era animador fazer minhas casinhas de boneca com fitas cassete empilhadas, costurar roupa para as barbies, brincar na rua de carimba, corda, elástico…

  4. AMEI esse post… aliás, amo todos os posts do blog…rs. Mas tenho uma dúvida: tenho um filho de 1 ano e 3 meses e sempre fico insegura com relação ao que oferecer a ele… como ele ainda coloca muita coisa na boca, acabo não oferecendo (ainda) brincadeiras como massinha e giz de cera. Quais opções de brincadeiras podemos ter, nessa linha do incentivo à criação e imaginação, para essa faixa etária dele?

    • Oi Shirleide, como ele é muito pequeno, dê coisas que a deixem tranquila e que você não precise ficar supervisionando o tempo todo. Brinquedos de madeira maiores, bonecas de pano, colheres de pau da cozinha, uma bacia com água no verão, uma caixa de tecidos…Nessa idade, tudo vira brincadeira, então use o que você tem em casa que ele vai usar a imaginação pra transformar.

  5. Pingback: Porque decidi colocar meus filhos em uma escola Waldorf | Piccolo Universe

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