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Esses dias conversei com uma pediatra e perguntei a ela as queixas mais constantes que as mães trazem ao seu consultório. É mais ou menos assim: “meu filho não fica sozinho”; “meu filho acorda a noite inteira”; “meu filho quer dormir na cama comigo e com meu marido toda noite”; “mal consigo falar no telefone”. E na hora pensei em várias mães que conheço – e em mim mesma. Nas dezenas de vezes que liguei pra uma velha amiga que, desde que teve filho, nunca mais conseguiu falar mais que 2 minutos ao telefone. E olha que a criança já tem três anos. Pensei em meu filho me chamando seguidamente quando preciso me concentrar em alguma tarefa. Pensei nas crianças conhecidas que, aos 6 ou 7 anos, ainda não conseguem dormir sozinhas em suas caminhas. Como sempre, pensei também na minha infância, quando eu e meus primos corríamos pelo quintal sem nunca incomodar os adultos que conversavam na sala. E que eu jamais deveria bater na porta enquanto meus pais estavam no quarto – salvo emergências.
Me parece que as crianças de hoje precisam muito experimentar aquela certa solidão que só temos nos primeiros anos de vida, uma solidão povoada de fantasia e sonhos acordados. Mas, para isso, pais e mães precisam acreditar que elas são capazes de sobreviver a essa solidão, uma vez que essa sobrevivência é importantíssima para o desenvolvimento emocional da criança. Ela precisa saber que, ainda que não tenha um adulto olhando para ela 24 horas, ou que não esteja no mesmo cômodo o tempo todo, ainda assim está sendo amada e cuidada. A segurança que ela carregará para a vida toda não tem a ver com presença constante, mas com a certeza de que é cuidada e amada, mesmo quando a mãe entra no banho ou faz uma pequena viagem sozinha.

Perguntei ao Dr. Aranha, médico e terapeuta familiar que é colunista de nosso blog, e ele respondeu que a presença dos adultos na vida de uma criança, como todo o resto, também deve seguir um ritmo, uma respiração. Estar por perto e sair, brincar junto e ficar sozinho, dar carinho e dar espaço devem se intercalar para que desde cedo se aprenda a confiar na capacidade de ser completa e feliz sem que alguém esteja grudado a ela o tempo todo. Não é difícil imaginar como isso pode se transportar para a vida adulta gerando pessoas carentes, ciumentas, inseguras, dependentes das demonstrações de afeto constantes, sem nunca confiar que possam estar recebendo amor quando o outro – seja namorado, esposa, amiga – se dedica a outras coisas ou a outras pessoas. Mas para que as crianças desenvolvam auto confiança, os pais precisam “autorizar”, acreditando na capacidade de seu filho. E os filhos, por sua vez, precisam confiar que não irão sofrer se passarem uma hora brincando no quarto e que o fato de que a mãe está dormindo até mais tarde não tem nada a ver com abandono.

Em outras palavras, essa é uma insegurança nossa, dos pais e adultos cuidadores. Pense numa criança que cresce com alguém que é pago para ficar olhando para ela 10 horas por dia sem mais nada para fazer. Talvez tenha alguma dificuldade para aprender que amor e afeto não tem a ver com observação e presença absoluta… Ou cuja mãe, que parou de trabalhar para cuidar dela (o sonho de muitas de nós!) se sente culpada quando pede para que ela durma a noite toda em seu quarto para que, assim, possa ter alguns momentos com o marido, (que muitas vezes também está carente). Ou a mãe que se sente mal porque trabalha fora e, quando está junto com o filho, abdica de absolutamente tudo para dar atenção 100%, ainda que sonhe tirar 30 minutos para tomar um café e ler o jornal. E tem também os pais que querem controlar cada minuto do filho com a babá ou na escolinha, pedindo relatórios diários ou observando pela câmera os passos da criança. Outro dia estava no salão de cabeleireiro quando ouvi um chorinho de bebê. Era uma mãe recente que conectou a babá eletrônica ao celular e assim podia controlar se a babá estava cuidando direito. Mas no final das contas isso só servia para que ela ficasse angustiada a cada choro que ouvia sem poder fazer nada!

Sim, esses são exemplos extremos, mas não é difícil ver essa superproteção em nosso dia a dia. No meu e no seu. Me lembro de uma viagem que fiz apenas com meu filho e com meu namorado e em que tivemos momentos juntos, caminhando ou brincando, mas quando eles acabavam o Antonio não era capaz de desgrudar de mim para que eu terminasse uma xícara de chá ou tomasse um banho. E aí pensei que precisa fazer parte do meu papel prepará-lo para a vida, ensinar com amor e autoridade que continuo sentindo afeto e cuidando, mesmo quando fecho a porta do escritório para atender um cliente ao telefone.

Outro dia uma leitora querida escreveu que estava insegura em mandar o filho para a escolinha na mesma época em que o irmãozinho iria nascer. Assim, optaria por uma escola que não era exatamente seu desejo para que esses momentos não coincidissem. E pensei, será mesmo que é prejudicial para a criança? Ou não seria perfeito para a família que a criança, já crescidinha, com 3 anos, imagino, fosse feliz para se distrair com os amiguinhos e receber carinho da professora, enquanto a mãe pudesse se dedicar um pouco mais ao bebê que acaba de nascer, esse sim necessitado de atenção quase que 24 horas? E, quando o filho voltasse, encontraria uma mãe menos cansada e ansiosa, que depois de amamentar, trocar fraldas e dar banho, aí sim teria tempo para se dedicar a ele com tranquilidade.

O difícil, como sempre, é saber a medida dessa atenção. Como vivemos em uma sociedade altamente psicologizada, tentamos prever todos os danos emocionais que somos capazes de causar como pais. Se dermos pouco, a criança pode sentir-se rejeitada e desenvolver uma defesa que será difícil de derrubar mais tarde . Se dermos demais, teremos um adulto dependente de atenção constante e inseguro. Eu também não sei qual é o ideal, mas se meu filho está demandando o tempo todo a presença da mãe ou do pai e não consegue ter uns minutos sozinho, não é capaz de brincar sem companhia, penso que preciso me esforçar para mostrar a ele que tenho muito amor – por meio dos meus cuidados e carinhos – quando estou junto. Mas que também estou ali atenta caso ele precise quando não estou com ele no colo. E acho que é saudável mostrar também que tenho outros interesses além dele. Afinal, as crianças aprendem pelo exemplo e eu gostaria muito que meu filho crescesse independente, mas capaz de trocar amor e afeto com segurança.

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Por Fabi Corrêa

25 pensamentos em “Educando crianças seguras

  1. Otimo texto.Fico com inumeras duvidas a respeito dessa dependenciaxindependencia da criança…Tive que voltar a trablhar com minha bebe de 4 meses e desde entao ela vai pra creche e fica o dia todo lá.Ela tem 8 meses e eu morro de saudades o dia todo dela!!!! 🙂

    • Oi Vanessa, eu tb tenho, mas acho que 4 meses de licença é muito pouco, independemente de qqer coisa, já escrevi sobre isso. Uma pena! E eu também morria de saudades. Aliás, senti isso por sete anos até conseguir sair do emprego. Mas agora, por outro lado, em casa às vezes me vejo protetora demais… É difícil encontrar o equilíbrio!

  2. no meu caso, optei por ficar com a minha filha até ela completar 18 meses. Deixei o trabalho e Passo o dia todo com ela desde que nasceu e já começo a ver que ela tem que brincar sempre perto de mim quando estamos dentro de casa. Só quando estamos no parque ou na rua, ou com outras crianças, é que ela “esquece” de mim.
    Agora ela está com 16 meses. Será que vou pelo caminho certo?

    • Pois é, Giorgia…rs. Essa é a pergunta que não quer calar. Mas acho que nessa idade ela ja pode começar a ter seus momentos, gradualmente. E principalmente aprender a “aguentar” o papel de observadora quando você se relaciona com amigos ou com seu marido, por exemplo. Ela terá que aprender não apenas a ficar sozinha, mas a aceitar que o outro pode se interessar pir outras coisas e “abandoná-la” por um tempinho. Ninguém disse que seria fácil! Boa sorte. Bjos

  3. Muito bom texto e reflexões. É bom saber que, como mães, não estamos sozinhas. Todas com questões muito parecidas. As decisões de como lidar com as questões é que fazem a diferença. Mas também acho que devemos nos lembrar que não são só os nossos atos que determinam como nossos filhos serão. Cada um tem sua personalidade e outros fatores externos que também influenciam. Por que mãe tem mania de assumir toda a responsabilidade para si? (Me incluo neste questionamento…)

    • Oi Patricia, claro que as crianças trazem seu jeito para a Terra. Mas sem dùvida o papel da mãe, nos primeiros anos de vida, é o mais forte. Depois o pai começa a ganhar espaço e importância, e depois ela se abre para o mundo. Acho que não é a toa que assumimos, mas qto mais crescida a criança, mais dividimos o papel com outros. Um beijo!

  4. É até difícil dizer o que pensei. Vou guardar o post para ler várias e várias vezes. É absolutamente, simples e de uma franqueza desconcertante. Sempre penso e tento buscar este “caminho do meio”, mais equilibrado e justo para o meu filho, meu marido e pra mim. Sei que sou uma mãe muito protetora, e se a minha irmã visse eu curtindo esse post iria rir da minha cara, mas criar meu filho com esta segurança emocional é meu maior desejo. Obrigado pelo post!

  5. O problema é quando os filhos já estão bem crescidinhos, mas de repente começam a ter comportamentos que vão além da nossa compreensão. Minha filha, que já tem 10 anos e é bem independente para a idade dela, de repente começou a ter medos e pesadelos à noite e há 5 meses dorme na minha cama. Está fazendo terapia há 2 meses… e pelo jeito o processo é lento. O menor, de 6 anos, não quer fazer nenhuma atividade fora estudar. Era super ativo, fazia natação e ginástica olímpica, de repente surtou e este ano não topou nada do que eu propus. Eu sou divorciada e os crio para serem mais soltos, mas parece que toda a presença a o amor não são suficientes. Temos momentos de presença total e brincadeira, às vezes consigo separa-los para dar atenção para cada um. E mesmo assim, não consigo entender o que se passa na cabecinha deles.

    • Oi Cléa, sua filha aos 10 anos parece estar passando pelo rubicão, uma fase que é bem natural nessa idade e que vai até uns 11… Leia o post que escrevi sobre isso, A Crise dos 9 anos. Esses medos são comuns pois a criança começa a crescer e desenvolver sua individualidade. Já o menor…bem, não sou terapeuta mas quando essas mudanças bruscas acontecem é bom olhar se o ambiente mudou também, família, pais etc. Mas tb nessa idade as crianças querem mais é brincar sem muitos compromissos. Boa sorte com eles. Bjs
      aí vai o post
      https://antesqueelescrescam.com/2013/10/22/a-crise-dos-9-anos/

  6. Sugiro Fabi Corrêa conhecer um pouco a obra de Donald Woods Winnicott. Este, com certeza o maior psicanalista na relação entre mães e filhos em toda a história. Winnicott fala da “Capacidade de Estar Só”. E veja bem, nada tem a ver com o “desejo de estar só”. Para Winnicott a “mãe suficientemente boa” empresta a seu filho um “ego acessório” possibilitando-o manter-se só. A mãe de identificação fálica não consegue emprestar este Ego ao filho. E a sociedade fálica de hoje, imperativa, impede as mães de serem “suficientemente boas”. Por isso cada vez mais as crianças pedem esta presença física, pois dentro de si não mais carregam esta mãe. Este fenômeno tende a cada vez instalar-se mais. E não sendo “uma com este filho”, esta demanda sem fim irrita e esgota.

  7. Eu tenho pensado muito nisso, em como dar mais liberdade e oportunidades de exercer independencia ao meu filho de 5 anos. As vezes eu queria que ele tivesse oportunidade de sair pelas ruas perto de casa brincando com a molecada igual eu fazia, mas a realidade hoje é diferente. A vizinhança não é uma comunidade onde todo mundo se conhece e onde cada um fica meio de olho no filho dos outros. Estou tentando pequenas coisas, mas está sendo um super desafio criar essas oportunidades.

    • Oi Juliana, mesmo dentro de casa é possível encontrar esse equilíbrio. Ele não precisa, necessariamente, estar na rua. Mas, sim, você pode encontrar um parque, ou durante uma viagem ele pode ficar mais solto. Mas, de fato, é no dia a dia que se ensina essa independência. Beijo

  8. Maravilhoso texto! Aqui em casa tenho um de 5 anos e gêmeos de 1 ano e meio. Sou dona de casa e cuido deles só com a ajuda do meu marido. O mais velho é muito dependente, até pra ir no banheiro me chama, tem atraso na fala tb o que atrapalha….

    • Oi Ana Paula, tudo bem? Já ouvi que isso acontece quando nasce um segundo bebê…que o filho mais velho vira bebê de novo…Mas acho que quando a gente se torna mais independente, os filhos seguem o mesmo caminho. Boa sorte!

  9. Fabi, me indentifiquei muito com o seu texto, que você explicou perfeitamente de uma forma muito simples e clara…eu hoje tenho muitos problemas de auto confiança e sinto isso como resultado da forma como meus pais me conduziram quando criança…nasci temporona, com meus irmãos já adultos, meus pais me deixavam muito sozinha e não davam a atenção e o carinho que eu necessitava…hoje tenho um menino de 2 anos e meio e ainda não consegui colocá-lo na escolinha, parei de trabalhar antes de engravidar e estou em casa até então, dou o máximo de tempo e atenção ao meu filho, e não me importo que ele durma conosco…mas penso sim que o melhor pra ele seria já estar com os amiguinhos e que eu deveria me dar mais atenção…

    • Oi Izabel, pois é, tentamos sempre fazer o contrário do que tivemos e as vezes exageramos. Mas essa é só minha opinião (e de alguns médicos). Há uma outra linha de pais hoje que prega que os filhos têm que dormir até tarde entre os pais. Na minha opinião, isso até pode acontecer em momentos de exceção, mas penso que poucos casamentos sobrevivem a esse tipo de laço. Pai e mãe tem que ter momentos só deles… E a cama é o símbolo máximo disso. E os filhos, por sua vez, aprendem cedo que conseguem ficar sozinhos sem que isso signifique ser abandonados. E esse é outro aprendizado importante para a vida. De novo, é só o que eu penso. Mas acho que quando cuidamos de nós estamos cuidando dos filhos também.

  10. O texto veio a calhar…falar isso é ate pouco…ele caiu como uma luva e meu “desespero”diminuiu um pouco…pois não imaginava que havia outras mães que passavam exatamente por isso como eu…sempre achei que era incompetência minha…estou vivendo umas fase de enormes questionamentos .Minha filha anda sim muito insegura.me questiono sobre o que tenho feito de errado e o que devo mudar…parei de trabalhar p cuidar só dela ,ams as vezes acho fiz errado…e agora é começar denovo e tentar um nvo jeito para dar a ela a segurança que ela precisará pra se tornar um adulto feliz.

    • Oi Camila, que bom. É que quando a gente está insegura e se questionando, os filhos pescam isso no ar. Busque a segurança que existe dentro de você. Você sabe o que é certo. Muita força!

  11. Ola. Vc saberia prexisar a idade para começar a aplicar isso. Meu bebe tem 10 meses
    Será q já é a hora ou nessa idade é normal a dependência? Bj

    • Ana, uma outra leitora me perguntou isso e eu perguntei ao Dr. Aranha, por minha vez. Na opinião dele, é sempre, mas com restrições, claro. Não é que você vai deixar o bebezinho lá sozinho o tempo todo, mas ele já pode ter seus momentos com a mãe e seus momentos de entrega, em que fica no chiqueirinho brincando, por exemplo. Seguro, mas sozinho. Comigo deu certo assim, depois você me conta como foi com você. O que eu sei é que não adianta sermos super grudadas até os 7 anos e, de repente, querermos crianças independentes. Vai com tranquilidade e aos poucos pra ele se acostumar. Um beijo e boa sorte!

  12. Oi Fabi,
    O texto eh muito interessante, mas gostaria de fazer uma critica: a palavra “escolinha”, quando usada em referencia a escola de educação infantil eh tao ultrapassada. Estudos de ponta ja reconhecem, ha anos, a importância da primeira infância (0 a 7 anos) no desenvolvimento intelectual e formação de caráter. Dai, a tamanha importância da escola nesse período de vida de uma criança, e não somente um lugar para eles receberem carinho da professora enquanto a mae cuida de afazeres fora de casa. Me desculpa o desabafo, mas como educadora eu me sinto no direito de chamar atenção a esse assunto e pedir mais respeito e reconhecimento as Escolas de Educacao Infantil, ou simplesmente Escola.
    Muito obrigada,
    Marianna
    ps: desculpe-me pela falta de acentos – computador nao configurado

    • Oi Mariana, obrigada pelo elogio. Quanto à crítica, entendo, mas é apenas uma linguagem coloquial, não uma redução. Eu mesma escrevi sobre a importância do jardim de infância nesse post aqui. Sei o quanto ele é essencial na educação. Um abraço e até logo!

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