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Dr. Aranha fala sobre como apresentar as conquistas tecnológicas às crianças sem paralisar sua criatividade

“Há 30 atrás, quando meus filhos eram pequenos, as famílias investiam seu tempo livre para criar alguma coisa. As crianças desenhavam, pais ensinavam seus filhos a tocar um instrumento, pescar ou andar de bicicleta, mães se sentavam no sofá para contar histórias e aproveitavam para ensinar a ler ou falavam do significado de uma palavra nova. Hoje, quase nada disso é considerado necessário. Vivemos em um mundo de sons e imagens prontas que satisfazem boa parte dos nossos desejos e sentidos. Não precisamos mais de histórias, temos a TV. Pra que aprender a subir em árvores ou andar de bicicleta se as crianças preferem os games? E o pensamento ficou em segundo plano pois os computadores substituem o trabalho da inteligência e das memórias. As máquinas conquistaram a força física, a criatividade e, mais recentemente, o pensar, o último reduto da manifestação humana.

Um dos principais efeitos dessa revolução tecnológica é o desemprego da nossa vontade. De repente, não precisamos mais fazer esforço para quase nada. Nos transformamos em consumidores preguiçosos e atrofiados, seja de ideias, de criatividade e até de raciocínio. Deixamos de usar nossas capacidades naturais e de trabalhar em grupo e passamos a lidar com a sensação de que falta sentido à vida, a chamada depressão.

As crianças na escola construindo um forno de barro com pais e professora

As crianças na escola construindo um forno de barro com pais e professora

Mas, como sempre ouço dos pais, “a tecnologia está aí, não posso negar que meu filho tenha acesso a ela”. De fato, ela está em todos os lugares, mas tudo a seu tempo. Ao lidar com a tecnologia na educação, devemos deixar que as crianças vivenciem o trabalho por si próprias antes de entregá-lo a uma máquina, pois nesse momento a habilidade em criar se paralisa. Se uma máquina faz tudo do começo ao fim, não vivenciamos a gratidão que sentimos ao ver o resultado de um esforço, seja construir uma caixote de madeira para os brinquedos, de pintar uma tela, aprender a tocar um violão ou cuidar de um jardim. Pelo contrário, nos tornamos ingratos e exigentes com tudo o que já vem pronto e que não exige esforço.

Para que as crianças lidem de uma maneira favorável com essa revolução tecnológica, é importante que façam isso da mesma maneira como a humanidade viveu essa mudança nos últimos 250 anos. Assim, passariam a primeira infância como se estivessem no período anterior ao da Revolução Industrial e evoluiriam até a modernidade ao chegar na adolescência. Mostre a seu filho que a água quente saindo da torneira ou que a lâmpada que se acende ao toque de um botão não são coisas tão óbvias como parecem. Se puder, leve-o para férias na fazenda ou para um acampamento, onde a roupa tem que ser lavada à mão, a água tem que ser aquecida na fogueira, o leite sai da vaca – e não da caixinha, como muitas crianças acreditam. Assim, ele vai valorizar as conquistas tecnológicas ao perceber que não foi sempre assim. E, quando estiver mais velho e finalmente fizerem uma pesquisa no Google e não na própria natureza ou na observação dela, irá perceber que o computador não “pensa” sozinho, mas que seus resultados vieram do esforço e da vontade humana de criar, um dia.

O orgulho do Antonio ao mostrar a casinha que construiu usando serrote e martelando pregos

O orgulho do Antonio ao mostrar a casinha que construiu usando serrote e martelando pregos

Permitir que as crianças executem tudo o que for possível antes que o trabalho seja realizado por uma máquina tem um grande valor educativo. Dê a seu filho a possibilidade de criar, cantar, dançar e fazer teatro antes que a TV ou o computador o sobrecarreguem de imagens, cores, sons e impressões tão “perfeitas” que irão paralisar sua criatividade. Alerte os professores sobre essa necessidade, ofereça os brinquedos que o ajudem nessa jornada em vez de dar a ele algo pronto que não dê espaço para sua vontade. Deixe que calculadoras, computadores e games sejam apresentados quando ele já estiver maior, depois de aprender a fazer as contas, desenhos e pesquisas sozinho, exercitando sua criatividade e inteligência de uma maneira que só será possível nessa fase da vida. Em suma, mostre que tudo isso não veio à tôa, mas nasceu do trabalho e da criatividade de homens que vieram antes dele. Assim seu filho poderá, um dia, usar os benefícios da tecnologia ao invés de ser dominado por ela.”

Dr. Antonio Carlos de Souza Aranha é médico antroposófico e terapeuta familiar

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3 pensamentos em “Apresente seu filho à tecnologia: leve-o para acampar

  1. Esse post foi escrito pra mim ! Conversei sobre isso com uma colega, q embora mei filho tenha 16 meses, eu já me preocupo com a precoce inclusão tecnológica, e eu queria afastar o meu filho disso, sem aliená-lo, claro, mas priorizar o brincar, em sua plenitude. Me apresentaram o método Waldorf, mas infelizmente não tem muitas opções de escolas, mesmo em SP. De todo modo, cabe a mim incutir nele os valores que acredito serem essenciais, assim como estimular o brincar “verdadeiro” ! Adorei o post !

  2. que bom, Cristiane. Realmente, a escola Waldorf ajuda,mas é possível de outras maneiras e com outras pedagogias, Boa sorte!

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