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Acabou a Copa, as férias estão chegando ao fim e o ano vai, finalmente, começar no Brasil. E qual foi a coisa mais gostosa dessas férias, com viagens ou não? Pra mim foi sair do rotina! Poder passar duas horas sentada à mesa do café da manhã ou ir dormir tarde sem medo de ser feliz – ou do despertador tocar às 5h50 OH, NO! Mas isso só tem graça porque é uma exceção na rotina e no ritmo do dia. No sítio em que passamos uma parte das férias, pudemos nos esbaldar. Dormir pouco – ou muito. Comer tudo duas vezes – ou não comer nada. Almoçar pizza e jantar milho com marshmallow na fogueira. Mas sabemos que ao final do mês vamos voltar para o arroz-feijão com abóbora diário, para a caminha depois do banho quente às sete da noite, para a lição de casa e para a aula de música às segundas-feiras. E isso também chama-se ritmo: uma pausa na rotina do ano para descansar, ver o mundo e recobrar as forças para o próximo semestre.

O ritmo, diário, semanal, mensal e anual, é essencial para a saúde. A vitalidade, a força que nos mantém saudáveis e com o corpo funcionando, e que se forma nos primeiros sete anos, se forma a partir desse ritmo durante o primeiro setênio. É o tal corpo etérico, ou o corpo vital.  Seu desenvolvimento  tem tudo a ver com o ritmo que estabelecemos para as crianças e como o mantemos ao longo da idade adulta. Claro que podemos viver toda uma vida ignorando que noite é para descansar e dia para trabalhar. Ou que de manhã precisamos abastecer nosso corpo para o dia e à noite comer um pouco menos pra dormir bem, mas uma hora a conta chega. Depois de anos deixando de lado tudo isso, é comum que venha uma crise de stress ou uma doença mais grave. Mas também é bom saber que quem teve uma infância com ritmo e até hoje cultiva isso, vai aguentar com mais saúde quando a vida exige algum tipo de sacrifício. Diz-se que as crises de burn out, um estresse extremo, estão ligadas ao desrespeito total e absoluto aos ritmos que tanto precisamos. E vale dizer que ritmo está ligado a rotina, mas não significa fazer natação na segunda e inglês na quarta. Isso é rotina. Ela ajuda a estabelecer os ritmos, mas para criarmos um ritmo precisamos nos ligar ao que acontece na natureza e ao que vem de dentro de nós. O dr. Alexandre, dentista antroposófico, falou da importância do ritmo para a saúde bucal aqui.

Fui buscar no livro Consultório Pediátrico (que infelizmente está esgotado, mas que você pode conseguir com alguma amiga ou em algum sebo), que é referência para os cuidados com as crianças a partir da visão antroposófica, a importância desse cultivo e como é que se faz isso. Pense na respiração. Para que a gente fique vivo, temos que ir de um extremo a outro constantemente e sem nunca parar, assim vivemos no equilíbrio. Quem inspira pouco tem problemas e quem expira pouco também. Pense no sono diário, período que nos recupera do trabalho e do cansaço do dia, que nos refaz e nos devolve a saúde que perdemos ao longo das horas acordados.

– Ritmo tem uma função reguladora e nos ajuda em qualquer processo de adaptação. Por isso a gente relaxa e os bebês também quando estabelecemos horários para que eles mamem ou se alimentem (com exceção de quem pratica a livre demanda, o que não é meu caso. E, até onde eu sei, não é a indicação da antroposofia).

[Nota da autora: gente, não sou  médica antroposófica e também sei que tem muita gente dizendo que é sem exatamente ser. Então vamos lá: eu me baseei nos médicos que conheço, nos volumes sobre alimentação da Gudrun Burkhard, médica e uma das precussoras da antroposofia no Brasil e no livro Consultório Pediátrico, uma referência de cuidados na medicina antroposófica].

– Ritmo substitui força. Tudo o que acontece ritmicamente tem um gasto de energia menor do que o que precisamos fazer fora do tempo habitual

– Ritmo gera hábitos. E todo mundo sabe que, pra conseguir qualquer coisa nessa vida, hábito é essencial. Seja pra fazer atividade física, estudar, comer bem, formar valores.

– Repetir conscientemente alguma coisa fortalece a vontade. E para as crianças de hoje em dia eu acho isso fundamental: é tão pouco esforço para conseguir qualquer coisa (claro que me refiro à classe média e daí pra cima), que falta vontade muitas vezes.

– Nos relacionamos com a natureza por meio do ritmo pois ele existe naturalmente no dia, no ano, nos planetas, nas plantas, no mar.

O Ritmo do recém-nascido e do bebê

Tudo o que nos adultos acontece de uma maneira sincronizada, não se dá do mesmo jeito no recém-nascido, desde processos metabólicos, hormonais, de sono. Por isso precisamos ensinar as crianças repetindo com elas o que mais tarde será seu ritmo. Uma criança que aos poucos vai ganhando hora certa pra sair da cama e voltar pra ela, que tem um horário certo para o banho, que “sabe” que toda tarde vai dar um  passeio no carrinho e que começa a ter horários para as mamadas, ganha harmonia no funcionamento de todo o organismo, seja dos rins, figado, estômago. Pois os órgãos também têm ritmo. Dar uma voltinha pela calçada ou pelo quintal de manhã para tomar sol e se dar conta que o dia começou, olhar a mãe ou o pai preparar o almoço durante a manhã, escutar os irmãozinhos chegarem da escola e saber que às cinco vem o banho, uma musiquinha de ninar e a hora de ir pro bercinho, dão segurança e trazem saúde para os órgãos.

O ritmo da semana, do mês, do ano

Os nomes de cada dia estão ligados aos planetas regentes desses mesmos dias em algumas línguas (inglês e espanhol, por exemplo. Assim, domingo é sunday (ou dia do Sol, em inglês) e sexta-feira é viernes (ou Vênus, em espanhol). Não é a tôa que isso acontece. Cada dia tem seu ritmo e podemos criar o nosso, baseados nessa força da natureza. Por exemplo, durante a semana o horário de dormir é sempre o mesmo. Aqui em casa, sete e meia da noite, mas cada família tem suas necessidades. Domingo pode ser mais livre, com passeios e waffle no café da manhã, justamente porque é um escape da rotina diária. Procuro receber os amiguinhos do Antonio também sempre no mesmo dia. De preferência na quinta, quando o ritmo de trabalho da semana já vai se relaxando e o final de semana está perto. Então meu filho já espera a quinta-feira pulando.

Na escola Waldorf, são cultivados os ritmos do ano com os trabalhos em torno das estações do ano e das festas, como a Páscoa, o dia de São João e o de São Micael, que marcam, cada uma, o começo de uma nova época para as crianças. Sim, são festas cristãs, mas mesmo as crianças que venham de outras crenças ganham muito com o cultivo do ritmo. Ao saber que tudo sempre vai se repetir, eles criam confiança e segurança na vida. Assim é o aniversário da criança, um ritmo que já falamos aqui, e que merece ser comemorado de um jeito muito especial. E, claro, temos as épocas do ano, que não são tão marcadas no Brasil, mas que se diferenciam por nos levar a uma espécie de respiração da alma: no verão ficamos mais para fora, saímos, e no inverno ficamos mais introspectivos, mais reflexivos, descansamos um pouco mais. Cultivar esse ritmo com a criança é ajudá-la a se ligar à natureza e à saúde que essa conexão traz.

Por Fabi Corrêa

 

 

 

 

 

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12 pensamentos em “Ritmo na infância é saúde pra toda vida

  1. Bom dia! Queria que você explicasse por favor por que a antroposofia não indica a livre demanda!
    Obrigada, beijos.

    • Oi Agnes, como vai? São algumas razões: em primeiro lugar, para fortalecer o sistema digestório da criança, já que o ritmo beneficia todos os processos do corpo. Ter horários para dormir, comer, trabalhar é meio caminho andado para a boa saúde. Depois temos a questão do sono. A cada três horas o bebê entra em sono profundo (é o ritmo circadiano, que todos temos). Então, a cada intervalo de sono leve, ele mama, depois descansa e em seguida aproveita esse sono profundo que é essencial para o seu desenvolvimento. Se ele estiver mamando o tempo todo não vai seguir o tal ritmo. E, por fim, temos a questão educacional. Amamentar é o primeiro ato de educação. A ideia é guiar e orientar as crianças desde cedo para que levem isso para a vida. Mas qual a hora certa? Bem, pode ser que o recém-nascido já venha da maternidade com o ritmo que as enfermeiras estabelecem. Mas se não vier ou se nasceu em casa, vale ir observando para ver se naturalmente ele não cria seu próprio ritmo, geralmente de três em três horas. Com meu filho não foi assim e a pediatra recomendava praticar a livre demanda, mas ele mamava literalmente o dia todo e eu estava esgotada. Então procurei um pediatra antroposófico que me orientou e foi um sucesso amamentar assim: o Antonio se acalmou, continuou ganhando peso e eu pude enfim respirar e ter alguns minutos para comer ou tomar banho, por exemplo. Um beijo e até logo!

  2. Fabi, eu discordo muito dessa posição. A amamentação é muito mais que alimento, é amor e segurança. Durante um salto de desenvolvimento por exemplo, o bebê precisa mamar muito mais, porque está ansioso e inseguro com o que acontece com ele mesmo e precisa voltar para o melhor aconchego que tem: estar conectado com a sua mãe. Quando falamos de recém nascidos isso é ainda mais necessário, eu diria imprescindível.
    Em vários textos que li aqui mesmo fala sobre a pressa. Para que pressa? O bebê ainda está se adaptando a esse mundo. No útero ele se alimentava sempre que queria, quiça até mesmo antes de precisar. Não seria uma mudança muito brusca ‘mamar’ apenas nos horários estabelecidos pelas enfermeiras?? Acho isso um total absurdo.
    Kauã quando nasceu mamava até uma hora e meia e dormia 3 ou 4h. Ele ainda não sabe como sugar corretamente, seu corpo precisa se adaptar ao novo alimento, seu ritmo é lento e preciso, de acordo com sua necessidade. Como ele aprenderia se eu tivesse imposto um horário e um prazo para ele satisfazer sua necessidade primordial? Hoje com um mês e meio ele se alimenta em menos de 10 minutos, mas se algo diferente acontece, se está em um lugar muito barulhento, ou até mesmo se o vizinho acende seu terrível cachimbo, ele abre a boca a procura do peito, a procura de abrigo.
    Impor horário das mamadas (pior ainda por enfermeiras, ou médicos) não é respeitar suas necessidades, muito menos o seu ritmo!

    Eu realmente fiquei chocada com essa posição.

    E como você resolveu o suposto ‘problema’ de demanda do seu filho? Você colocou horários e ele aceitou tranquilamente? Você não usou nenhum suporte para que isso acontecesse?

    Eu não quero discutir, por mais que o texto possa parecer ter esse tom. Acontece que fiquei realmente chocada.
    Acredito que o ritmo é essencial e natural quando estamos sincronizados com a natureza e que isso é um trabalho que o bebê realizará, não os pais (muito menos os médicos que não estão com o bebe todos os dias!). Meu filho dorme com o sol e acorda com ele, não porque eu fiz assim, mas porque ele aprendeu estando conectado com a natureza (com apenas um mês de vida!). Quando ele precisar de mais leite, ele saberá e a forma que irá me dizer será mamando. Quando ele precisar de mais calor e segurança, ele saberá, e me procurará para mamar. Tudo tem o seu tempo, e sem pressa ele ficará independente e seguro, até não precisar mais do peito para isso. Mas será no tempo dele, e não no meu.

    • Oi Agnes, esse é um assunto bem polêmico, sempre que toco nele aqui no blog surgem comentários e não vejo nenhum problema. Mas parto da minha experiência e acho, como eu já disse aqui, que cada mãe será levada pela sua própria intuição e experiência. Como você me perguntou, eu respondi. E falei também a partir do que sei da antroposofia, mas sei ainda que mesmo dentro dessa corrente existem opiniões diferentes, pois a liberdade do ser humano é um fundamento dos ensinamentos deixados por Steiner. Eu não disse que concordo com o que as enfermeiras fazem. Pelo contrário, na maternidade eu fiquei o tempo todo com o Antonio. Também não acho, pessoalmente, que dá para impor um ritmo logo que o bebê chega em casa. Muitas vezes eles fazem isso naturalmente. Agora, se não fazem, como era o caso do meu filho, que já aos seis meses não tinha ritmo algum, eu achei bom estabelecer a partir do que pensava, sentia e a partir do que ouvi no consultório. Fez todo sentido e faz até hoje. Não precisei de suporte para mudar da livre demanda para o ritmo de 3 em 3 horas. No terceiro dia ele já estava adaptado. E eu consegui cuidar dele com muito mais tranquilidade pois tinha tempo de descanso também, assim como ele. Não é sempre que as crianças conseguem se “educar” e, para mim, educar é um ato de amor. E cada um escolhe como vai praticar esse amor. Mas, novamente, não tenho críticas a quem pratica a livre demanda, apenas não serviu para mim. Um beijo e boa sorte!

  3. Olá. Cheguei a esse texto buscando informações sobre antroposofia e escolas waldorf. Ainda estou engatinhando nessas linhas, mas achei importante deixar um comentário aqui. Assim como a Agnes já mencionou, me espantou muito o seguinte trecho do texto: “por isso a gente relaxa quando estabelece horários para que os bebês mamem ou se alimentem (com exceção de quem pratica a livre demanda, o que não é meu caso e também não é a indicação da antroposofia)”. Respeito a opinião de cada pessoa, mas da forma como foi colocado, sobretudo a afirmação final, taxativa (“não é a indicação da antroposofia”), ficou parecendo um dogma. E se eu fosse uma pessoa muito “sensível” (na falta de palavra melhor…), abandonaria minhas buscas por aqui. É claro que não é isso o que farei. Até porque conheço pediatras antroposóficos defensores da livre demanda, mas acho que seria preciso ter um pouco mais de cuidado nas afirmações. Nem que fosse para dizer algo mais genérico, como “… com exceção de quem pratica a livre demanda, o que não é meu caso e também não é consenso na antroposofia”. Desculpe se me intrometi demais, mas foi na intenção de mostrar o lado “de cá”, de quem está buscando novas informações. Abraços!

    • Oi Fernanda, tudo bem? Claro, você faz super bem em procurar novas informações. Até me disseram que há uma médica antroposófica que recomenda a livre demanda e isso vai da liberdade de cada um e de cada família. Mas, como eu tb já disse aqui, até onde sei e pelos médicos com quem já conversei, não é comum a Livre Demanda nessa linha da medicina. Não estou sendo taxativa. A própria Gudrun Burkhard, uma das médicas que trouxe a antroposofia ao Brasil e fundou a Clínica Tobias, um dos centros dessa medicina no país, coloca a importância do estabelecimento do ritmo para as crianças – e não pelas crianças – logo no início da vida. Está em um dos volumes dela sobre alimentação. Não vou citar outros médicos, mas conversei com alguns e foi isso o que ouvi até agora. Mas, claro, é uma opção de cada mãe, de cada família, de cada cuidador. Como a livre demanda é um ponto de luta entre as mães, pela defesa da amamentação e tal, entendo as opiniões em contrário. Mas especificamente dentro da antroposofia ainda não vi essa recomendação. Se você trouxer mais informações e referências, no entanto, serão muito bem vindas. Conhecimento nunca é demais. Um abraço e até logo!

  4. Criei minha filha na rotina, não sabia nada sobre o ritmo antropofosófico como dito no texto, estabeleci essa rotina baseado nas leituras sobre psicologia, da importância da criança ter uma rotina, dela saber de tudo que está acontecendo e quando acontecerá. Claro que no começo foi difícil, mas aos poucos tudo se encaixou, mamadas a cada 3 horas, tudo era dialogado e dito a ela como aconteceria. E depois fiz a mesma coisa com meu segundo filho, 9 anos depois vejo que fiz a escolha certa, são crianças calmas, estudiosas, concentradas e tenho certeza que é graças ao ritmo em que foram criadas.

  5. Olá,
    Adorei este texto e tb sempre segui mais ou menos o ritmo do bebê, que na minha opinião não precisa ficar pendurado mamando o tempo todo. Acho que cada mãe acaba seguindo seu coração e suas verdades, não há certo ou errado. Porém, adoro a antroposofia e suas orientações. Com a minha primeira filha fiz isso meio que “sem saber” pois nunca tinha ouvido falar nem em antroposofia nem em livre demanda, porém, a Carolina foi me mostrando o ritmo dela e eu como mãe, fui aos poucos ensinando um ritmo saudável pra ela, sem pressa, porém buscando uma rotina harmoniosa para ambas. Acho que faz parte do papel de mãe, ensinar os bebês sobre o dia e a noite, sobre qdo se alimentar, faz parte do nosso papel ajudá-los a encarnar, a comer, a dormir, enfim….
    Com minha segunda filha sigo no mesmo caminho e muito feliz! São crianças tranquilas que sempre dormiram bem a noite, consequentemente sou uma mãe feliz tb. Na verdade, o inverso é que é verdadeiro né, mãe feliz=filho feliz por isso temos que encontrar nosso ritmo.
    Hoje conheço a Antroposofia e minha filha frequenta um Jardim Waldorf, só posso dizer que sou grata pelo conhecimento adquirido que só me ajudou com a maternidade.

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