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Essa semana alguém me contou que um menino de 11 anos teve o braço amputado como resultado de ser atacado por um tigre no zoológico. A história é trágica não só pelo final, mas por tudo o que está envolvido nela. Quem me contou culpou o pai da criança que teria incentivado o garoto a se aproximar da jaula. Mas fui procurar saber um pouco mais da história e me deparei com alguns filmes feitos por quem estava no local do menino flertando com o perigo, literalmente na jaula do leão. E aí eu vi duas entrevistas de testemunhas que disseram que, apesar do espanto em ver o garoto se aproximar dos bichos, não fizeram nada pois ele “tem pai, o pai deve lidar com seu filho”. Ou algo assim.

Ok, ele tem pai, que pelo jeito tinha tão pouco juizo quanto ele. Mas eu me pergunto: e as pessoas que ficaram filmando a cena em vez de puxar o menino para fora e tentar evitar um fim trágico – que infelizmente acabou acontecendo. Onde essas pessoas estavam com a cabeça ao achar que fazer um filme “denúncia”, se é que o objetivo era esse mesmo, era mais importante do que chamar um guarda (que também estava fora do seu posto!), de alertar o pai da criança com veemência ou mesmo de puxar o garoto dali? Em toda essa história, foi isso o que mais me indignou. A apatia das pessoas que estavam em volta e falharam, assim com o pai e o Estado falharam, em proteger aquele menino.

Aí essa semana me deparo com um artigo da Rosely Sayão, que admiro muito pois é sempre uma voz sensata, fazendo a mesma pergunta, em um artigo que questiona como estamos cuidando de nossas crianças. E eu digo nossas porque o que você ou eu estamos fazendo com nossos filhos hoje diz respeito ao futuro de toda a sociedade. É em cada criança que vive essa expectativa e responsabilidade, ainda que elas nem desconfiem disso (e devem permanecer assim, inocentes, protegidas e resguardadas). Rosely perguntou “As cenas registradas em vídeos por pessoas que transitavam pelo zoológico (…) são exemplares para nos mostrar como as crianças não nos afetam. Por que ninguém tirou o garoto de lá? Por que apenas avisar o pai ou dizer “cuidado aí, garoto” deu a sensação de dever cumprido? (Quem quiser ler mais clique aqui)

Pois é. Sabe aquelas senhoras que sempre param a gente na rua pra perguntar se a criança não tá com frio, se já mamou ou pra fazer cara feia quando tem um menino correndo no meio do restaurante, com toda razão, nesse caso, não estavam lá. Ou melhor, não bastaram, já que alertar o pai parece não ter sido suficiente. Era mais importante filmar para colocar no Facebook quando a tragédia anunciada já estivesse consumada. Então, faço como Rosely ao perguntar que espécie de sociedade é essa, que inibe um pai que dá uma palmada no bumbum, mas vê uma criança em uma situação de perigo iminente e o máximo que consegue fazer é um filme para postar nas redes sociais. Uma criança é responsabilidade de todos nós, esteja ela no zoológico, dormindo embaixo da ponte ou correndo no meio do restaurante. Ainda que ela esteja sob a guarda de seus pais, todos nós dependemos, em um futuro próximo, do que será feito com ela ao longo de seus primeiros anos de vida. E isso não quer dizer que devemos apontar os erros, mas colaborar como sociedade para que essa criança consiga o melhor que pode ter. Tem uma frase famosa que diz que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. Temos bem mais do que uma aldeia, mas nossas crianças andam bastante desprotegidas.

Por Fabi Corrêa

 

10 pensamentos em “É preciso mais que uma aldeia inteira para educar uma criança

  1. Apatia, negligência, omissão… E o menino peralta, cheio de valentia, aprendeu cedo que toda ação, gera uma reação, que toda escolha, tem consequência… :/ bjs Camila Vaz

    • Camila, uma criança de 11 anos não tem esse discernimento. Por isso existem pais e cuidadores.é muito triste mesmo. Bjo

  2. De acordo. Ótima reflexão e fora da superficialidade com que o tema vem sendo tratado. Muito triste o que aconteceu, triste pois esse pai deve estar sofrendo bastante, triste porque o menino perdeu o braço estupidamente, triste pois não fomos capazes de tirar os olhos da câmera e tomar uma providência, triste pois a grade e o zoológico eram inseguros, triste pois temos a tendência de simplificar e dar uma “monocausa” para uma situação tão complexa que é “multicausal”. E mais triste pois temo que esse seja apenas mais um caso e quando outro surgir não sejamos capazes de pensar e agir para evitar que outra tragédia ocorra (lembram da criança que perdeu um dedo – ou dedos?- na escada rolante de um shopping? Sim, local abarrotado de gente que tem olhos).

  3. Faço minhas as suas palavras desde o momento em que vi o noticiário . A filmagem, no meu entender, provocou mais ainda a vontade de “mostrar do que sou capaz”.Lamentavel a atitude de todos envolvidos. Indignante a idéia de sacrificar o pobre animal atiçado dentro dos seus domínios.

  4. Fabi,

    Dividi este texto com meu pai, que é pai de 3 meninas e avô de 3 netos e um exemplo de educador. Aliás ele é mesmo um educador corporativo a mais de 20 anos. Segue a resposta dele ao email que mandei com este teu post:

    “Texto feito por gente de consciência expandida e sensibilidade superior.

    Para mim, este texto é uma aula de muitas coisas: ética, respeito, responsabilidade social, papel, entre tantas outras.

    Bjs e obrigado por compartilhar.”

    Parabéns e obrigada por nos fazer refletir.

    • Oi, Milena, muito amor pelo seu pai!!!…rs. Feliz dia dos Pais pra ele! Muito obrigada por compartilhar comigo, viu? bjos

  5. O seu texto como sempre me faz refletir sobre me mesma, e perceber o quanto somos ausentes na tarefa de educar, substituindo muitas vezes por dar coisas demais e fazer vontade na culpa de nossa ausência, pois hoje em dia ficamos mais tempo no trabalho do que em casa com nossos filhos. Mês passado vi uma cena que me chateou muito, quando um pai deu a chave do carro para uma criança de três anos ficando sentado em uma mesa logo a frente permitiu que o bb entrasse no carro e ligasse, quando fui falar com ele, me disse que não tinha nada demais, o filho tinha que aprender a se virar e ia começar dirigir cedo e tb se tirasse o bb ele iria chorar.
    Concordo com vc e tb li a matéria do jornal anexa ao seu texto, uma lição de vida! A cada dia aprendo mais!
    Enorme abraço!

    • É, infelizmente muitos pais preferem colocar o filho em uma situação de risco do que dizer “não”. Pena que é assim que as crianças vão continuar quando virarem adultos, sem poder ouvir um “não”.

  6. Cada artigo que leio fico mais entusiasmada e com vontade de ler o que vocês ainda não publicaram. Se todos os pais tivessem a oportunidade de ler estas sábias palavias, com certeza o mundo seria bem melhor.

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