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Hoje de manhã bem cedinho vi mais uma vez uma cena que adoro. Um senhor andando pela rua, parando para conversar com o guarda e com o vendedor de bananas, sem pressa nenhuma. E lá embaixo, mal chegando nos joelhos dele, uma criança descabelada, meio que de pijama, olhando pro chão, procurando bichinhos, olhando pro céu, fazendo coisa alguma. Nem ele e nem ela. Sem pressa, sem compromissos, sem correria, sem horários a não ser o do café da manhã e o do almoço. E eu, apressada, saindo do pilates e indo para o supermercado, com reunião marcada pras 9h30 e almoço de trabalho às 13h, cheia de emails pra responder e propostas pra enviar, fotos pra postar no Instagram e parabéns pra dar no Facebook.

Mas aqueles dois…Aqueles dois, não. Eles não tinham absolutamente nada mais importante do que seguir a joaninha no chão e conversar fiado com o bananeiro (outro velhinho simpático, que apesar de carregar seu carrinho pesado o dia inteiro, sempre tem tempo de ser gentil). Aqueles dois estavam fazendo exatamente o que a vida lhes propunha naquele momento, e o que podia ser mais importante? Sem emails, sem Facebook ou Instagram, sem a prestação do carro ou da casa, sem a escola cara das crianças ou o jantar com os amigos, o que sobra? Sobra o tempo passando bem devagarinho e eles aproveitando cada minutinho sem pensar que estão mesmo aproveitando. Crianças e velhos (e não me corrijam para idoso porque essa é mais uma tentativa do nosso mundo em disfarçar as coisas que realmente são) são um exemplo de sabedoria mesmo que nunca se dêem conta. Eles reduzem a vida ao essencial e alongam os dias lindamente. Já eliminaram, ou ainda nem eliminaram, contas demais, despesas extraordinárias, reuniões intermináveis e empregos que não fazem sentido. Pessoas que atrapalham, compromissos desnecessários e tanques para encher de gasolina. Viagens caras de reveillón (eles podem ir a qualquer época do ano e aproveitar os descontos), sapatos novos para o casamento e uma máquina de café Nespresso novinha, porque a minha já ficou obsoleta. Também não tem iPhone, graças a Deus. Assim podem passar horas descabelados, passeando pelas ruas, meio que de pijama, olhando as joaninhas e as bananas maduras. Quem sabe melhor aproveitar a lentidão de uma criança, que seu vovô? Tenho saudade de ser criança. E não vejo a hora de virar uma velhinha.

Por Fabi Corrêa

7 pensamentos em “Crianças e velhos

  1. Belissima reflexao sobre os extremos da vida. Hoje de manha ao sair de casa observarmos a adoelescente teclando e a mae segurando seu braço para atravessar a rua. Entao eu e meu marido ficamos pensando, a que ponto chegamos…. agora com alguns minutos do trabalho leio seu texto e percebo o quanto é importante que meu filho conviva com os avós…. com eles que mal sequer sabem usar o telefone e tem tempo integral para acompanhar suas peraltices.
    Obrigada por nos abrir os olhos para detalhes tao importantes do dia a dia.

    • Oi Marcia, pois é, por outro lado temos adolescentes completamente desligados do agora, do presente, sugados pelas telinhas dos celulares e computadores….

  2. Concordo que é uma imagem linda, e uma fase linda que já vivi (ser criança) e espero viver (ser velha). Mas a velhice só terá essa plenitude depois de uma vida de adulto de trabalho (que não precisa te matar, mas que precisa ser digno e te prover o sustento de hoje e o de amanhã, bem como o das crianças a sua volta). Para além disso, precisa deixar você com lembranças incríveis! Então, não podemos menosprezar os “empregos que não fazem sentido”. Quase todos eles fazem todo o sentido! Ao ser velha quero poder não precisar mais marcar o tempo, mas ter a certeza de que durante o período em que fiz isso deixei frutos e fui útil na construção de um mundo melhor. Assim me sinto hoje no meu emprego, graças a Deus!

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