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Já parou para pensar que as crianças nunca foram o foco da vida de tantos adultos como está acontecendo agora? (Sim, também temos o outro extremo, mas nesse texto vou falar deste) Será que isso é saudável? Será que existe alguma coisa por trás desse desejo de ser tão boa mãe e tão bom pai?

Há um tempinho atrás, li este texto sobre “Infantolatria” e fiquei um pouco assustada, confusa e muito reflexiva. Mais do que isso, observando que muitas mães não falam de outro assunto a não ser os filhos foi me surgindo medo do que vai ser o futuro de crianças criadas com mães que (como eu) os colocam como prioridade (todo o tempo durante anos a fio). Vi o comediante Seinfeld falando sobre a rotina da hora de dormir dos filhos: “Eu li 8 livros para aprender sobre como fazer a rotina da hora de dormir com meus filhos. Ela parece o Jubileu do Centenário de Coroação Real e involve um processo que começa com a lavagem de placas e aparelhos dentários e termina com um semi-círculo de apoio emocional formado por animais de pelúcia. E no fim, ele disse: Sabe qual era minha rotina para dormir? Escuridão. Se quiser dar risadas, o vídeo está aqui. ( a partir da marca de 3:50)

E como por trás de boas piadas costumam haver duras verdades, será que estamos mesmo errando? Acho que vale a pena refletir. Vamos lá:

  • O ego sempre nos persegue na busca da resposta “quem sou eu?”. No fundo você não é nada demais, só um ser humano. Igual aos outros. Mas você (eu e todo mundo) quer ser diferente, quer ser especial. E a maternidade entra então como opção para preencher essa resposta em branco. “Eu sou mãe e das boas!” Assumir esse papel é uma boa opção para o ego de muitas pessoas. Está escrito no livro O despertar de uma nova consciência, do mestre Eckhart Tole: 

Parte da função necessária de ser pai ou mãe é atender as necessidades da criança, impedindo que ela corra perigo. E, às vezes, dizer-lhe o que fazer e o que não fazer. No entanto, quando ser pai ou mãe se torna uma identidade, ou seja, sempre que nossa percepção do eu é, totalmente ou em grande parte, extraída disso, a função ganha uma ênfase exagerada e nos domina. Prover as necessidades dos filhos assume proporções excessivas e os torna mimados, enquanto impedi-los de correr perigo se transforma em superproteção e interfere na necessidade que eles sentem de explorar o mundo e experimentar coisas novas por si mesmos. Dizer às crianças o que fazer e o que não fazer passa a ser controlar, reprimir. Além disso, a identidade que interpreta um papel permanece atuante por um longo tempo, mesmo depois que essas funções em particular já não são mais necessárias. Assim, pais e mães não conseguem deixar de ser pais até mesmo quando o filho já é adulto. Eles não são capazes de se desvincular da necessidade de serem imprescindíveis a ele. Ainda que o filho já tenha 40 anos de idade, não conseguem abandonar a idéia “eu sei o que é melhor para você”. O papel de pai e mãe continua a ser interpretado compulsivamente, por isso não existe um relacionamento autêntico. Os pais se definem por esse papel e, de forma inconsciente, têm medo de perder a identidade se o abandonarem. Se seu desejo de controlar ou influenciar as ações do filho adulto é contrariado – como costuma acontecer -, eles começam a criticar ou mostrar sua desaprovação ou tentam fazer com que o filho se sinta culpado, tudo numa tentativa não consciente de preservar seu papel, sua identidade. A impressão é de que estão preocupados com o filho, e eles próprios acreditam nisso, mas, na verdade, sua intenção é apenas conservar seu papel-identidade.

Todas as motivações egóicas são voltadas para a autovalorização e o interesse do próprio eu – e algumas vezes elas se disfarçam de forma muito inteligente, até mesmo para a pessoa em quem o ego está atuando. Os pais que se identificam com esse papel também podem tentar se tornar mais completos por meio dos filhos. Assim, a necessidade que o ego tem de manipular os outros para que satisfaçam seu contínuo sentimento de carência é dirigida a eles. Se a maioria dos pressupostos e das motivações inconscientes por trás da compulsão dos pais de manipular os filhos se tornasse consciente e fosse dita, provavelmente incluiria algumas mensagens como estas, senão todas elas: “Quero que você alcance o que eu nunca consegui. Desejo que você seja alguém aos olhos do mundo para que eu também possa ser alguém por seu intermédio. Não me decepcione. Eu me sacrifiquei tanto por você. O objetivo da minha desaprovação em relação a você é fazê-lo se sentir tão culpado e constrangido que, finalmente, atenda meus desejos. Sem contar que sei o que é melhor para você. Eu o amo e continuarei amá-lo se você fizer o que sei que é certo para sua vida.”

Quando fazemos com que essas motivações se tornem conscientes constatamos na hora quanto elas são absurdas. O ego que está por trás delas fica visível, assim como seu distúrbio. Alguns pais com quem falei compreenderam imediatamente: “Meu Deus, era isso o que eu vinha fazendo?” Depois que vemos o que estamos fazendo ou fizemos, percebemos também a futilidade de tudo isso, e esse padrão inconsciente chega ao fim por si mesmo. A consciência é o maior agente para a mudança.

Agora a parte positiva, onde não é o ego que controla mas o seu Ser:

“Como levamos o Ser para a vida de uma família atarefada, para o relacionamento com nossos filhos? A chave é lhes dar atenção. Existem dois tipos de atenção. Um deles podemos chamar de atenção baseada na forma. O outro é a atenção sem forma. A atenção baseada na forma está sempre vinculada de alguma maneira a fazer ou avaliar. “Já fez sua lição de casa? Coma tudo. Arrume seu quarto. Escove os dentes. Faça isso. Pare de fazer aquilo. Vamos logo, apronte-se.” Qual é a próxima tarefa? Essa pergunta resume muito bem aquilo com o que a vida familiar se parece num grande número de lares. A atenção baseada na forma é necessária e tem seu lugar. Porém, se ela for tudo o que existe no relacionamento com os filhos, é porque a dimensão essencial está faltando e o Ser se torna completamente obscurecido pelo fazer, pelas “preocupações mundanas”, como Jesus observou. A atenção sem forma é inseparável da dimensão do Ser. Como ela funciona? Enquanto observamos, escutamos, tocamos ou ajudamos nossos filhos, permanecemos atentos, calmos, inteiramente presentes tudo o que queremos é aquele instante como ele é. Dessa maneira, damos lugar ao Ser. Nesse momento, se estamos presentes, não somos o pai nem a mãe, e sim a atenção, a calma, a presença que está escutando, olhando, tocando e até mesmo falando. Somos o Ser por trás do fazer. 

  • Outro motivo pelo qual não está certo que a família tenha o foco apenas nas crianças é que a vida precisa de ordem. Tenho certeza que você como eu, traz uma boa lembrança da infância de algum momento onde você se sentiu protegido. É isso que toda criança quer, não é? Mas como se sentir seguro e protegido se você é o rei? Se as escolhas estão na sua mão? E pior, a culpa da tristeza da sua mãe, é sua. Porque claro, quem se anula demais, em algum momento vai jogar na cara: você não imagina como eu me sacrifiquei por você. Ou coisa parecida. Agora o filho está na verdade pedindo isso? Se ele for menor de 3 anos, está. E nessa idade acho mesmo que pai e mãe precisam abrir bastante mão da sua individualidade para acolher esse ser indefeso. Já falamos várias vezes no blog, crianças pequenas precisam ser a prioridade de pelo menos 1 adulto da família. Só que 3 anos passam rápido. E antes que o seu filho vira um adolescente daqueles bem chatos e você fique completamennte perdida (porque além de não ter mais tanta função na vida dele, vai estar na menopausa com os hormônios em chama) é preciso agir.

E quando falo disso lembro da minha experiência fazendo terapia de Constelação Familiar. Vou tentar resumir aqui:

Bert Hellinger, terapeuta e pensador, descobriu ao longo de 30 anos de trabalho determinado, sério e devotado uma série de leis ocultas que atuam sobre as pessoas, grupos, famílias e nações. Essas leis vem sendo ignoradas por toda história da humanidade, causando grandes distúrbios, conflitos e dores em escala individual e coletiva.

  • A primeira lei se refere à pertinência: Todos têm o igual direito de pertencer.
  • A segunda lei se refere ao equilíbrio entre dar e receber.
  • A terceira lei diz que há uma hierarquia de tempo: os mais antigos vêm primeiro e os mais novos vêm depois.

“Muita gente julga que o amor tem o poder de superar tudo, que é preciso apenas amar bastante e tudo ficará bem. (…) Para que o amor dê certo, é preciso que exista alguma outra coisa ao lado dele. É necessário que haja o conhecimento e o reconhecimento de uma ordem oculta do amor.”

Ou seja, é preciso preencher a concha do amor, não apenas dar. É preciso respeitar a hierarquia. Crianças não podem ser o centro e o núcleo da família durante todo o tempo. Eu sei que é difícil. E que somos uma geração de pais ou ausentes de mais ou presentes de mais. Mas vale lembrar que o equilíbrio nunca fez mal a ninguém. E se além disso, a gente refletir um pouco sobre o papel do ego na nossa vida, acho que descobrimos que a melhor maneira de estar com nossos filhos não é desempenhando o papel da “boa mãe” ou do “bom pai” mas é simplesmente – como tudo que é verdadeiro na vida – estar presente.

Por Cris Leão

17 pensamentos em “Com filhos princesas e reis, quem somos nós?

  1. Ei amigas, Recebo esses textos da Cris Leão e me fazem muito bem! Dá vontade de mandar todos pra vcs…eles sempre me surpreendem. Encaminho outro que me fez refletir bem… na verdade, todos me roubam a atenção total. bjos e boa leitura!!! Nanati

    Date: Mon, 8 Sep 2014 18:50:59 +0000 To: renatadutra@hotmail.com

  2. Prefeito!!!! Que dom , traduziu em palavras e organizou meus pensamentos a respeito deste assunto como eu nunca poderia fazê-lo!!

  3. Cris, parabens pelo seu dom de organizar e escrver. Adoro os textos! escreva sempre pra gente!!! É tanta busca pela perfeição , o medo de não errar que acabamos esquecendo do essencial. Se fazer presente

  4. Olá Cris! Seus textos são ótimos! Ainda não sou mãe, mas sou tia e planejo filhos e estas reflexões me auxiliam muito. Obrigada. Só uma pequena questão: acredito que neste trecho (. “E que somos uma geração de pais ou ausentes de mais ou presentes de mais”.)a palavra “demais” é junta, não? Não publique este comentário por favor, é só uma atenção e dica. Att. Susana

    • Oi Susana, obrigada pelo carinho. Para ser sincera eu fiquei com dúvida nessa frase. Mas pela pesquisa que fiz, vi que quando o que se quer dizer é o contrário de “de menos”, deve-se usar de mais (separado). Será que estou errada? Me ajudem. ; ) Beijos

  5. Nunca li um artigo tão lúcido. Será meu artigo de cabeceira, para sempre me lembrar do que não tenho que fazer rsrsrs

  6. Adorei o texto! è muito importante pensar sobre isso.Tratar os filhos como parte integrante da família e com igual importancia,como uma pessoa que pode dar a sua opinião nas decisões mas que não será responsável por ela é legal.è legal também que o filho perceba que já existia uma rotina antes dele chegar e que ele veio pra participar e agregar e não pra modificar,por mais difícil que isso seja,quando as coisas acontecem assim de forma natural a vida fica mais leve!

  7. Excelente seu artigo! Com a idade de ser avó,que tenho,penso … como seria importante os pais desviarem um pouquinho de tempo gasto com os mimos de seus filhos para se informarem de como melhor tratá-los humanamente! Parabéns!!!

  8. Olá será que vcs podem me passar o email de vcs para que eu possa tirar algumas dúvidas ….. sou mãe de uma menininha de 2 anos que começará a ficar meio período na escolinha em 2015 e muito em dúvida sobre O QUINTAL DO JOÃO MENINO …..

    • Oi Juliana, meu email é cristina.leao@gmail.com
      Mas preciso dizer que tenho MUITAS SAUDADES do Quintal. E todas as mães que são minhas amigas e que já passaram por lá, tb. Minha dica principal é: aproveite! Com filhos pequenos, os pais são muito críticos e essa escola tem muita coisa boa para dar. Beijo

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