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Tanta coisa boa para se fazer no mundo e tanta gente gastando todo seu tempo e dinheiro com a vontade ou a certeza de ser uma princesa. Como se isso fosse importante e como se o título de princesa viesse por auto-promoção. A revista mostra que a princesa, casada com o príncipe William da Inglaterra usa o vestido tal, nossa vamos lá trabalhar 12 horas por dia para comprar um igual. A duquesa usa o carrinho de bebê no valor de R$6.000, que legal! Dá para dividir em quantas parcelas? E como monarquia é uma coisa que passa de uma geração para a outra (tanto a real quanto a inventada) as crianças, principalmente as meninas, são todas princesas. Afinal o vestido que pinica da Disney tem um precinho camarada. Ufa! Me dá 6!

Não estou falando de limitar a imaginação das crianças, de podar a fantasia. Mas desde quando a fantasia precisa vir com a cara da personagem do filme da Disney? Será que assim não estamos é limitando a imaginação em uma brincadeira que supostamente seria encantada? Pior, fazendo elas acreditarem que aquele ideal de beleza (cabelos longos, corpo perfeito) é o melhor que podem alcançar na vida – a única e grande meta.

Recentemente li este artigo escrito por uma professora Waldorf e escritora e o que segue abaixo foi inspirado nele.

Segundo a Pedagogia Waldorf e seus mais de 100 anos de vida, em primeiro lugar, os contos de fadas devem ser ouvidos, não assistidos, pelas crianças. Essa idéia é totalmente suportada por Bruno Bettleheim em “Os Usos do Encantamento” – um trabalho muito importante na análise de contos de fadas em relação à psicologia freudiana. Quando expomos as crianças para o mundo do conto de fadas da Disney e etc, estamos imprimindo imagens que eles podem ou não estar prontos psicologicamente (ou espiritualmente) e estas imagens prontas ficam ali presas e se tornam fixas. Além disso, há uma grande quantidade de “contos de fada propaganda” que é usado para um único propósito – vender coisas! Quando vi o filme do Frozen fiquei encantada com a história e em como foi bem feito. Como boa publicitária, pensei logo, esses caras vão vender muito. No Target (uma espécie de supermercado tem tudo) a prateleira do Frozen está sempre vazia. Até que uma amiga me contou que o Frozen é tão procurado que virou um mercado paralelo. Quando os produtos chegam no Target (que tem os preços bem populares) algumas pessoas compram todo o estoque para vender mais caro na Amazon. E vendem!

“Na Pedagogia Waldorf, tentamos nos restringir a contar contos de fadas para os níveis etários adequados, usando livros com suaves ilustrações impressionistas que deixam muito à imaginação, e dar às crianças vestir-se e brincar com materiais que são simples e abertos aos impulsos criativos da criança.” Diz a professora Christine Nataline.

Não há nada de errado em brincar de ser princesa ou príncipe, mas se tomamos como base a beleza dos contos de fadas, vamos entender que para ser uma verdadeira princesa e um verdadeiro príncipe, os ingredientes necessários não tem estão à venda. Eles são: a gentileza, o respeito aos animais e a todos os seres, a cordialidade, a colaboração, o respeito à hierarquia e aos mais velhos, a generosidade, e enfim, ser bom e verdadeiro. Esses seres nobres devem cuidar dos outros acima de si mesmos. Só então eles podem alcançar a união com o “outro” – o príncipe oposto ou princesa que representa o seu próprio eu superior (não é uma pessoa externa) e, assim fazendo, herdar o “reino” (que é uma expressão de seu próprio estado espiritual de contentamento e iluminação).

Outro exemplo de distorção é a cor rosa – cor do amor na sua forma gentil e inocente. É a cor da afeição e da cordialidade. Infelizmente, a nossa sociedade negativamente corrompeu o significado e até o rosa passou a ser a cor da vaidade e até mesmo da horrível sexualidade precoce. É só pensar na quantidade de crianças usando batons rosa, acessórios rosa brilhantes, quartos rosa cheios de detalhes e excesso de elementos visuais. Agora pense na beleza da cor em si e você vai sentir como simples tecidos de seda rosa, dados para uma criança brincar com sua fantasia são um lindo convite para vivenciar a experiência de ser uma verdadeira princesa. Como nesta foto:

pink girl antes que eles crescam

“A beleza está no que se faz”

As princesas da Disney são todas tão lindas que fica difícil para uma criança não associar a beleza como o grande objetivo da vida. E vamos combinar que com o excesso de propagandas e seus corpos sarados que vemos todos os dias, não precisamos ser mais expostos a isso para lotar as clínicas de estética, ou as clínicas psiquiátricas.

Novamente, nos contos de fadas originais, não vemos nenhuma menção a cabelos loiros, por exemplo. No máximo, “cabelo de ouro”. A grande maioria não entra no detalhe do cabelo. Uma nota sobre a beleza, especialmente em relação ao cabelo. Sim, existe na Branca de Neve, cabelos de ​​ébano. E esta é uma profunda referência às três cores da alquimia Rosacruz – vermelho, branco e preto. Não tem absolutamente nada a ver com características raciais ou mesmo físicas no sentido material.

A maioria dos contos de fadas descrevem a donzela ou princesa como sendo “bonita”, mas não é preciso muito para perceber que nas verdadeiras princesas isso se refere a “beleza” interior. Nas falsas princesas é a beleza exterior que muitas vezes se transforma em feiúra quando a sua condição verdadeira da alma é revelada. A beleza está sempre conectada com as qualidades interiores de compaixão e auto-sacrifício. E nesse sentido, será que estamos ensinando nossas filhas a ser princesas? Tomando como base que as crianças aprendem pelo exemplo: Você passa mais tempo no salão de beleza ou fazendo algo que demonstre sua compaixão pelo outro?

(poema traduzido daqui)

Se você me acha bonita

Eu seria o sol brilhante brincando

Em uma cerejeira.

Se você me acha bonita

Eu saberia os pensamentos dos raios da lua

Na sua dança devagar.

Se você me acha bonita

Eu seguraria

A chave para cavernas

Cheias de ouro.

Se você me acha bonita

Eu iria parecer com uma princesa

Em um livro de contos de fada.

E só para finalizar, achei este artigo no Huffington Post sobre o assunto: “Stop calling my daughter a princess.” (Pare de chamar minha filha de princesa) No fim do artigo, uma lista com adjetivos mais positivos e inspiradores que devemos usar com nossas filhas: Lutadora, Corajosa, Líder, Curiosa, Coração Gentil, Criativa, Forte, Esperta e Generosa. Vamos nessa?

2013-07-22-daughterlabels

Por Cris Leão

Foto: Katerina Plotnikova 

9 pensamentos em “Quem estamos chamando de princesa?

  1. Que lindo!!! Amei seu texto!
    Semana passada no final da tarde(18:30 hs), após um dia de muito trabalho já toda despenteada, peguei meus filhos na brinquedoteca e fomos para casa, quando estava tirando o meu pequenininho de 3 anos da cadeirinha do carro já na garagem de casa: Ele me olhou nos olhos passou a mãozinha nos meus cabelos, e disse com um gesto de amor tão grande que me fez sentir a pessoa mais feliz do mundo ” mamãe vc parece a princesa do filme que eu vi! Você é uma princesa não é? Isso é amor!

  2. O texto da professora que trabalha com pedagogia Waldorf é ótimo! A gente quer ver nossos filhos felizes e compra a fantasia do filme que os encanta. Mas quantos conceitos estão por trás de um um gesto aparentemente tão simples! Até que ponto, ao comprar o figurino de contos de fadas da Disney e de Super homens Marvel para nossos filhos, estamos contribuindo para que eles aprendam que a transformação em princesas e heróis se passa somente pelo aspecto externo?

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