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Uma coisa que me irrita atualmente é esse jeitinho new age de acreditar que o universo vai trazer para você aquilo que você sonhou. Tudo bem, é importante acreditar, o que me irrita é quando a pessoa para aí.

Já vi uma pesquisa científica há muito tempo atrás falando que o otimismo faz o seu corpo acreditar que você já conseguiu. E por isso, seu cérebro não entende que precisa ir atrás. Ele entende que você já tem. Deve ser por isso que uma vez vi uma professora que estava com vários problemas sérios com os alunos e os pais, ela precisava se reinventar para não ser demitida, mas ao invés de encarar o problema de frente, assumir, ela falava “eu acredito que a abundância está chegando na minha vida o tempo todo”. Deve ser por isso também que mulheres com quase 40 anos (ou mais de 40), casadas, que querem ter filhos, não tomam a decisão mas continuam com o discurso de “no dia que eu tiver minhas criançassss” ah???

O que me irrita é a soberba. Tanta gente bacana veio ao mundo com um sonho e sofreu tanto, se reinventou, comeu o pão que o diabo amassou para chegar lá, correu riscos, colocou para fora, enfrentou, mas você, o espertão, o abençoado, vai conseguir só porque acredita. Sim, fazer uma escolha é perder e isso dói. Mas você não quer perder. Quer ficar na corrente do pensamento positivo e enquanto come uma batata frita visualiza o corpinho lindo e sem barriga na praia.

Sinceramente, nas biografias de gente grande que leio, vejo pessoas que acreditavam, arriscavam mas precisavam passar por vários desafios até conquistar. E será que preparamos nossos filhos para isso quando falamos para eles que só basta sonhar?

Saramago morava em um cortiço em Lisboa. Um apartamento pequeno junto com outras famílias. Ele dormia em um colchão no chão onde via baratas andando pela noite. Viu aos 3 anos e meio, o irmão morrer ainda criança porque ficou com pneumonia. Viu a mãe ser agredida física e verbalmente pelo pai várias vezes. Mas naquele inferno que ele vivia, chegavam jornais. E te dando olhar para aquelas palavras, um dia ele aprendeu a ler. Sozinho. Depois ele começou a olhar as publicações do Molière e aprendeu francês. Quando estava na idade escolar, entrou na escola sabendo ler e escrever em duas línguas. No seu livro autobiográfico “As Pequenas Memórias” ele conta que quem vasculhar a sua infância não vai achar pista alguma do adulto que ele se tornaria. Ele se refere a miséria (financeira e afetiva) mas a gente sabe, não existe motor de arranque igual a precisar se esforçar para conseguir.

Pense bem, provavelmente todas as pessoas que você conhece passaram por dificuldades. E por isso precisamos deixar nossos filhos enfrentarem as dificuldades deles. Acreditar que eles conseguem se superar, pode ajudar a realizar os sonhos muito mais do que o tapinha nas costas do “acredita”.

No calor da casa (do amor materno que tudo dá sem pedir nada em troca) fica difícil ir à luta, enfrentar os medos. Lá fora tudo parece tão frio e distante quando estamos bem aconchegados, não é? Mas aí é que precisa entrar o adulto. Aquele que tem experiência de vida. E está ali para fazer o que é o certo. E você sabe o que é certo. Então faça.

Rudolf Steiner diz que quanto mais próximo da luz você chega, mais a sombra aparece. Deve ser por isso que vemos tanta gente ter um sucesso de vida curta, ou desistir quando está no “quase lá”. Não é fácil conseguir. Basta ver o final triste de tantos ídolos.

Querer é um dos verbos mais importantes na Antroposofia. Porque a vida é feita de querer, sentir, pensar e fazer. Enquanto todo o crédito vai para o verbo sonhar.

No artigo recente do New York Times, publicado como resultado de pesquisa realizada pelo professor de psicologia da Universidade de Nova York Gabriele Oettingen:

“Por que o pensamento positivo não atua da maneira que você espera? Meus colegas e eu descobrimos que sonhar com o futuro te acalma, reduz consideravelmente sua pressão arterial, mas também pode tirar de você a energia que precisa para agir e lutar pelos seus objetivos.”

E do texto da Eliane Brum:

“Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.”

Gostaria que o discurso inflamado do otimismo fosse substituído por um discurso inflamado de cordialidade. Que pelo menos parte do nosso tempo possamos doar para fazer desse mundo um lugar com menos impaciência e mais amor. E então, acreditar nessa energia. Ser otimista fazendo boas ações e acreditando que essa energia vai voltar para você. Mas, se por algum desvio energético, isso não acontecer, pelo menos você ganhou em tirar um pouco o foco no seu umbigo.

Sim, eu acredito. Acredito na abundância da vida. Mas os anjos, querubins, arcanjos e deuses podem estar ocupados com coisa mais importante do que exercer a função de fada madrinha.

Mandando muitas energias positivas,

Cris Leão

6 pensamentos em “Acredite no seu filho deixando ele fazer, não dando tapinha nas costas

  1. Esse é bom para cutucar o ego de muita gente!! 🙂 Para complementar, um resultado de pesquisa recente nos EUA: mais de 70% dos jovens entre 12 e 16 anos acreditam (acreditam MESMO!!!) que serão “famosos”!

    Além de otimistas sem estofo, teremos uma invasão de artistinhas sem talento!! hahahaah

    • Sem dúvida! E posso apostar que essa não é só a realidade nos EUA. Basta conversar com professores de adolescentes e dá para perceber como os pais estão com elogios e otimismo preparando os filhos para a fama, mas não para a vida.

  2. Cris, meu pai toda vez que chegavamos com o boletim repleto de boas notas, ele sempre disse “parabéns, mas e? vocês não fizeram mais que a obrigação” Rs um dia perguntei o porquê daquilo, afinal, era um mérito nosso, mereciamos um presente ou qualquer coisa! Ele nos disse que não acreditava que boas notas eram mérito, ir bem nos estudos é obrigação, afinal, se seu objetivo na escola é estudar e aprender, fazê-lo bem feito é o mínimo. Ele queria que tudo que nos propusessemos a fazer, fosse feito pelo objetivo certo, e não apenas pra receber um “tapinha” nas costas, a satisfação do objetivo cumprido é mil vezes melhor do que um elogio vazio.

  3. Também não acredito nessa história de “deseje e o universo trará para você”. Por experiência própria sei que é muito difícil vencer na vida sem ajuda, sem base dos pais, sem estrutura. Não quero que meu filho passe pelas dificuldades que passei e ainda passo. Garanto que elas não me fizeram uma pessoa melhor. Olho todos os dias para meu filho de um ano e digo “Quero que sua vida seja mais fácil que a minha”. Vou trabalhar muito pra que a vida dele seja mais fácil e prazerosa que a minha. Não vejo mérito nenhum em “penei muito mas consegui” prefiro: “consegui, com ajuda foi muito mais fácil”.

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