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Ontem tivemos feira de Ciências na escola do João. E feira de Matemática na Montessori da Maria Teresa. Foi maravilhoso ter ido toda a família para esses dois eventos. Porque ficou muito claro que nenhuma dessas escolas é o que acreditamos.

Na escola pública, tudo é tão insano que eu nem sei o que falar. A quantidade de informação visual na sala de aula. A quantidade de rankings: o melhor em leitura, o melhor em matemática, o melhor em ciências. E depois, os trabalhos retratavam o pior da cultura americana. Eu já morei em NY e sei que americano não é um povo que só come fast-food e consome televisão. Não é. Mas nessa escola parece que sim. Um dos trabalhos era sobre “qual hambúrguer é o mais saudável” (entre McDonald´s, Burguer King e Wendys)  outro era “qual refrigerante evapora mais rápido” e tinha uns dois sobre bala. O resto, era quase tudo sobre produtos. Nessa mesma semana, a escola abriu uma loja. Meu filho comprou um lindo anel para mim e me deu em uma caixinha em formato de coração. Fiquei muito feliz, achei lindo. Mas é impossível não lembrar que nas escolas Waldorf essa é uma época tão bonita, tão rica. E que ele sempre chegou em casa com um lindo trabalho feito à mão de presente. Não é uma questão de gosto pessoal. Essa jornada tem sido intensa no sentido de eu despregar o meu ego da criação dos meus filhos. Mas é só sobre o certo e o errado. (para nós) A melhor notícia do ano para mim foi ver a cara de pasma do meu marido. E no fim da noite, ele falar: “Se você quiser, voltamos para a Escola Waldorf. Essa aqui não dá”. Meu filho estava muito animado na noite porque ele ia apresentar o trabalho da turma. Na escola Waldorf ele foi o São Micael no teatro e falou lindamente durante quase 20 minutos. As pessoas ficaram maravilhadas com a voz alta, a interpretação, a presença, a atenção que ele tinha no palco com os outros colegas, ele fazia a parte dele e agia como um delicado maestro do grupo. Nessa escola eu vi a versão diminuída dele. Lendo um texto em um papel. Um texto sobre o efeito do acido cítrico no leite. Um texto onde claramente ele não entendia nada. A experiência não deu certo, a professora nem estava prestando atenção. Depois um menino mexeu no copo e derrubou o leite na mesa. E a feira de ciências parecia uma coisa para inglês ver. Nenhuma criança envolvida com seu trabalho. Apenas preocupada em vencer o primeiro lugar. Nenhum pai preocupado em conhecer os trabalhos. E distribuição de chips e refrigerante de graça para todo mundo. Conversei outro dia com uma senhora americana e contei o que vivo nessa escola pública, para saber se é só nessa, e ela me disse: “São todas assim. Se eu não tivesse meu emprego e minha família, lutava por essa causa, é muito triste o que estão fazendo com as crianças. Antes não era assim.”

Ciências foi um dos motivos pelos quais escolhemos essa escola pública. Ela é um charter school, o que significa que ela tem uma especialidade, no caso, ciências. No entanto, o trabalho foi levado de forma lamentável do começo ao fim. Nossa sugestão de trabalho era sobre o efeito da luz no comportamento dos gatos. O João é muito fascinado pelos animais e nossa gatinha é tão boazinha que pensamos que ela nos deixaria usá-la como cobaia numa boa. A professora, sem explicar, falou não. Aliás, riscou a opção com caneta e escreveu: “Qual pilha dura mais”. Quando li, pensei: isso eu não faço mesmo. Que diferença faz qual pilha dura mais? E então surgiu a ideia de fazer o trabalho sobre os corantes. Feijões em algodão molhado em copos diferentes. Cada um recebeu uma cor diferente de corante e só um recebeu apenas água. O resultado é que só o feijão sem corante cresceu. E a aplicação é que alimentos com corantes podem ser nocivos aos seres vivos. A professora, sem comentar, deu nota 100. Meu filho apresentou em sala e não teve nenhum retorno da professora. “Ela não falou nada mamãe, ela é muito chata”. Ele só sabe que não ficou entre os 5 primeiros. Vendo a feira de ciências que também aconteceu sem nenhum tipo de discursão ou aprofundamento, ficou claro para mim que é só para inglês ver. Alguns pais se esforçam absurdamente para que os projetos sejam incríveis (tinha um que até piscava) e esses melhores trabalhos ganham créditos e aparecem como destaque para a escola. Mas tudo sem nenhum envolvimento maior com a educação. É apenas sobre competição, correria e individualismo.

joão ciências antes que eles crescam

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Enfim, existem vários artigos recentes sobre o limite de erro em que se chegou o sistema de ensino público americano das escolas públicas. Um deles é este.

Na Montessori a apresentação de matemática também me assustou. Eu acredito que existe ali uma preocupação em ensinar. Eu não lembro como meus professores me ensinaram mas eu sei que para mim a matemática sempre foi uma coisa física, material. Isso é levado ao pé da letra na Montessori. Um é um feijão, 10 são 10 feijões e por ai vai. As crianças trabalham com esses materiais (tangíveis) o tempo todo. Diferente da correria feita no computador (na escola pública), assim estão de fato sendo ensinados. Mas vi que os pais e a própria escola tem uma postura de “fazemos assim para sermos melhores do que os outros”. A competição também estava ali muito forte. (O João comentou comigo: nossa, eles só querem competir com a escola pública? Só falam que são melhores o tempo todo.) E todas as professoras de salto alto. Bem alto. Sombra nos olhos. Posso estar errada, mas não acho que alguém que seja sério no seu trabalho de educação precise de usar salto 15 para mostrar aos pais o trabalho que faz. Talvez isso tenha me incomodado porque continuei sentindo falta de algo mais profundo. Algo que vai além do intelecto e dos resultados acadêmicos. Não havia nada ali nesse sentido. Nem nas palavras, nem nos gestos, nem no visual.

O Huffington Post tem debatido muito sobre o tema educação. Traduzi um deles e espero que esse texto (que li com lágrimas) sirva para clarear o caminho de muitas pessoas nessa tarefa importante que é educar crianças:

Saúde emocional, não obsessão acadêmica

Quando escrevi meu livro, Barefoot in the City, eu coloquei o coração de meu ethos (ética) e filosofia para criar os filhos. Com exceção do meu filho mais velho, meus quatro filhos foram educados no sistema britânico, tanto em casa, no Reino Unido e em escolas internacionais na Ásia. Para mim, com o benefício da retrospectiva, a melhor coisa sobre o sistema de ensino britânico é que ele me dá flexibilidade para afetar a aprendizagem do meu filho. Seu currículo criativo e professores apaixonados também desempenham um grande papel em inspirar os meus filhos a serem motivados internamente, se tornando curiosos intelectuais e grandes oradores.

No entanto, embora eu seja apreciadora do sistema de ensino britânico e o que tem feito para os meus filhos, na verdade, eu sou uma fervorosa defensora da filosofia de educação Waldorf. Simplesmente porque eu acredito no Dalai Lama quando ele diz que “o planeta não precisa de mais pessoas bem-sucedidas”.

“O planeta não precisa de mais pessoas “de sucesso”. O planeta precisa desesperadamente de mais pacificadores, curadores, restauradores, contadores de histórias e amantes de todos os tipos. Ela precisa de pessoas que vivam bem em seus lugares. Precisa de pessoas com coragem moral dispostas a aderir à luta para tornar o mundo habitável e humano e essas qualidades têm pouco a ver com o sucesso do jeito que a nossa cultura apresenta.” – Dalai Lama

Há alguns pais realmente encantadores na Ásia, não só os lendários Tiger Moms. Haslinda Halim da Malásia é uma só, e ela me dá esperança.

Ontem, Haslinda simplificou nossa filosofia (Waldorf) em poucas palavras:

  1. 0-7 anos foco nas mãos e nas coisas boas
  2. 7-14 anos foco no coração e nas coisas bonitas
  3. 14-21 anos foco na cabeça e na verdade
  1. 0-7 anos foco nas mãos e nas coisas boas

Não é nenhum segredo: os meus filhos são leitores tardios. Nunca pude entender a louca corrida para fazer as crianças lerem antes delas estarem prontas para isso. Minha crença é que o foco durante os primeiros anos deve ser gasto inteiramente em ensinar as crianças sobre a sua relação com o mundo em que vivem. Essa relação só pode ser aprendida no fazer, explorar e descobrir, não de livros ou nas instruções. As 24 horas de um dia é apenas o suficiente, uma vez que o mundo é um grande lugar mágico.

As crianças pequenas precisam aprender que eles têm olhos, ouvidos, nariz e pele que lhes permitam interagir com o seu mundo, cultivando um sistema precoce de inteligência emocional. As crianças precisam aprender a usar as mãos também, porque isso lhes empodera. (fazer é poder) Nossos pequenos poderiam cozinhar, fazer jardins, fazer malhas, construir coisas. Ao fazer tudo isso, a criança se sente enraizada e desenvolve um senso claro de si mesma, que vai ajudá-la a se relacionar com o seu mundo e os outros ao seu redor.

Se você alimentar uma criança com coisas boas, ela vai irradiar coisas boas. Georgina se recusava a ler quando criança. Ao invés de ficar com raiva dela e forçando-a a ler, seu pai pacientemente passou anos lendo para ela todas as noites. Ele leu histórias de pônei, ele leu histórias de fadas e ele leu histórias adolescentes. E isso se tornou um momento especial para eles no final de cada dia, algo que ambos esperavam ansiosamente e abraçavam-se, juntamente com um livro. Essas histórias antes de dormir eram mágicas.

Inglês continua sendo a sua matéria mais fraca, porque ela não tem afinidade com a palavra escrita. Mas ela traz uma enorme amplitude e profundidade de conhecimento para a linguagem.

A outra coisa benéfica da fase “mãos e coisas boas” é que todos os meus filhos estão muito confiantes fisicamente. Eles passaram boa parte de sua infância nus ao ar livre, fazendo escalada nos Alpes, em prados ensolarados em algum lugar, lutando ao longo de piscinas de pedra, pulando sobre esterco e jogando um milhão de jogos ao ar livre. Eu simplesmente amo a fisicalidade da Georgina, do jeito que ela olha para o mundo com os braços estendidos, ansiosa para enfrentar os novos desafios de cada dia, com a certeza de que ela está habilitada, no controle e feliz com o seu lugar no mundo. Isso é o que seus primeiros sete anos de vida lhe deram.

  1. 7-14 anos foco no coração e coisas bonitas

Eu tomo o termo “superdotado” em crianças com uma grande pitada de sal, porque a minha crença fundamental é que todas as crianças são superdotadas. E sendo ou não, as crianças ainda têm que desenvolver o mesmo conjunto de habilidades para funcionarem felizes neste mundo, para serem adultos que contribuem para que o Dalai Lama e nossa sabedoria interior falar.

Dois dos meus cinco filhos são matematicamente talentosos, mas eles são educados ao lado de “filhos menores”. Eu procuro nutrir esse talento, mas eu escolho o coração para nutrir mais, porque um bom coração é a plataforma para o dom assentar e servir. É fácil mimar a Georgina e comprar a crença de que eu tenho um jovem Einstein, mas em vez disso, ela aprendeu a matemática a partir de outro matemático entusiasmado Gary Macaulay, amigo de seu pai, em bares, tornando os modelos tetrahexaflaxagon a partir dos porta corpos de cerveja e folhas soltas de papel. Não, ela não recebe tratamento especial, porque ela pode ‘ver’ a matemática.

Georgina não precisa de nossa ajuda quando se trata de trabalhos escolares, mas nós subversivamente nos entrelaçamos na História, Inglês, Matemática, Estudos de Negócios, Ciências e outros assuntos que ela estuda. A razão não é para ajudá-la a conseguir melhores notas – porque ela já está no topo da classe para muitos assuntos – mas para tecer coração e valores para esses assuntos. Afinal, nunca devemos perder de vista o fato de que o valor real de aprender esses assuntos é simplesmente como um guia para nos ajudar a entender mais a nós mesmos e ao nosso mundo, e para saber como podemos tornar o mundo um lugar melhor. Então avante com a Primeira Guerra Mundial, os modelos de avaliação de empresas, câmaras do coração e tetrahexaflaxagons. Eles são bonitos, se forem aprendidos com a beleza no coração, em vez da meta cega de tirar 100%.

  1. 14-21 anos foco na cabeça e na verdade

Entrando nesta fase, Georgina está começando a fazer perguntas difíceis, que alguns pais considerariam ‘grosseiras’. (Esse é o truque amado de pais asiáticos, para repreender uma criança por ter sido rude e assim não precisar responder a perguntas difíceis ou encarar de frente assuntos desconfortáveis). Mas o fato é, Georgina só quer se aprofundar na “verdade”, e aos 14 anos, seus tentáculos são totalmente estendidos para reunir informações para ajudá-la a cognição da “verdade” e encontrar sua própria versão dela.

Mas, como sabemos, a verdade é subjetiva.

Por exemplo, eu acredito que a atenção básica nunca deve estar em mãos privadas. Eu também acredito que o Reino Unido tem um governo fraco no momento. Eu acredito em muitas coisas, que não são necessariamente certas. Eu nunca iria influenciar uma criança a votar no mesmo partido político que eu. Assim, é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança, para lhe dar uma visão equilibrada do mundo para capacitá-la a encontrar seu próprio lugar nele. Somos gratos aos aldeões que nos ajudam a elevar nossa criança. Neste mês, durante a nossa viagem de carro longa para a escola, discutimos a possibilidade de que o vegetarianismo pode ser cruel com alguns animais (perda de habitat, etc), a existência de outras fontes de inteligência no Universo, as práticas de contabilidade criativa e as condições de trabalho do Reino Unido.

Sem exceção, os meus filhos são todos muito bons em provocar, desafiar e defender pontos de vista sobre uma ampla variedade de assuntos, e nunca têm hesitado em expressar as suas opiniões ou envolver as pessoas no debate com seus menos-viajados pais.

Criei um banqueiro de investimento, um oficial da Marinha, um designer de interiores e um promotor imobiliário. O maior triunfo para seu pai e eu, no entanto, não é que temos levantado profissionais de sucesso; em vez disso, somos tomados de profunda alegria na beleza de nossas crianças na forma como eles cuidam de seus avós, a maneira pela qual eles se amam, a sua felicidade inerente e seu compromisso com os valores que nós trouxemos. Eu estou feliz que há agora um estudo acadêmico pela London School of Economics “Centre for Economic Performance” que dá crédito às minhas convicções pessoais profundas. Esse estudo diz que a saúde emocional de uma criança é muito mais importante para os seus níveis de satisfação, como um adulto do que qualquer outro fator. Você pode ler mais sobre o trabalho do professor Richard Layard Senhor aqui.

Desejando um ótimo final de semana para todo mundo. E que as respostas certas apareçam para todos. Ainda em 2014, de preferência. ; )

Cris Leão

8 pensamentos em “Saúde emocional – isso sim é um grande legado a dar aos filhos

  1. Cris obrigada por compartilhar conosco suas reflexões. Estava lendo o texto e lembrando de uma pergunta que te fiz a respeito de minha filha que nunca gostou de estudar. Em cada texto seu eu consigo entender um pouco mais minha filha e até me sinto envergonhada por cobrá-la tanto. Muito obrigada!

    Feliz Natal para você e sua família. Grande beijo!

    • Oi Monica, muito legal ler esse comentário. Os filhos sempre nos ensinam. Feliz Natal para você e sua família também. Beijos

  2. A cada leitura me surpreendo mais com você Cris. Tenho uma visão muito parecida da sua com relação a educação dos filhos.

  3. Cris, leio todos os seus textos e adoro! Como é difícil acertar no caminho da educação dos filhos. A cada dia a gente aprende coisas novas e vê que errou em algumas escolhas anteriores. Mas o mais importante é ter a vontade e disposição de melhorar a cada dia! Obrigada!

    • Com diz o Rudolf Steiner, toda educação é auto educação. Por isso é tão intenso, né? Que bom que gosta dos textos! Obrigada.

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