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Quantas vezes você já ouviu: “Meu filho não gosta de dormir cedo.” “Meu filho só come porcaria.” “Ele quer ir pra escolinha.” (mesmo tendo 11 meses e nem sabendo falar) “Ele adora Coca Cola” (porque olha quando alguém abre aquela garrafa vermelha, preta e branca, que solta aquele líquido marrom com bolinhas espumantes e que fazem barulho)

Essas e muitas outras frases são comuns, tão comuns que eu diria que são a regra da relação entre pais e filhos hoje em dia. O pai e a mãe sendo presentes ou não, estando focados na criação dos filhos ou não – perderam a voz e a razão. Quem está decidindo hoje em dia são as crianças. E será que elas sabem o que estão fazendo?

Semana passada assisti um seriado (sobre família e relações humanas) chamado Transparent da Amazon – ganhador do Globo de Outro. O protagonista é um pai divorciado de 70 anos de idade, que decide dividir seu segredo com a família: ele é transexual e se chama Maura. Os três filhos são pessoas completamente egoístas e imaturas, com vidas bagunçadas mas ao mesmo tempo muito humanas. (Todas as histórias são possíveis) A mensagem que percorre os capítulos é de que na verdade só passamos a conhecer nossos pais quando somos adultos e então percebemos como aquelas características nos são familiares e assim conhecemos melhor a nós mesmos.

Eu não gosto muito de assistir televisão. Mas dessa vez fiquei viciada e vi tudo, do começo ao fim. A história, os personagens, os diálogos, tudo é perfeito, tudo é verdadeiro. Para citar duas situações marcantes:

A jovem pergunta aos pais:(faixa de 30 anos, que vive perdida na vida: não sabe se é homem ou mulher, se trabalha, se estuda e entre uma dúvida e outra, bebe muito e usa drogas)

Por que eu não tive Bar Mitzvá (cerimônia judaica)?

Os pais respondem: Porque você não queria.

A jovem: Eu tinha 13 anos!!! Como eu poderia decidir isso?

E na cena final, a família jantando pegando a comida direto da colher na panela e levando a boca, todos falando ao mesmo tempo (sempre cada um só fala de si mesmo). Chega um adolescente (que não foi criado nessa família) e pergunta: “Vocês não fazem oração antes das refeições? Vamos fazer todos de mãos dadas porque assim fica mais forte.” Eles fazem. E pela primeira vez, em todo o seriado, aquela família está em comunhão, está unida.

As famílias mudaram, as mulheres mudaram, os homens mudaram. Mas não vamos esquecer que as crianças ainda precisam das mesmas coisas: precisam de adultos para educá-las. Se engana quem acha que porque tem filho, tem marido, logo tem família. Não. Como tudo na vida que é grande e bonito, ter família dá trabalho. A “família” precisa ser criada: plantada, cuidada, regada para então existir. Nunca perfeita, mas nos limites da existência: existir.

Eu não sei de nada, mas desconfio que para caprichar no arroz e feijão da vida é preciso colocar uma bela pitada de fé, ordem e amor.

Por Cris Leão

31 pensamentos em “Seu filho não sabe o que é melhor para ele

  1. Sempre fico esperando seu texto e pensando o que virá??? Muito bom o texto, este em especial mostrando algo tão simples que vem se perdendo, o respeito.

  2. Cris, amo seus textos!
    Não tenho tido o tempo que gostaria para me dedicar a leitura de todos eles, mas sempre que posso vejo e saio feliz!
    Penso exatamente assim! Me dá uma dor no peito quando veja mães amigas, familiares, deixando a criança livre para o que quiser, mesmo que seja prejudicial, na ideia errônea de que a criança tem vontade própria.
    Que Deus continue abençoando vc e sua família! Que continue dando sabedoria e inspiração! Bjs

  3. Cris, como sempre, incrível! Parabéns, você sempre aborda um tema pertinente, interessante e nos deixa pensar. Adoro ler tudo. Beijos

  4. Adorei o texto. Me fez pensar muito sobre o que uma professora do meu filho disse uma vez.
    Diante dessa modernidade toda de “deixar as crianças escolherem, serem participativas, terem opinião, decidir isso ou aquilo porque isso tudo os prepara para o futuro”, muitas pessoas criticam os pais que conduzem a educação e formação dos filhos, alegando que deveríamos deixá-los soltos, fazendo escolhas e tomando decisões, porque assim como na natureza, os animais, as plantas crescem e se desenvolvem sem precisar de orientações o tempo todo, crescem livres, escolhendo e decidindo por si só, e por isso ficam independentes, fortes, preparados para as adversidades da natureza, da vida, enfim. E essa professora disse: “sim, os animais e as plantas são assim mesmo! Mas ‘ser humano’ não! Se você não orientar, se você não cuidar, ele cresce, ele até vive, ele toma decisões… mas não vira ‘ser humano’, porque para ‘ser humano’ é necessário um processo muito mais complicado do que ser animal e ser planta, por isso não pode se criar sozinho.” É bem por aí!
    Bjs

  5. Respeitar os desejos e vontades de uma criança/adolescente é diferente de ser permissivo. Sou eu quem educo minhas filhas e sei o que é melhor para elas, mas jamais imponho minha vontade. Simplesmente nunca ofereço o que é prejudicial e explico aquilo que creio ser o melhor. Respeito a inteligência e a capacidade de compreensão delas, orientado e participando da vuda delas, mas não com autoritarismo. Aprendo a ser mãe na mesma medida que elas aprendem a ser um ser social. Permissividade é o autoritarismo ao contrário, é covardia diante da responsabilidade de criar filhos conscientes, autônomos e mais humanos.

    • Em princípio e de forma genérica eu até concordo com você e suponho que a autora também. Mas a vida real não funciona de forma genérica nem na teoria. E aí entram as minhas ressalvas.

      A estratégia de não oferecer o que você considera prejudicial até faz sentido e creio que todo mundo emprega isso. Mas não consigo imaginar essa estratégia ter 100% de sucesso sem envolver cárcere privado. E sempre vai ter um parente, escola, colega ou desenho animado para apresentar um “fruto proibido”. Qualquer pai que leva o filho no mercado já passou por isso. Convenhamos, lugar é uma armadilha milimetricamente preparada para fazer seu filho consumir e te fazer pagar a conta.

      Racionalizar e discutir de forma razoável? Lindo, acredito que todo mundo com bom senso tenta seguir isso como diretriz. Mas citando um texto budista que já li por aqui. “Apontar o dedo para a lua não é a lua.

      • Minha filha tem alergia alimentar. Ela não come o que não pode, nem quando eu estou longe. Não critico a forma de ninguém de cuidar de seus filhos e fazer o que acha melhor para eles. Aqui, tudo o que eu disse é o que pratico. O mundo não é perfeito e não sou dona de minhas filhas, em algum momento elas tomarão decisões por elas mesmas. O que digo é o que vivemos aqui. Respeito e incentivo a autonomia de minhas filhas, sem ser permissiva. Não sou perfeita e nem melhor que ninguém. Aliás, tenho muita consciência das minhas falhas como mãe. Todas as formas de maternar, quando há amor envolvido, são válidas. É preciso apenas acolher e informar.

      • Eu entendo, por isso que eu disse que concordo como diretriz. Mas o que entendi desse texto, e concordo, é que em algum momento da criação vai haver o conflito dos filhos desejarem algo que os pais acreditam sinceramente que não lhes será benéfico. E é uma prerrogativa dos pais fazer essa decisão valer. No mais, creio que estamos caindo numa discussão sobre copo meio cheio ou meio vazio.

  6. Nossa… e o que eu escuto as pessoas (principalmente o marido e sua família) me chamando de general, de a “senhora dos horários”. Justamente porque é nisso em que acredito. Eu sei o que é melhor para eles. A hora de dormir é um bom exemplo. Tenho dois bebês, Mateus tem dois anos e Helena tem um. Se eu for deixá-los “decidir”, só vão dormir depois das 22:00, isso se dormirem. E eu não acho certo. Existem vários estudos sobre a importância de crianças dormirem cedo. Fora que é o momento da minha folga, né? Aí, vem os palpiteiros de plantão: “Mas não é melhor eles dormirem mais tarde? Eles não acordarão tão cedo. Deixa ele… Nem está com sono…”. Que saco. Já tive que explicar mil vezes que não. Que criança tem mais é que dormir e acordar cedo, que dormir tarde não significa necessariamente que eles vão acordar tarde e que não, não faço isso por mim. Sempre fui da madrugada. Adoraria poder dormir às duas da manhã a acordas às 10 todos os dias. Mas esta é a Ana sem filhos. A Ana mãe teve que mudar para impôr (sim, impôr) um ritmo mais saudável para as crianças. Fora que, o que de interessante uma criança tem para fazer às 10 da noite? Porque nenhum pai ou mãe está no pique de brincadeiras super divertidas ou educativas a esta hora. Então, faz o quê? Senta a criança ao lado para ver novela e Supercine? Ah, me poupe! Sim, nas minhas crianças quem manda sou eu. Se me achar general, que bata continência! (Uau! Sooei muito poderosa agora! Hahahaha!)

    • : ). Adorei. É isso aí. Esse papo de que criança pode dormir tarde sem problemas é só para os pais poderem ver novela e filmes. Depois coloca o filho de um ano para assistir O Exterminador do Futuro, a criança não dorme nem 1h da manhã e coitado dos pais, deram azar.

  7. Acho próprio de relações de abandono dizer ‘ele não quer’ ou ‘ele não faz’… ou ainda ‘ela é tão madura’ (aos 6 anos) ou ainda ‘ele se cuida sozinho’ (aos 7 anos) como se fossem elogios!

  8. Pingback: Seu filho não sabe o que é melhor para ele |

  9. Pingback: Seu filho não sabe o que é melhor para ele – por Cris Leão |

  10. Gostei!!!

    Se engana quem acha que porque tem filho, tem marido, logo tem família. Não. Como tudo na vida que é grande e bonito, ter família dá trabalho. A “família” precisa ser criada: plantada, cuidada, regada para então existir. Nunca perfeita, mas nos limites da existência: existir.

    Essa parte então…. rsrsrs

    Parabéns!!

  11. Pingback: Seu filho não sabe o que é melhor para ele | Biblioteca Virtual da Antroposofia

  12. Pingback: SEU FILHO NÃO SABE O QUE É MELHOR PARA ELE - Fãs da Psicanálise

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