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Isso é um blog. O que está escrito é minha opinião, minha história e escrevo para ajudar as pessoas porque sei como é difícil mudar de país com crianças. Mas se busca informações mais oficiais, coloquei vários links no fim do texto.

Não sou daquelas pessoas que sonham em um dia morar nos Estados Unidos. Nunca me passou pela cabeça. Mas a vida tem seus movimentos e não controlamos tudo. Cá estou eu há mais de dois anos em Miami. (depois de ter passado 2 anos em NYC) Como já disse, meus filhos estão em duas escolas diferentes. Não por minha vontade, mas a vida, essa danada.

Quando meu filho entrou na escola pública que está agora (uma Charter School) eu fiquei muito triste como já disse, mas aquela parte otimista dizia em voz alta dentro de mim “vai dar tudo certo, escola pública nos Estados Unidos é legal, deixa de ser fresca”. Faz sete meses e já estamos terminando o ano letivo. Porque o calendário letivo aqui é uma loucura. Não existe um mês que não tenha um feriado. Fora os Teacher Planning Day (que significa dia sem aula) mais o recesso da primavera, o recesso do inverno e as férias de verão com mais de 2 meses. No fim, são 4 meses sem aula. Talvez isso explique a carga horária de 7 horas por dia e a quantidade de lição de casa. Quem dera se explicasse. O que explica é a política. A vontade de uma minoria fazer dinheiro em cima de uma maioria, nesse caso, as crianças. Uma longa história que não vou explorar aqui. Mas é contada nos jornais americanos, é só procurar.

Na escola Waldorf que meus filhos estavam antes, havia uma legião de americanos completamente contra o sistema de ensino local e principalmente as escolas públicas. Hoje eu entendo melhor essas pessoas. No Brasil escola Waldorf não é tão cheia de regras como aqui. Agora eu entendo. Entendo porque os pais assinam o documento que diz: Meu filho não vai assistir televisão, filme, nada de tecnologia. Agora eu entendo porque a maioria das festinhas não tinha doces. Refrigerante é uma palavra proibida. Essas pessoas tiveram a experiência de estar em um escola pública aqui e estavam chocadas, assustadas, pedindo socorro, exagerando para o outro lado para não correr o menor risco de encostar nesse lado que eu estou agora. Porque é muito feio.

Toda semana sai uma matéria em algum importante jornal sobre o absurdo e o tamanho do erro que está sendo cometido nas escolas públicas aqui. (os pais Waldorf estão sempre publicando) Acho interessante, leio e fico com esperança de que, quem sabe um dia, essas vozes serão ouvidas. É muita gente reclamando. E muitos movimentos surgindo também.

Nesse final de semana, li dois artigos que me chamaram a atenção e me fizeram decidir que não posso em sã consciência deixar meu filho nesse lugar. E aqui traduzo as partes que mais me tocaram:

“O problema da tensão pré testes é que na verdade as professoras estão em pânico porque seus salários dependem dos bons resultados dos alunos.”

“Nós fizemos os testes de exemplo em casa. E seria de se esperar que eu, uma mãe com 40 anos de idade, formada e cujo emprego é escrever para adultos, fosse capaz de fazer a prova para meu filho de 8 e 9 anos em alguns minutos sem precisar pensar “hum, espera, isso não é a resposta certa?!” Sim, eu deveria mas não foi o caso. Se eu posso afirmar que duas respostas estão corretas em uma pergunta, a prova é falha.”

“O sistema educacional diz que alunos de 5ª série terão 14 horas de testes. Quatorze. Isso me faz estremecer. Se você me dissesse que eu iria ter 14 horas de testes em um período de duas semanas, eu ia ficar louca. E você quer fazer isso com meu filho de 10/11 anos de idade? A mãe urso começa a dar o seu grito aqui. Isso é não dar às crianças um desenvolvimento apropriado. Ponto final.”

“O MCAT dura cerca de cinco horas e 10 minutos e você precisa fazer para entrar na faculdade de medicina. E o estado da Flórida acha que está tudo certo submeter nossos filhos pequenos a um teste de 14 horas estressantes e cansativas? Resposta fechada soa muito bem quando você diz isso rápido, mas isso significa que alguém ou alguma coisa tem que pontuar esse teste. Um professor, pago a uma quantidade mínima e um computador irão classificar o teste de perguntas fechadas. Não o professor do meu filho que ele vê todos os dias, mas um não-humano que está à procura de respostas automáticas?”

Esses trechos mostram o volume dos testes e a forma incorreta como eles são dados. As escolas públicas dependem financeiramente da nota dos alunos. Logo a pressão é toda em cima deles. Se os alunos vão bem, a escola vai bem. Acontece que os testes são criados por outras pessoas, que não os professores daqueles alunos. E também são avaliados externamente. O material escolar também é triste. Não explica nada. (E a empresa que produz fatura milhões) Os professores também não explicam nada. E no fim, em muitos testes o que conta é a velocidade da execução da prova. (já que são enormes) Por isso, ao invés de ensinar, eles massacram o conteúdo repetidamente para que o aluno faça rápido. E com isso, reduzem em muito o volume do conteúdo. Em matemática meu filho não aprendeu absolutamente NADA nesses meses na escola pública. Como diz um comediante aqui “era ótima aquela época onde falavam de Deus nas escolas, agora estão tirando tudo, tirando até o aprendizado.” Mas como assim: eles ficam 7 horas por dia na escola, sem recreio e aprendem pouco? Pois é, essa é a pergunta que venho me fazendo nos últimos meses.

Temos então estresse das provas, doces toda hora como prêmio, uma cantina que oferece uma comida que nas palavras do meu filho é “o filme de terror das comidas”. Acha que tá ruim? Pois ainda não falei o pior: A GRANDE MAIORIA DAS ESCOLAS PÚBLICAS AQUI NÃO TEM RECREIO. É isso mesmo. Não tem nenhum intervalo. Lembra aquela parte boa de ir para a escola? Não tem. É trabalho. Sem chance de conversar. Afinal você acha que uma professora (mal paga, coitada) vai aguentar mais de 30 alunos conversando em uma sala de aula por 7 horas? Não pode conversar, não pode levantar. As regras são muitas, são rígidas e eu estou tranquila com isso. Mas crianças precisam se mover! Ou no mínimo ter uma pausa. Me conta, você que tem o filho em uma escola pública aqui e que sai falando para todo brasileiro que a escola é uma beleza, você passa 7 horas trabalhando sem nenhum intervalo? Você consegue fazer isso e no fim de uma semana ainda ter saúde?

“Eles se tornaram máquinas que produzem informação ao contrário de ser crianças.” Disse uma mãe no programa de TV, NBC Today.

Claro, cada escola é diferente, então aqui apresento a lei:

Miami–Dade School Board exige que a escola dê 15 minutos de recreio 3 vezes por semana. Ou 20 minutos, 2 vezes por semana a partir do primeiro ano. (primeiro ano do fundamental, crianças com 6 ou 7 anos)

Mas além das 7 horas na escola, a lei diz: uma hora de lição por dia.

Isso é a lei. E nem sempre a lei é respeitada. Algumas escolas denominadas “as melhores” por causa, de novo, dos resultados nos testes não tem recreio nenhum. Zero. E em muitos casos a lição chega a durar 3, 4, 5 horas por dia se estende até o final de semana, feriados, até acabar com a paz na família. Se por um lado temos a imagem de que os americanos chegam em casa e jantam em família com os filhos, na vida real o que acontece é eles chegarem em casa e ajudarem os filhos na lição na mesa do jantar. Mas acredite, não tem nada de relaxante nessa cena.

Esse assunto tem me consumido nos últimos meses. Eu poderia escrever umas 10 páginas aqui contando os detalhes que vi e vivi. Excesso de competição (ranking para tudo), professores e crianças obesas e a reunião de pais é para falar de eventos e seus respectivos doces, falta de senso de comunidade, entre outros. Prefiro virar a página. Ontem matriculei meu filho na escola Montessori onde minha filha estuda. Não é uma maravilha, mas pelo menos eu acredito que vão garantir a saúde e integridade do meu filho dando meia hora de atividade física 4 dias por semana e meia hora de recreio todos os dias.

Para você que está se mudando ou pensa em se mudar para os Estados Unidos, leia muito, se informe, converse com americanos (que têm os filhos na escola HOJE porque essa loucura toda começou em 2005) e sinceramente desejo que encontre uma boa escola particular que você possa pagar.

O problema é meramente político. Não tem nada a ver com as pessoas que trabalham nas escolas. Arne Duncan, Secretária de Educação dos Estados Unidos escreveu no seu blog: “Testing issues today are sucking the oxygen out of the room in a lot of schools.” O Superintendente de Educação de Miami descreve o sistema atual como “too much, too far, too fast.”

Alguns links para quem quiser se informar sobre o assunto:

Our public education system is in deep distress. 

Why schools are failing our boys.

Teacher spends two days as a student and is shocked at what she learns.

Why I can´t “in good conscience” leave my kids in public school. 

Should elementary schools have recess? Some Florida parents fight for break. 

Top 5 reasons why public schools are failing our children. 

Ps: Para você que está com os filhos em uma escola Waldorf no Brasil mas está com vários probleminhas, deixa eu te contar uma coisa, isso não é nada. Fica tranquila/o.

Por Cris Leão

93 pensamentos em “Escola pública nos Estados Unidos é pior do que eu pensava.

  1. Alguém poderia indicar uma escola para crianças de 12 anos em Elizabeth NJ, meu filho adora esportes, tem alguma escola na região que estimula o esporte para os alunos?

  2. Cris, você ainda mora na Flórida? Estou no Texas, devemos nos mudar em julho para a Flórida e queria muito conversar com você sobre escolas aí.

  3. Eu moro nos Estados Unidos por 40 anos meus filhos frequentaram a escola pública em Massapequa em Nova York. Estas escolas preparam meus filhos para a universidade e também para a vida. Eu também nunca tive vontade de ir para lá mas a vida aconteceu. Posso achar e acho válido seus comentários sobre as escolas em Miami porém generalizar todas as escolas nos Estados Unidos não é justo. Eu trabalhei como professora em uma dessas escolas e posso dizer que como todo lugar tem falhas as também tem grandes vantagens que vão muito acima das falhas.

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