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Tem aquela mãe que não quer de jeito nenhum que o filho atrapalhe a vida dela. É aquela que não quer dormir quando o bebê dorme (mas depois fica reclamando que está exausta). É aquela que não quer parar de trabalhar, não quer parar de sair com os amigos, não quer parar de ter tempo para si mesma, mas quer fazer essas três coisas ao mesmo tempo sem perceber que os dias têm 24 horas e para o filho não sobrou nem um minuto. É uma espécie de mãe cavalo, quer que o filho já nasça andando sozinho. É triste. Porque alguns momentos da vida quando não são vividos, são perdidos. Não dá para ter uma relação péssima com um filho adolescente e querer voltar no tempo. O tempo não volta. E por isso ele exige que a gente fique sempre aqui, no presente.

Por outro lado, vejo muitas mães dando demais. Saindo da conta para todos os lados. Conheço mãe que lava o cabelo do filho de 12 anos. Tem mãe que não consegue conversar com as amigas e não falar dos filhos. Tem mãe que parece que encerrou a vida e está nessa espécie de metamorfose, aula intensiva de modelar, viagem a própria infância e tudo que não foi. Isso também está errado.

Mas como encontrar o equilíbrio? Sim, falar do equilíbrio é fácil, quero ver você conseguir levantar os dois braços para cima e colocar uma das pernas no joelho, fazendo um triângulo, na yoga – pose da árvore. Sim, não chama pose do equilibrista, nem daquele animal extraordinário que faz coisas extraordinárias, não. Árvore. Simples. Mas não é.

Algumas mães me escrevem falando “eu não sei se dou conta de parar de trabalhar para cuidar do meu filho o dia inteiro”. E eu respondo “eu também não sei”. Mas algumas coisas eu sei: amamentar faz diferença para a saúde do bebê e do adulto que ele vai se tornar. Também sei que bebê não é criança e criança não é adulto. As fases passam rápido e é preciso respeitar. Mas não esqueça que sua vida também passa rápido. Então antes do pote ficar vazio, pare de dar. E vá encher o pote.

Sim, a vida da mulher não é fácil. Mas a poeta Adélia Prado mostra que pode ser bonita:

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

O nome do poema é “Com Licença Poética” porque ela se refere a este poema do Drummond carregado de peso que ela decide levantar. Quero usar este poema da Adélia Prado como uma metáfora do feminino. Lembrando que todos nós temos o masculino e o feminino dentro de nós. O masculino quer fazer, é a força de ação que temos dentro de nós. O feminino é a acolhida. Por isso estamos bem quando equilibramos essas duas forças dentro de nós. E nisso também podemos relacionar a criação dos nossos filhos. Nesse momento, não dá para viver na euforia alucinógena de produção. Onde a ambição toma conta e você só vê a próxima meta e por isso ficar sem “produzir” materialmente (claro) parece insano. No fim das contas, o que (realmente) importa se você produzir tanto assim? Que diferença faz?

Sabe o que eu acho? O problema é que queremos ser SUPER. Super mães ou super profissionais. Queremos fazer diferença. De certa forma, queremos ser imortais. Posso falar uma coisa? Não vai dar. Vamos ser completamente esquecidos. Varridos mesmo. Lembra a fulana que morava na sua rua há 30 anos atrás? Não, você não lembra. Também não vão lembrar do Steve Jobs daqui há algumas décadas. É triste, mas é assim. A árvore não está se importando.

No livro lindo (e mais triste do mundo) “A Culpa é das Estrelas” um dos personagens fala:

“Os verdadeiros heróis, no fim das contas, não são as pessoas que realizam certas coisas; os verdadeiros heróis são as pessoas que REPARAM nas coisas.”

Então vamos reparar mais. Reparar nos sinais do nosso corpo. Reparar nos olhos dos nossos filhos. Reparar naquele cano quebrado dentro da nossa família. Reparar que aquele bebê está crescendo. Reparar nas descobertas das crianças. Reparar que aquela sementinha que você plantou dentro do seu filho já está florescendo. Reparar no que você tem aprendido. Reparar no que você tem feito bem. Reparar no espetáculo que a natureza dá todo dia. Reparar que depois da chuva, fica sempre melhor. Reparar que você está crescendo com a maternidade, que aquela antiga pessoa não existe mais, mas isso também não é só ruim. Reparar que promover qualidade de vida pode ser melhor do que ser promovido no trabalho. Reparar que você está evoluindo e por mais que ninguém perceba isso, você sabe, então valorize. Reparar tudo aquilo que realmente importa na vida. E se nem assim acertarmos na medida, eu desconfio que vamos, pelo menos, ter vivido.

Para você que conta os dias para seu bebê crescer e então ficar mais fácil, preciso dizer: não vai ficar muito mais fácil. Mas se você souber aproveitar esse caminho, vai ficar muito melhor.

“Para que pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados
das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.” Fernando Pessoa 

Dedico essas flores a todo mundo que está precisando de uma inspiração para ver a vida mais bonita. Elas são flores do mato, dessas que nascem sem ninguém pedir. E estão aqui para te lembrar que tem sempre alguma beleza no seu caminho, você só precisa reparar.

flowers antes que eles crescam flowers2 antes que eles crescam

Ps: A grande aventura da vida é mudar. Se precisa de um empurrão para largar o passado, leia este post.

Por Cris Leão

Foto: Sarah Tuck

24 pensamentos em “Qual é a medida de ser mãe?

  1. Obrigada Cris!!!! Linda mensagem como sempre. Mando sempre para meu marido e ele gosta muito também!!!! Grande ajuda!!!! Obrigada de coração!!!! 😍😚

  2. Eram as palavras que eu precisava. Ansiedade mas. frustração por medo de deixar o filho correr solto e continuar a minha caminhada com ele ao meu lado guiando e orientando. Queria ter o poder de deixado sempre pequeno na inocência eterna dos 2 anos. Tenho ensinado ele a tirar a roupa sozinho, mas tem sido muito difícil saber que daqui uns dias ele não estará mais precisando de mim pra isso. Voltar a minha profissão e deixar ele ir pra escola, acho que realmente vai ser tão difícil quanto ensinar ele a tirar a própria roupa.

    • Que frase linda essa: “Voltar a minha profissão e deixar ele ir pra escola, vai ser tão difícil quanto ensinar ele a tirar a própria roupa.” A vida é difícil mesmo, Cintia. Mas é bonita. : )

  3. Nossa Cris!!! Hoje me arrancou lágrimas…estou num momento difícil pessoal ,mas dentro de mim a mudança é para entender exatamente essas coisas; a medida é minha, mas o reparar tem é a grande sacada…muito obrigada!!!! bjs

  4. Oi Cris! Vc confirmou o q eu já desconfiava risosss…Tudo passa rapido então é bom parar de vez em qdo e reparar…paro na rotina domestica no momento pra tentar tirar a fralda de gêmeos q não querem deixa la kkkkk…aí penso q qdo eu conseguir não vou mais ter bbs…obrigada pelo seu artigo inspirador…beijos

  5. Às vezes não escrevo, mas leio toda semana, viu! Longa vida a este blog. Espero que a mudança de escola esteja reverberando bem na família. Beijos!

  6. Pingback: Melhores textos sobre maternidade: abril 2015 - Roteiro Baby

  7. Texto lindo… Delicado como sempre! Ah.. que medida difícil de achar… Estou em casa com o filhote, desesperada tentando achar uma forma de conciliar carreira e maternidade.. Mas na minha procura, só acho vagas do tipo: de 08:00 às 18:00 com disponibilidade para horas extras e trabalho no fim de semana. Preciso ouvir a minha voz a me apontar uma outra alternativa.

  8. Pingback: A BELEZA DE SER MÃE | Enciclopédia Materna

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