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Minha amiga (e terapeuta Antroposófica) me contou que fez uma festa de aniversário para o filho naquele bom e velho estilo – no quintal da casa. Então uma criança aproximou-se dela e disse: “Mas tia, não tem animadores, o que vamos fazer?” E ela respondeu: “Meu querido, se você com 7 anos e junto com seus amigos não sabe o que fazer, eu fico preocupada. Vai brincar!”

Será que o materialismo tomou conta da gente? A ponto das nossas crianças acharem que precisam o tempo todo de alguma coisa comprada? (Animador, aparelho eletrônico, brinquedo que faz alguma coisa) E com isso os pais precisam trabalhar cada vez mais, porque os filhos precisam “ter” o tempo todo.

Se a fase da imaginação não for vivida (infância), estaremos criando pessoas apenas preparadas para coletar informações e executar. E ainda, patinhos fáceis para o mundo da propaganda e até das drogas (quer coisa mais passiva do que isso?). É isso que queremos?

Na pedagogia Waldorf, as crianças são estimuladas a brincar livremente. E a isso se chama “trabalho” porque uma vez que eles não recebem na escola brinquedos prontos, eles precisam construir. É daí que surgem castelos, reinos feitos de pedras e folhas secas, surgem também problemas que precisam ser resolvidos. E cada dia mais pessoas se juntam nesse pensamento de que a criança brincar livremente e ativamente é fundamental para o desenvolvimento do intelecto e das habilidades do corpo. Fui a uma palestra na escola Montessori da minha filha e as duas médicas palestrantes explicaram que o desenvolvimento é como uma flor, para ser completo precisa de todas as pétalas. Investir apenas no intelecto e com isso deixar a criança sem tempo para brincar, ou até mesmo sem tempo para se movimentar, é prejudicar um desenvolvimento saudável.

O texto abaixo é do Dr.Aranha e eu acredito que não existe texto melhor sobre o assunto.

Dr. Aranha, pediatra antroposófico, fala sobre a necessidade de estimularmos a imaginação infantil com brinquedos simples em vez de recorrer a brinquedos sonoros, coloridos, vibrantes ou eletrônicos. 

A publicidade e a indústria descobriram, faz algum tempo, que as crianças são alvos fáceis para estratégias que estimulam o consumo. Uma parte dessa propaganda conseguiu convencer pais, educadores e até mesmo terapeutas bem intencionados da necessidade de “estimular” as crianças de todas as maneiras. Assim, sons estridentes e repetitivos, cores vibrantes e luzes piscando o tempo todo entraram para o repertório dos itens que, em teoria, ajudam no desenvolvimento de crianças ou mesmo de bebês.

Acontece que brincar é algo natural em toda criança, é assim que ela torna-se ativa em seu ambiente, experimentadora, criativa, descobridora, criadora. Se olharmos para boa parte dos brinquedos, inclusive os educativos e estimulantes, na visão da indústria, eles fazem da criança mera espectadora, ainda que ela tenha que apertar um botão para acender uma luz ou ligar um som a um animalzinho. Nesse caso, ela não está criando nada em sua imaginação, apenas respondendo a um estímulo. E esse brinquedo rouba suas oportunidades de fantasiar, de imaginar, de criar. Tudo isso, mais tarde, vai dificultar a formação da individualidade e do eu.

Qual é o melhor brinquedo, então? É aquele que torna a criança “ativa” – no sentido de que ela vai ativar sua imaginação para completar o que falta naquele objeto. Um simples guardanapo de pano dobrado ou uma colher de pau podem se transformar em uma princesa ou uma girafa. Mas para isso ela terá que criar, algo que só acontece dentro dela. Se o brinquedo for completo, uma princesa com rosto perfeito e vestido radiante ou um caminhão colorido que anda sozinho, não restará espaço para essa imaginação.

João e Leli flauta canudo antes que eles crescam

Sendo assim, fazer sons com objetos da cozinha, como colheres ou panelas, é um brinquedo. Tampinhas de metal, uma bacia com água, gravetos, pedacinhos de madeira e retalhos de tecido logo se transformarão durante a brincadeira: a criança irá equipá-los com sua imaginação, cada vez de uma maneira diferente, uma atividade essencialmente humana. Nada disso é possível com brinquedos que já saem de fábrica cheios de detalhes. E enquanto um pedaço de madeira ou um novelo de lã ajudam a desenvolver o tato, brinquedos de plástico feitos de cores berrantes  tornam grosseiros os sentidos que estão em desenvolvimento. Afinal, se cada madeira tem cores e ranhuras diferentes, se cada tecido é sentido de uma maneira diversa pelos dedinhos curiosos de uma criança, plástico é quase sempre igual.

A relação entre atividade corpórea (eu me refiro ao movimento, não atividades esportivas) e formação cerebral é uma velha conhecida. A melhor prevenção para distúrbios da fala e da dislexia é feita por exercícios de habilidade, equilíbrio e orientação espacial, além de atividades sensoriais. Nos primeiros sete anos de vida, os órgãos dos sentidos e todo o sistema nervoso estão em formação e dependem de estímulos adequados para que não se atrofiem. Uma criança com distúrbios de fala ou com limitações motoras, por exemplo, tem mais dificuldades em manifestar sua individualidade.

Leli balanço antes que eles crescam

Seu filho está no jardim-de-infância? Repare se ele está sendo estimulado em seus sentidos. Se tato, visão, equilíbrio, paladar, audição e a capacidade de fala estão sendo desenvolvidos no contato com materiais diversos, como areia, madeira, lã, pedrinhas, sons harmoniosos e alimentos naturais e saudáveis.

Vai fazer uma festinha de aniversário? Será que é mesmo necessário contratar animadores profissionais? Você deve se lembrar que, até pouco tempo, bastava reunir as crianças em um quintal e deixá-las em paz para que criassem as próprias brincadeiras sem a ajuda de nenhum adulto. Alguns educadores já se perguntam se uma das causas da dependência de drogas e do consumismo estão ligados ao fato de a criança crescer dependente de aparelhos que a entretem continuamente. Não conseguem lidar com o tédio ou passar muito tempo sem nada para fazer, por isso estão sempre olhando para telas, seja durante um jantar com a família ou uma viagem de avião ou de carro. Já sabemos os prejuízos que a fast food traz para a saúde, mas podemos ficar alertas para os fast toys, brinquedos mortos, padronizados, auto-suficientes, que fazem muito bem o papel de distrair e emburrecer as crianças e impedir que sejam espontâneas e criativas.

Por Cris Leão

15 pensamentos em “Menos é mais – também para um desenvolvimento saudável

  1. Perfeito Cris! Não canso de me maravilhar com as invenções de minha bebê de 15 meses usando os utensílios de cozinha, as folhas, a areia da praia… nada de telas! Como as crianças se desenvolvem lindamente quando deixadas livres!

  2. Excelente reflexão mais uma vez, Cris!
    Poderia passar horas lendo textos como este!
    Tento me adequar nessa simplicidade.. Na minha cidade não tem escola Waldorf ainda, mas se tivesse colocaria sem dúvida.
    Não assistimos TV em casa, e procuro me libertar do consumismo que me acompanha por ter sido criada com exageros. Enfim, cada novo post aprendo e aprendo! E tenho indicado ae milhares! Deus te abençoe, querida! 💞😍😘

  3. Tive uma infância livre, com quintal, folhas secas, espaçonaves construídas com tocos de madeiras, balanço em árvore, cozinha arroz em fogãozinho de tijolo, comia jaca, caju, goiaba, manga e abacate direto da árvore… brincava de cuca no meio do bambuzal com minha irmã e aos 15 anos ela começou a usar drogas… Amei o texto, mas dizer que o estilo de brincadeira pode ou não influenciar no uso da droga, não sei…não é só isso, né? Minha filha brinca de Mine Craft e constrói os mundos dela, brinca de Club Penguin e faz com todo cuidado um novo iglu a cada novo cenário e quando termina quer me mostrar, quer explicar como fez e o que pensou… não acho isso ruim, não acho que isso vai leva-la aos mundos da droga.

    • Sim. Como também quem come muitos doces não necessariamente vai ficar com diabetes, mas é mais provável que fique. O que as médicas falaram na palestra é muito simples e muito forte: o desenvolvimento infantil é como uma flor, cada detalhe é uma pétala. A criança que fica muito parada, por exemplo, pode ter problemas de fala e até concentração. Foi feito uma pesquisa que diz que a criança que não se movimenta muito, não está construindo força abdominal para ficar muitas horas sentada, quando for preciso estudar mais velha. Não quer dizer que não consiga, mas para ela vai ser mais difícil. Acho que nossa função de pais é dar para os filhos, no mínimo, um desenvolvimento saudável e não dá para confiar isso a produtos ou tecnologia. É só isso. Mas a receita para sair tudo perfeito, ninguém tem!

  4. Eu acho preocupante essa tendência à passividade que as novas gerações vêm apresentando também acredito que exista alguma relação entre a autonomia e desenvolvimento da imaginação na infância.

    Essa obsessão por formatar a aprendizagem e até o brincar já está mostrando seus efeitos até no mercado de trabalho. Os novos profissionais chegam com currículos tecnicamente bom mas faltam atitudes básicas , como iniciativa, trabalho em equipe e criatividade.

    Essa vida de brinquedos prontos e estímulo incessante pode até ter vantagens, mas acho que está na hora de se observar qual é o seu custo. Eu mesmo ando preocupado com isso em relação à escola do meu filho. E olha que ela se apresenta como sócio-construtivista.

    Sabe, as vezes temo por um futuro parecido com o filme Idiocracy.

  5. Cris, ótimo texto. Você tem sugestão para brincadeiras com bebês ( minha vai fazer 8 meses)? Eu compro fantoches, chocalho de madeira, livros de tecido… mas ela não pode me ver usando o celular ou o computador que só falta andar para chegar perto! Isso que nunca estimulei e nunca coloquei para ver desenho na TV, pois sou contra… e o pior que outro dia ela foi na casa de uns amigos e ficou super envolvida com brinquedos de plástico que tinha lá, e os daqui ela dá pouca bola…
    Eu comprei um livro de brincadeiras criativas baseadas na antroposofia, mas ele é para crianças mais velhas….não encontrei de jeito nenhum a versão para bebês… e tenho receio de criar algumas coisas não próprias para idade dela – para não estimular antes da hora e até mesmo para não machuca-la… o chocalho por exemplo é de madeira e vira e mexe ela dá na cabeça tadinha…. Adoraria se pudesse compartilhar.

    • Oi Bárbara, não tenho nenhuma informação sobre ideias de brincadeiras com bebês. Mas, como disse no texto, acho que os bebês não precisam de muitas coisas. Separe algumas coisas da casa, que não ofereceram perigo, e pronto. Pedaços de pano, colher de pau, revistas que podem ser rasgadas. O importante é que nada seja oferecido na cara do bebê. Porque ele se desenvolve é exatamente buscando o interesse por si mesmo. Pensando assim, a casa vira um espaço mágico de brincadeiras infinitas. (Você só precisa tirar da frente o que ofereça perigo) Uma dica apenas: não compre essa ideia de que os bebês precisam ser estimulados. Não é verdade. Eles não podem ficar presos o dia inteiro, mas ninguém precisa ensinar nada para eles. E aproveite esse fase delícia dos 8 meses! : )

      • Procura Tamara Chubarovsky! Ela tem rimas e brincadeiras com dedos e canções lindissimas!!

  6. Puxa Cris, como sempre um texto maravilhoso! Sempre pensei nisso e minhas filhas até tem brinquedos de personagens, que brincam entre si de casinha, dão nomes diferentes, inventam novas histórias; ao mesmo tempo, constroem seus mundos com as folhas no quintal, com a areia na praça, com almofadas.

    Não damos brinquedos que brincam sozinhos, elas têm brinquedos de madeira, brinquedos antigos (corda, pião). Elas têm infância, a mais saudável que podemos lhes oferecer, longe de tanta tecnologia, mas cheia de criatividade.

    Parabéns pelo texto!

  7. Praia. Não tem brinquedo como a praia. A Criança se suja, cai, se molha, cai, come areia, cai, enfia areia no olho e faz escãndalo, a mãe chupa o olho da criança p/ limpar, dá um picolé (SIM, dá um picolé sim) e a criança se lambuza, vai no mar limpar, toma caldo. Volta para casa exausta e com fome. Come bem, dorme bem.

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