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Não quero escrever um texto sobre a melancolia que sinto desde o dia que o João me entregou o macaco (seu companheiro inseparável a partir de 1 ano de idade). Sem nenhuma cerimônia, sem ajuda de psicólogos, nem de universitários, em um dia qualquer, ele apenas me entregou o macaco e falou: “Mãe, não preciso mais dele para dormir. Pode dar para outra criança.” Eu agarrei o macaco e falei: “Ele fica.” Não quero falar sobre o que sinto quando vejo o casaquinho de lã que foi do João bebê e depois da Maria Teresa bebê e agora vive no cantinho do armário. Não quero falar do dia que eu doei o protetor de cama da Maria Teresa e percebi “Meu Deus, esse é o último objeto específico de criança pequena que ainda tínhamos.” 

Eu quero é fazer deste post uma carta de amor para o João ler no futuro. Como já fiz este para a Maria Teresa. E ao mesmo tempo, fazer deste post uma carta para todas as mães que estão sentindo que a fase dos filhos pequenos não vai passar nunca e por isso precisam arrumar um plano de fuga. Não fuja. Vai passar. E vai chegar o dia que você vai pedir para não passar nunca mais.

Querido João,

Nenhum bebê chorou mais do que você. Minha mãe, que teve 10 irmãos e 5 filhos pode confirmar. A primeira vez que você dormiu 4 horas seguidas em uma noite, você tinha 6 meses. Era difícil ficar em casa com você, porque você só chorava. Era difícil viajar ou sair com você, porque você só chorava. E um dia o médico homeopata, responsável pelas suas primeiras 4 horas de sono na vida, me disse: esse menino vai te dar muitas alegrias, tenha paciência. Mas doutor, ele tá acabando comigo. Tenha paciência. Mas ele mama no peito o tempo todo! Ele vai te dar muitas alegrias, essa fase vai passar. Qualquer outra pessoa que tivesse me dito isso, eu teria ignorado. Mas já disse que ele foi o responsável pelas minhas primeiras 4 horas de sono seguidas em 6 meses? Eu fiz tudo o que esse médico falou e realmente, o João só me dá alegria agora. Eu agradeço por ter escolhido não fugir.

Eu poderia ser ainda uma pessoa que trabalha 12, 16 horas por dia e chamar isso de minha identidade. Mas hoje quando você entrou na cozinha e perguntou o que podia fazer para me ajudar e cozinhamos juntos, eu senti uma prazer enorme em ser quem eu sou. Obrigada por me fazer entender que identidade não tem nada a ver com trabalho, mas com o que você faz com a sua vida.

Eu poderia ainda estar gastando a metade do meu salário em roupas e sapatos, mas na sexta feira quando eu entrei na sua escola (para ser voluntária num evento) e você me deu a mão e olhou para os lados me chamando de mãe bem alto para que todo mundo percebesse que sou sua mãe, eu me senti muito mais bonita do que já tinha sentido com as compras caras.

Eu poderia estar cheia de colegas de trabalho bem modernos, super cheios de dicas descoladas, mas quando você está comigo eu percebo que nunca tive uma companhia tão boa. O jeito que você se preocupa com as pessoas, se preocupa em fazer o que é certo, o jeito que você se entrega no que está fazendo e ao mesmo tempo seu humor negro me fazem sentir uma alegria danada de ter construído, ao longo desses 9 anos, essa nossa relação.

Tenho hoje mais olheira do que tinha antes de você nascer, tenho mais rugas (elas viriam de qualquer maneira), perdi o corpo de quem ia na academia 5 vezes por semana. Mas ganhei um companheiro que veio acabar com a minha solidão. Sempre gostei de ficar sozinha e adorava morar sozinha em Lisboa. Mas um dia eu acordei naquela cama grande, comecei a chorar e liguei para minha amiga Kátia dizendo: Kátia, eu não consigo mais acordar sozinha. Ela morreu de rir. Que drama, Cris. Você não vai ficar sozinha para sempre. Eu sei, Kátia, mas precisa ser agora. Porque eu não aguento mais. Era intenso e verdadeiro o que eu senti naquele momento. Era estranho também porque eu de verdade, amava minha vida. Mas Deus ouviu meu pedido. Um ano depois daquele dia, eu estava casada e grávida. E naquela mesma cama, passaram a dormir três.

Os anos passaram voando e agora vejo que um ciclo está se encerrando para dar lugar a um novo. A vida é assim. Nesse mês vou visitar a Kátia em Lisboa (11 anos depois) para o nascimento do seu segundo filho. Nesse mês termina sua escola e esse nosso primeiro ano difícil de adaptação em uma escola não Waldorf. Nesse mês, voltei a trabalhar (meio período) e estar mais fora de casa. Está difícil para mim perceber que cada dia que passa, você cresce mais e fica mais independente. Mas ao mesmo tempo, sinto que chegou o tempo da colheita.

Eu já não acordo no meio da noite com seu choro. Mas eu vou dormir toda noite com o seu abraço.

Eu já não passo horas lendo livros para você.  Mas eu passo os melhores momentos do meu dia ouvindo você me contar sobre os livros que leu.

Eu já não controlo o tempo todo o que você come, mas fico feliz quando você me fala que ganhou 3 pirulitos na escola, mas devolveu 2 dizendo que 1 já era o suficiente. ; )

Eu já não passo horas do meu dia te mostrando na rua a beleza da natureza porque você não é mais um bebê que passa o dia inteiro comigo, mas agora você me mostra toda a beleza que encontra no caminho quando estamos juntos.

Eu já não canto para te acalmar e te fazer dormir, mas é você que me encanta toda vez que pega no seu violão e começa a tocar. (Eu fico escondida atrás da parede ouvindo tudo.)

Eu já não fico com as costas cansadas de tanto te carregar no colo. É você que alivia o peso dos meus ombros toda vez que me dá a mão.

Eu já não me sinto culpada por não conseguir fazer você parar de chorar. Porque você me mostra que eu fiz bem, apenas por ter ficado ao seu lado.

Eu já não preciso ficar sempre de olho em você em casa, mas fico feliz quando você pede para eu ficar perto.

Seu nome eu decidi quando ouvi uma pessoa falar: “Sabe aquela frase do Caetano: Melhor do que o silêncio só o João?” E essas palavras fizeram um click dentro de mim. Era isso, você era o meu João. Eu não sabia que você ia literalmente tirar o silêncio da minha vida (primeiro com os choros intermináveis, depois com as conversas e perguntas intermináveis e agora com a música,) mas você consegue ser melhor do que o silêncio.

João, você me ensina a ser uma pessoa melhor todos os dias. Você não precisava ter mais nada além da bondade, mas tem. Tem talento para a música, é ótimo aluno, super inteligente e atleta. O que mais uma mãe pode querer? Mas aí você me dá essas cartinhas no Dia das Mães:

Carta João 2 antes que eles crescam  carta João 1 antes que eles crescam

Uma memória especial…

Oi mãe, minha memória especial com você é quando você me abraçou quando eu estava chorando. Eu tive um pesadelo e você me ajudou a entender que não havia nada para eu me preocupar.

Querida mãe, Eu te amo porque você me ama também. Você está sempre comigo, me ajuda, cuida de mim e você me fez seu filho e eu amo como você é doce e gentil. Você me faz muito feliz. Você é uma estrela brilhante. Você tem um grande coração.

Eu também te amo, João. E se meu coração é grande, é porque você esticou. Como já te disse, se eu tivesse mil vidas, queria ser sua mãe em todas elas.

Desejo que quem mergulhe na maternidade como eu mergulhei, possa entender que, por mais que pareça que você só está perdendo, (perdendo amigos, perdendo o corpo de antes, perdendo dinheiro, perdendo carreira) acredite, você está ganhando: um sentido maior para a vida.

“Todos nós chegamos até aqui abrindo mão de muita coisa lá atrás. (…) Ali adiante, na hora de fazer um balanço, o valor não estará nos cifrões, a contabilidade será outra: quantos amigos? quantos sorrisos? quanta felicidade? quanto amor?” Martha Medeiros

Por Cris Leão

61 pensamentos em “Os dias são longos, mas os anos são curtos.

  1. Claro que chorei. Essa carta poderia ater sido escrita por mim para o meu José Marcos,que agora está com 13 anos. Não tive a sorte de poder aproveitar a maternidade como você faz, Cris. Mas sinto que estou sendo, do meu jeito, uma boa mãe. Parabéns e muito obrigada por mais um texto sensacional.

  2. Snif! Já compartilhei com amigas que tem um Joãozinho desse em casa e passa pela mesma fase. Muito lindo!

    P.s.: O médico que você cita é o Dr. Aranha?

  3. Chorando rios aqui, após mais um dessas crises para entender a razão de tentar me equilibrar como freelancer, com perda de renda e de oportunidades de ascensão na carreira, como dona de casa, como mãe e ainda driblar as muitas olheiras. Aí me veio a lembrança da minha filha de 3 anos, correndo para os meus braços com um sorriso largo gritando “mamãe”, demonstrando a maior felicidade do mundo, todo dia quando vou buscá-la na escola. Obrigada pelo seu lindo texto!

  4. Emocionada…..
    Me tocou profundamente!!
    Texto lindo e tranquilizante pra mãe de um bebê de 6 meses dodói qua acorda a mamãe a noite inteira e não está querendo comer nada!

  5. Oi Cris! Sempte leio seus textos e nunca comento, mas esse vc falou pra mim. Demais. Parei de trabalhar ha 6 meses e estou com minha filha de 2anos. A sensação é realmente essa q vc descreveu : de perda. Mas realmente nada superará esse tempo q estou tendo com ela . Estou um pouco preocupada con meu futuro mas o principal sem dúvida o dela. E minha vida realmente tem outro sentido e só tenho a agradecer por ela me permitir fazer coisas q jamais faria e sentir emoçôes q nem sabia q poderiam existir.

  6. Obrigada Cris, por compartilhar suas experiências de uma forma que aquece o coração de quem lê❤️

  7. Vc escreveu com tanta docura, Com tanta verdade e amor… Parece que tirou da garganta o que cada uma de nós mãe sentimos e nem sempre sabemos colocar em palavras…. Parabéns, texto perfeito… E parabéns para o João, que deve ser mesmo um menino incrível!

  8. Sensacional!!! Tenho uma menina de 6 e um menino de 5 meses, tento aproveitar ao máximo. Porque realmente o tempo voa!!!

  9. Texto emocionante, eu fui mais uma das que choraram ao ler. O título é perfeito, meus dias têm sido bastante longos… mas como é bom lembrar dos sorrisos e abraços que compensam essas pequenas renúncias do dia a dia!

  10. Olá Cris,
    Lindas e emocionantes palavras!!! Para mim ainda mais pois, assim como seu filho João, meu filho sempre chorou muito. Tivemos um período bem difícil até a fase da birra passar (ou seja foram praticamente 3 anos de choradeira, birras, nervosismo…e muita paciência!). Acabamos de ver de perto o quão longo podem ser nossos dias mas hoje posso dizer que ele só me dá alegrias tb…não existe companhia melhor!
    Foi a primeira vez que vim no seu blog e certamente voltarei! Parabéns pela Carta de amor…está linda!
    Abracos

  11. Seu texto longo não nos afasta,puxa pra perto!
    Com meus 67 anos e tantas experiências ,com meus 3 filhos homens feitos…com minhas 3 norasfilhas….com meus,por enqto., 5 netos/as…com meus novos desafios que me fazem tão bem…vou te “seguir” ,pra me fazer crescer sempre e mais !
    Obrigada.

  12. Lindas palavras. Linda declaração de amor. Estou naqueles momentos angustiantes: ter ou não ter o segundo filho? Mas suas palavras me fizeram lembrar que vale a pena, e como vale. Meu Francisco esta hj com 4 anos. Foi também muito difícil. Quando dormiu as primeiras 6 horas seguidas já tinha 2 anos e meio. Mas faria tudo de novo. E acho que vou fazer…. bjs e obrigada

  13. Amei!!! Lindo Cris, obrigada por compartilhar conosco esse seu amor lindo e imenso! Estou me desmanchando de tanto chorar… Sou uma mãe como você, sinto tudinho que comentou, tenho duas filhotas, uma de 4 e outra e 1,5 meses, e apesar de quase enlouquecer com tudo, de me olhar no espelho e não mais me reconhecer, de ouvir pessoas falando pra eu ir trabalhar fora… Tenho certeza absoluta de que minha presença na vidinha delas faz e fará pra sempre toda diferença, por isso sou muito feliz por poder cuidar e acompanhar todo desenvolvimento e descobertas delas!!! Obrigada por nós mostrar que tudo vale a pena! Beijo enorme!

  14. Ah Cris! Como você pode descrever em palavras tão grandioso sentimento. Mulher guerreira. Mulheres guerreiras, todas as mães. Hoje sinto que minha pequenina já está se tornando uma mocinha, senti isso quando guardei seus primeiros dentinhos, quando também tirei o protetor de cama pra ela não cair enquanto dorme, mas principalmente quando ouvi ela me dizer que vai dançar quadrilha na escola com o coleguinha e fazendo um plagio de suas palavras ‘que gosta de mim’. Mas estou imensamente feliz pois posso acompanhar todo esse amadurecimento. Espero ansiosamente vê-la moça, tomando decisões, em sua profissão, discutindo coisas comigo. Assim é a vida, o novo sempre vem pra recomeçar tudo outra vez. Grande abraço!

  15. Ahhh que acalanto ler isso!!! Eu estou na fase de perder, perder amigos, perder carreira, perder noites de sono, ganhar olheiras, ganhar um corpo que não me reconheço…, enfim eu to plantando… Que bom ler um texto tão lindo de quem já está colhendo! Bjus

  16. Lindo texto, descreve exatamente aquilo que a maioria de nós sente, sofre, ama, mas não consegue colocar em palavras… Perfeito. Quem dera eles nunca crescecem, mas ao mesmo tempo, como é bom ver o quanto aprenderam, evoluíram, enfim… cresceram!

  17. Esse texto e simplesmente espetacular… Tudo o que eu estava precisando no dia de hoje… A luta está sendo grande com os meus três príncipes… Mais espero conseguir ser uma excelente mãe… Estou fazendo tudo pra que isso aconteça!

  18. Chorando e muito! Perfeito! Tenho 3 riquezas, a mais velha tem 6 anos…e o mais novo 11 meses. A Carta chegou no momento certo! Obrigada… meu João aos 3 anos não vai entender mas com certeza vou ler pra ele um dia…

  19. Que você tem o dom da palavra já sabíamos mas o melhor dos seus talentos e sua sensibilidade em entender e resumir (se é que tem resumo) sentimentos. Bem, sou pai e entendi cada linha que você escreveu e digo mais, o que você escreveu eu penso e vivo todos os dias as vezes com uma certa tristeza porque queria estes momentos o tempo todo a vida toda mas quis o destino que ele não morasse comigo.(aquela coisa de pais separados)Criamos filhos para o mundo, e procuramos dar o melhor de si para esta doce tarefa á de amar e educar nossos filho.O meu filhote se chama Enzo tem 9 anos e como todos os filhos ele é o melhor do mundo.

    Ass. Pai coruja

  20. Republicou isso em as2partese comentado:
    Acho que como todas as mães choro a cada texto lindo como esse e tenho vontade de compartilhar todos. Mas esse não resisti. Faz muito sentido e dispensa comentários.

  21. Tenho 67 anos, entendi o que você relata e hoje acompanho minha primogénita com minhas lindas netas. As estradas são muito parecidas. Gostei muito do texto, rico em sensações amorosas. Amei seu comentário de Madre Tereza, me fez olhar pra trás como filha e entender um pouco mais o que minha mãe pode fazer. Muito, muito grata. Vou seguir você

  22. Meus filhos tem a mesma idade que os seus, parecidos com os seus, rs. Vivi a mesma falta de sono e cansaco nos primeiros 2 anos. Passou. E me sinto com síndrome de Toy Story 3 (quando o Andy vai para a Universidade), chorei ríos quando assisti Intensamente (novo da Pixar) pensando que a Ilha das Bobagens tava caindo logo logo… passa muito rápido. Quero fazer tudo que puder paa preservar e resgatar cada esencia da infancia dele. Mas somos afortunadas de poder nos dar ao luxo de perder carreira e estar com eles…

  23. Puxa…. neste texto eu chorei… chorei mesmo. Que lindo, quanto sentimento em palavras belas. Obrigada por compartilhar esta linda carta destinada ao João =)

  24. Hoje tive muita vontade de “fugir”, de tentar voltar a trabalhar, lembrei do seu texto, reli, e sim, eu ainda tenho muito a dar e receber aos meus pequenos de 2 e 4 anos. Obrigada !

  25. Cris: Este texto foi simplesmente lindo, fantástico e verdadeiramente emocionante! Lendo, relembrei do meu desapego ao trabalho quando o Samuel nasceu. Em 2010 “fugi” de SP para o interior e vivi os melhores 3 anos da minha vida ao lado do meu filho e minha esposa. Tive que voltar em 2013 após o nascimento da minha filha Sarah. Hoje vejo muitos amigos da “velha guarda” cantando a vantagem das promoções, dos altos cargos … e eu quase 40ão voltando agora às especializações seis anos depois pra acompanhar o mercado. Me sinto mais distante das crianças agora, mesmo o Samuel ainda com 6 aninhos 🙂 Mas tenho a certeza que não há nenhum ganho material neste mundo que possa substituir a doce experiência da entrega incodicional aos filhos… às noites em pé carregando aquela pessoazinha agarrada no teu colo como um ursinho panda.
    Muito obrigado por compartilhar este texto magnífico.
    Abraços Fortes.

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