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Uma paródia ao Drummond para falar de nossos dias atuais.

João não amava Teresa (porque ela era tímida.)

que não amava Raimundo (porque ele era gordo.)

que não amava Maria (porque ela era pobre.)

que não amava Joaquim (porque ele era triste) que não amava Lili

que não amava ninguém.

Existe bullying, existe falta de educação, existe um monte de preconceito e com isso vão existindo pessoas que estão completamente focadas no próprio umbigo. Focar no umbigo dá trabalho. Não sobra tempo para enxergar o outro. Então a solução é criar rótulos bem rápidos e rasteiros. “Brasileiro é tudo assim.” “Americano é tudo assado.” “Filho único? Sei como é.” “Aqueles dois ali? É claro que ele não gosta dela. Dá para ver.” Não. Não dá para ver nada enquanto você não abre o olho para o fato de que existem coisas muito além do seu umbigo, das suas verdades, do que você sabe até agora e inclusive, muito além do que você está vendo.

Estou cansada de preconceito, machismo, intolerância, bullying. Na sequência de poucas semanas, vi o vídeo de um pai cortando o cabelo da filha e repreendendo a menina ele dizia “Você sabe porque eu estou fazendo isso, né?” “Você sabe que errou de novo e está sendo punida.” O infeliz colocou esse vídeo no YouTube. Para o mundo inteiro saber como ELE estava fazendo tudo errado. A menina, uma adolescente de 13 anos se matou dias depois. Porque ela sofria bullying na escola e em casa tinha esse pai. Também recebi notícias do menino que sofre bullying porque é muito pequeno, outro porque é negro. A gente pode olhar para isso e pensar: tudo bem, isso não é nada, o tempo cura, não é filho meu mesmo. Mas então você liga a televisão e vê um terrorismo aqui, outro ali, uma violência aqui, outra li. E para. Não dá para fingir que não está vendo o que está acontecendo a sua volta.

Poucos dias depois da tragédia que aconteceu na Carolina do Sul, uma amiga que nasceu nessa região, escreveu no Facebook que mais do que ficarmos chocados com essas mortes, o que devemos fazer (todos nós) é usar nossa força e energia para fazer mais pela comunidade em que vivemos. Plantar a mudança, o respeito ao outro. Acho que isso sim é dar um bom exemplo para nossos filhos. Porque se eles só te veem reclamando, falando mal e xingando todo mundo, adivinha?

Reclamar do chefe, do síndico, do trânsito, do prefeito, do presidente é fácil e é quase uma tentação. Dá até uma certa sensação de que “estou fazendo alguma coisa”. Mas só está engrossando o caldo dessa falta de harmonia e distanciamento entre as pessoas.

Parece que a vida está mais difícil, mas não, ela sempre foi. E a salvação sempre veio com uma boa dose de ordem e amor. Tem bullying na sua escola? Não aceita. Fala com a diretora, fala com a dona da escola, fala que existe uma escola nos Estados Unidos (onde meu filho ficou por um ano) com zero tolerância ao bullying. E que a coisa funciona assim: falou o que não devia, vai embora (expulso mesmo). Não tem conversa, debate, pedido de desculpa. Corta o mal pela raiz. O ambiente fica muito melhor. Afinal, o praticante de bullying é sempre o cara popular e ele não vai querer sair da escola e perder o reinado.

E se você que estiver lendo esse texto está sendo vítima de bullying, presta bem atenção em uma coisa: tudo vai melhorar. São tantos os casos de pessoas que superam. Uma das pessoas mais ricas do mundo (Oprah Winfrey) é negra, era pobre e foi abusada sexualmente na infância pelos tios dela. A vida exige muita força e coragem e o que esses “engraçadinhos” estão fazendo é colocar a munição que você vai precisar ali na frente.

E na contramão da tentação de ser egoísta (porque afinal pensar apenas em si mesmo é muito mais fácil – ou parece ser) uma boa dica é as escolas e os pais valorizarem nas crianças os comportamentos de gentileza com os outros. Vi isso acontecer nas 4 escolas que passei com meus filhos em Miami. Nas duas escolas Waldorf, na escola pública e agora na Montessori. Se o aluno fizer a sua obrigação como tirar notas boas, cumprir as regras, isso é celebrado, mas ainda mais celebrado são os gestos de gentileza. Prêmios, troféus, homenagens e até 25% de desconto em algumas lojas. Sério. Acho válido. Afinal já que a mídia tem (infelizmente) uma boa parcela de participação na educação dos nossos filhos mas apenas com valores como: “é bom ser o mais cool, o mais bonito e o mais rico” acho que na escola e em casa as crianças PRECISAM ter a visão ampliada.

Os bons são maioria. Caso contrário a gente ainda não estaria aqui. Mas não podemos seguir nos escondendo na preguiça, na indiferença, fechando os olhos. Precisamos reduzir as ervas daninhas e regar as flores.

“Não é nossa missão ensinar as crianças a enfrentar o mundo cruel. Nossa missão é educar as crianças que farão do mundo um lugar menos cruel.” L.R. Knost

“Somos animais sociais que precisam de amigos. Nós precisamos de uma comunidade para sobreviver. Amizades são formadas na base da confiança, que apenas cresce se você for gentil com as pessoas. Preconceito, violência e bullying fazem você ficar sem amigos. Gentileza e compaixão fazem florescer em você a auto confiança, o que em troca te dá poder para ser honesto, verdadeiro e transparente. Esta auto-confiança vai te trazer paz de espírito, que resulta em boa saúde.” Dalai Lama

Pais de filhos sofrendo bullying, recomendo a leitura deste livro aqui. (em Inglês)

Link útil (em Português) com tudo sobre bullying (o que fazer, como lidar, como prevenir, etc) aqui

“Para fazer a paz é preciso coragem, muito mais do que para fazer a guerra. É preciso coragem para dizer sim ao encontro e não à briga; sim ao diálogo e não à violência; sim às negociações e não às hostilidades; sim ao respeito dos pactos e não às provocações; sim à sinceridade e não à duplicidade. Para tudo isto, é preciso coragem, grande força de ânimo”. Papa Francisco

Amém! Vamos em frente. Com coragem e amor.

Cris Leão

14 pensamentos em “A virtude da tolerância

  1. Excelente texto, Cris! Não só sobre bullying, mas sobre a gentileza também… é bem aquela frase “seja a mudança que você quer ver no mundo”.

    Gratidão ❤

  2. Você diz que, ” se você estiver sendo vítima”, não se preocupe, “tudo vai melhorar”. Muitas vezes não melhora. Nem todos se recuperam. Carregamos esse peso pra sempre, pois as conexões cerebrais que são criadas na infância determinam nossa percepção de mundo. Tantas vidas prejudicadas, tanto abandono, e por mais que você esteja consciente de que deve virar a página e esquecer, você não consegue.

  3. Bom dia, Cris! Percebo, a partir do que você disse, que o respeito é algo muito importante para você, e por isso o bullying e os demais tipos de intolerância não podem ser aceitos. Concordo com isso. Eu também acredito que devemos ser agentes de melhoria do mundo, como você propôs, e que melhorar o mundo é melhorar as pessoas. Vejo que isso passa, necessariamente, pelo estabelecimento de uma conexão direta com o coração das pessoas, já que as mudanças reais e permanentes são validadas pelo coração. Nesse sentido, é fundamental que consigamos acolher as pessoas, mesmo na diferença, mesmo quando não concordamos com algo que ela fez, porque se essa pessoa não tiver a sua necessidade de respeito atendida, não será capaz de se abrir ao novo. Digo tudo isso porque me preocupou sua aceitação quanto à expulsão imediata “sem conversa, debate, pedido de desculpa. Corta o mal pela raiz”. O mal, nesse caso, é uma criança. Certamente ela precisa de orientação, mas talvez precise mais ainda de amor e acolhimento.

    • Entendo seu ponto de vista. Mas o que presenciei nessa escola que frequentei com meu filho por um ano é que nunca estive em uma ambiente com tantas crianças e com tanto respeito umas pelas outras. Sabe quando você é criança mas está na casa de um “tio” que tem fama de bravo? Ninguém vai fazer “gracinha” na casa desse tio. As crianças lá eram completamente diferentes umas das outras. Eu fui voluntária em vários eventos e posso falar com certeza, não existia bullying. Muito pelo contrário, essa diretora brava era amada e idolatrada pelas crianças. E não só. Havia ali um sentimento de solidariedade que nunca vi. Uma das crianças da classe ficou com leucemia e as colegas nem pensaram duas vezes (quando a amiga começou a perder o cabelo) e cortaram o cabelo também. E esse é só um dos exemplos de solidariedade que vi. Qual escola você vê uma mãe indo levar e buscar os filhos de burca e nunca ninguém aponta, olha estranho, faz piadinha. Isso para mim é um exemplo a ser seguido.

      • Realmente acredito que ali havia solidariedade e respeito. Mas às custas de uma seleção, às custas de expulsar aquelas crianças que não foram respeitosas (conforme o entendimento de respeito da escola). O foco do meu comentário, na verdade, foram as crianças expulsas, aquelas que cometeram bullying, agressão ou qualquer coisa fora do padrão aceito pela escola. É mais fácil segregar e virar as costas para algo que não convém do que acolher, ouvir, entender as necessidades não atendidas que levaram àquele comportamento e agir em prol da criança junto com a família. Não seria um papel da escola ensinar que a mudança de atitude é possível, que as pessoas podem melhorar e que a vida em comunidade inclui lidar com atitudes reprováveis com amor, sem virar as costas para as pessoas? Será que a escola, ao expulsar e selecionar aqueles que a frequentam, está cumprindo o seu papel?

      • Eu entendo perfeitamente seu ponto de vista. Não tenho dúvida de que esse é mundo que todos queremos. Mas estamos longe disso. O que temos é um número enorme de crianças e adolescentes se matando, se drogando, se auto flagelando por sofrer bullying. Ontem li no jornal sobre a epidemia de drogas (medicamentos). Muito disso pode ser poupado se acabarmos com o bullying. E criança precisa de ordem. Como já dizia Freud, somos seres violentos e se vivermos em um ambiente de permissividade, a violência vai acontecer. Precisamos de regras (bem claras) para viver em sociedade. E acredite, isso faz bem para todo mundo. Se existem crianças frágeis em algum ambiente, elas são as mai beneficiadas pela ordem. O que elas mais querem é se sentir seguras.

      • Seguindo na questão levantada pela meninaamor abaixo. Sim, a escola está fazendo uma seleção com os “bullies” mas selecionar é algo necessariamente ruim? Na verdade qualquer bom profissional de RH vai te dizer que uma boa seleção resolve 70% dos problemas. Nem toda a seleção é de valor, quem é bom e quem é ruim. Seleção mas pode ser muito bem utilizada para definir qual a estratégia mais adequada para cada um, um respeito à individualidade.

        Um dos grandes problemas da educação publica no Brasil atual foi que foi feita uma inclusão a qualquer custo e isso foi pago na qualidade do ensino. Entre outros fatores, eu acho que isso aconteceu porque o sistema público tentar criar uma situação que atenda a todos e acaba ficando a meio caminho de lugar nenhum.

        Se um aluno não se assenta bem a uma escola talvez seja melhor ele ir para outra do que forçar a barra para ele ficar. O problema poderia se resolvido procurando uma linha de aprendizagem mais adequada. Para alguns o foco na liberdade é mais útil, para outros na disciplina.

        Somos únicos e variados, a diversidade de teorias de aprendizagem demonstra isso e acho que ela é muito boa, especialmente se pensarmos em sistemas centrados nas necessidades do aluno. Não existe apenas um tipo de escola, existem diversos caminhos para a solução desejada que é educar.

        Enfim, não sou contra a idéia de escolas inclusivas, mas tudo na vida tem limites e nesse aspecto a diversidade de opções pode compensar os limites de inclusão de determinado tipo de escola.

      • Cris, li uma matéria e gostaria de compartilhar com você. Confesso que me causa incômodo o título do post “a virtude da tolerância” versus a abordagem em prol da atitude da escola de selecionar e excluir. Isso só deixa o problema fora do portão da escola, mas não o resolve! E tem como resolver, sem deixar de ser inclusivo:

        “Ao evitar medidas punitivas, nós empoderamos e capacitamos os estudantes a simpatizarem com sua própria experiência e com os outros e a criarem a cultura da comunidade que todos nós intuitivamente desejamos.”

        http://educacaointegral.org.br/noticias/como-cultivar-uma-comunidade-escolar-livre-de-bullying/

      • Obrigada por compartilhar. Acho que qualquer discussão sobre esse assunto é válida. Só quero ressaltar que quando cito a escola com zero tolerância ao bullying, estou fazendo uma pequena passagem no texto. Esta não é a mensagem principal. É só um exemplo de uma prática que vivi e que por mais que pareça (e eu sei que parece) autoritária, traz mais benefícios do que perdas. As crianças se beneficiam muito em estar em um ambiente com regras claras. Elas se sentem seguras. E isso é o primeiro passo para resolver conflitos. Acho que é melhor resolver casos isolados e criar um ambiente seguro e que provoca o convívio com a diversidade do que estar sempre fingindo que não vê os problemas porque simplesmente quando as regras não estão claras na prática fica impossível tomar partido dos casos de bullying em escolas grandes.

  4. Muito bom o post Cris. Comecei a pensar na frase que você citou de que não devemos criar as crianças para viverem em um mundo cruel e sim que elas criem um mundo mais gentil. Gostei muito.

    Beijos.

    Janaina

  5. Cris, essa escola que seu filho ficou por um ano, intolerante ao bullying, era a Waldorf?? E vc consegue falar um pouco mais sobre como era essa intolerância?? Mudando de assunto, uma terceira pergunta: vc ja ouviu falar em “unschooling “?? Tem opinião sobre o assunto?? Bjss

    • Oi Natalia, a escola era pública. Chama Santa Fe Advantage Academy. No site deles é possível ter acesso a política de zero tolerância ao bullying. Já ouvi falar de “unschooling” e acho o máximo. Mas com certeza não é para todo mundo. Depende muito da família, das crianças, do contexto onde vivem. Os pais precisam escolher o que é o melhor para os filhos. Mas entendo que não é porque a criança é muito sonhadora, criativa, que não precisa de estrutura, de cobrança, de ser estimulada nos aspectos onde tem mais dificuldade. (dando um exemplo) Como toda forma de ensino, (e como tudo na vida) sempre se ganha de um lado e se perde de outro. Não existe perfeição. bjs!

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