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Quais são os melhores presentes da vida se não os amigos?

Tive uma infância incrível, numa família linda e cercada de amizades que guardo até hoje no meu coração. Mas aconteceu uma coisa muito curiosa, eu fiquei uns 10 anos sem ver minha amiga vizinha. Sabe aquela que quando você era criança, era só subir no muro e gritar o nome dela que a brincadeira já começava? Pois é, depois de ser mãe, depois de me apaixonar pela pedagogia Waldorf, eu reencontrei essa minha amiga e adivinha? Ela é professora Waldorf. E este é o primeiro post que ela escreve aqui para o blog. Espero que gostem! Eu amei.

Meu nome é Bartira Gotelipe Batista. Fui vizinha e amiga de infância da Cris. Além de brincar com ela das típicas brincadeiras de rua das cidades do interior, tivemos um grupo de Paquitas (rsrsrs), colecionamos papéis de carta, andamos muito de patins, fizemos campanhas de arrecadação de alimentos para carentes, ajudamos a cuidar de crianças em creche, e, claro, já brigamos de puxar cabelo até cair no chão e começar a rir… Resumo: amizade de verdade, cheia de boas lembranças. Mas como a vida muda e o tempo passa, nos distanciamos, mudamos de endereço, fizemos outras amigas e perdemos o contato por um longo tempo.

Numa destas voltas que a vida dá, nos reencontramos e descobrimos que andamos pensando e lendo muita coisa em comum. E, num destes reencontros, ela me convidou pra escrever aqui. Resolvi tentar.

Sou casada, tenho dois filhos e sou professora Waldorf. Ou seja, minha vida é um contínuo analisar de minhas ações, pensamentos e sentimentos. Nada leve, nada simples. Pelo menos não até hoje.

E esta constatação foi o que me levou a querer escrever. Leio os artigos da Cris desde que ela resolveu começar este blog. Gostei de perceber que este “peso” não é só meu. Senti conforto e aceitação. E, no fim do dia, acredito que quem se esforça tanto na criação dos filhos só quer um pouco de conforto, de sensação de dever cumprido, né? Um pouco de leveza…

De tudo o que aprendi durante meus dez anos como professora na Pedagogia Waldorf, o que mais me valeu foi uma conversa que tive com um dos professores do curso de formação. E é ela que quero compartilhar aqui com vocês.

Quem conhece uma escola Waldorf ou já participou dos cursos de formação sabe que o professor de classe (que é o meu caso) precisa estudar diversos conteúdos e ter um conhecimento aprofundado da antropologia antroposófica ou está fadado ao fracasso. Pois bem, após ouvir um dos professores mais antigos e sábios do Brasil, ainda atordoada com tudo o que ele tinha mencionado durante oito dias de curso e com tudo o que eu precisaria estudar e levar em consideração antes de pisar novamente em sala de aula, fui até ele e perguntei: “Mas, professor, se você pudesse resumir todas estas considerações pedagógicas em uma única frase, o que você me diria?”

Ele deu um sorriso com os olhos. Olhou pra mim com satisfação e respondeu:

“O mal não se combate. Reforça-se o Bem.”

Não perguntei mais nada. Ele me deu as costas e saiu. E eu fiquei lá, parada, consciente de que minha vida nunca mais seria a mesma depois daquela conversa.

Isto já faz uns nove anos. E eu realmente nunca mais fui a mesma.

Comecei a observar, primeiro no mundo à minha volta e depois em mim mesma, quanta energia se gasta em combater o mal. E como gastamos pouca energia em reforçar o Bem.

Dá uma observada à sua volta para você ver se não é verdade. É tanta crítica, tanta negatividade, tanta violência e desrespeito… Se você assiste jornal, então, nem sai de casa.

Reforçar o bem, colocar a sua energia no lugar certo, faz toda a diferença. Algumas pessoas fazem isto. Mas são, geralmente, discretas. E aí não dá ibope, né!

Depois de muito matutar, resolvi testar a ideia: comecei em classe. Parei de chamar a atenção dos alunos que não paravam de conversar e passei a parabenizar quem ficava em silêncio. Comecei a elogiar a prontidão para o trabalho, no lugar de criticar quem se atrasava. Ao invés de pedir silêncio, comecei a silenciar. Demorou um pouco no início, mas os alunos foram entendendo minha nova atitude e nossas aulas ficaram muito mais harmoniosas. Claro que às vezes não funcionava, mas aí, ao invés de ficar pedindo silêncio, colocando o foco no que estava ruim, eu começava a escrever algo na lousa e todos iam se organizando. Aos poucos, o silêncio e a concentração chegavam. Simples, sem gritaria nem estresse. Não sei a opinião deles, mas eu acho que virei uma professora mais calma ou, no mínimo, menos chata.

Depois que tive filhos, comecei a tentar com eles também. Levei uma surra. E continuo levando. Filho, para mim, como disse uma vez um amigo, é como uma maleta portátil de autoeducação. Ou você aprende, ou você aprende. Não tem jeito. Os testes parecem não ter fim.

Eu tenho filhos muito diferentes um do outro. E cada um me testa de um jeito.Tem dias que sinto tanta exaustão que, se eu pudesse, ficava assistindo TV com eles a tarde toda. E rasgava meu diploma. Rsrsrs…

Nestas horas, eu sempre paro e penso: como eu reforço o Bem agora?

Cada um tem sua visão de bem. No meu caso, a exaustão de alguns dias eu resolvo saindo para dar uma volta. Caminhar e olhar o mundo muda o foco das crianças e renova minhas energias. E vamos olhando o que há de bonito, cantando, nos esforçando para perceber o que há de bom e belo na nossa rua.

Outras situações típicas: quando a minha filha faz longos escândalos porque a roupa não ficou bem no corpo – ela gosta de tudo, mas tudo mesmo, muito justo e combinando (ela tem só quatro anos, minha gente, e é mais vaidosa que eu); ou quando o meu filho de dois anos joga a comida no chão e começa a rir (coisa que, pra mim, é o fim da picada!) – nessas horas, tenho tentado parar, acalmar e pensar: ignora, mulher! Poe a sua energia no lugar certo. Reforça o Bem, Bartira!

E, ao invés de brigar, perder a paciência e colocar de castigo, por exemplo, penso em formas diversas de olhar pra situação com alegria e ajudar meus filhos a lidarem com suas questões, mantendo as roupas que ela mais gosta sempre limpas e disponíveis e dando parabéns ao meu filho por tudo o que ele comeu e vai deixá-lo “bem fortão”.

Não é fácil. Mas é uma escolha.

A minha vida continua sendo desafiadora, mas se tornou mais leve, mais alegre.

E, para não desanimar, tenho me concentrado em cada dia de uma vez. Tipo Alcóolicos Anônimos. Até porque criticar, ser negativo, só ver o lado ruim de tudo parece ter se tornado uma espécie de vício social. Para combatê-lo, uso este mantra: “Só por hoje, eu vou reforçar o Bem. Vou colocar a minha energia no que é positivo, no que pode dar certo, no que é belo e bom. E antes de dormir, vou me lembrar do que foi bom. Lembrar de tudo o que reforçou o lado Bem da minha vida neste dia.”

Pensa ai que não tem erro: O que é bom e belo pra você? Como você pode reforçar atitudes boas e belas em seus filhos e em você mesma? Assim, na hora que o bicho pegar, que você estiver quase perdendo a linha, reforçar o Bem não vai deixar a sua vida mais fácil. Mas eu te garanto: ela vai ficar mais leve, boa de viver e bonita de se lembrar.

22 pensamentos em “Pedagogia Waldorf em uma frase para te ajudar a viver melhor.

  1. Republicou isso em A(mar) a vidae comentado:
    “O mal não se combate. Reforça-se o Bem.”

    “Só por hoje, eu vou reforçar o Bem. Vou colocar a minha energia no que é positivo, no que pode dar certo, no que é belo e bom. E antes de dormir, vou me lembrar do que foi bom. Lembrar de tudo o que reforçou o lado Bem da minha vida neste dia.”

  2. Obrigada pelas palavras….as vezes nos sentimos muito sozinhas e qdo vemos entramos na roda viva do mundo externo. Obrigada por me lembrar e mostrar esse olhar do Bem!!!

  3. Nossa, quanto aprendizado neste texto!! Minha filha está com 02 anos e 04 meses e na fase de testes e birras então reforçar o bem será meu mantra daqui pra frente.
    Cris, adoro seu blog, me torna uma mãe mais madura e mais sensata a cada leitura.
    Parabéns!! Sou muito grata a você!!

  4. Ótimo texto mas me sentindo anos luz distante de todo este equilíbrio psicológico , emocional e físico. Me questionando se reforçar o bem é realmente possível em qualquer situação. Me sentindo um pouco perdida entre o “reforçar o bem ” e o “dar limites “. Como funciona o “dar limites” na pedagogia Waldorf?
    Beijos e obrigada pelo blog. Adoro!

    • Obrigada pelo questionamento. Acho que sua pergunta tem muito cabimento aqui. A Bartira pode dar o ponto de vista dela como professora e autora do texto mas eu quero dar o meu também.
      As pessoas muitas vezes (quem não conhece a pedagogia) acham que Waldorf significa deixar fazer as crianças fazerem o que quiserem. E não é assim. Existe muita ordem, existe muita regra. Foi uma pedagogia criada em ambiente germânico. Não precisa falar mais nada, né? Só que eu entendo que o que ela fala de outra coisa, não é sobre não ter regras. Porque na vida as coisas não são excludentes. Quando eu escrevi o texto “Seu filho precisa mesmo ser tão feliz?” recebi várias críticas de pessoas me chamando de bruxa, porque uma mãe não pode querer que seu filho seja infeliz. Mas não foi nada disso que eu quis dizer. Não ficar o tempo todo fazendo tudo para que seu filho seja sempre feliz como se esse fosse o único objetivo da vida. Foi isso que quis dizer. E acho que o que esse texto agora diz é que criança quer a sua atenção. Então se você der muita atenção para as birras e mal comportamento, vai ser isso que seu filho vai aprender a fazer cada vez mais. E a vida de vocês vai ser só em cima do que é ruim. Nós somos os maestros dessa sinfonia de personalidades em casa e podemos direcionar para o bem. Um abraço, Cris

  5. Obrigada pela resposta, Chris.
    Eu não conheço muito sobre pedagogia Waldorf, mas sempre foi um assunto que chamou a minha atenção. Eu realmente tenho interesse em saber como a Waldorf lida com questões como autoridade, regras e obediência. Afinal são conceitos difíceis de serem transmitidos na medida certa na relação pais-filhos, na minha opinião. E para complicar ainda um pouco mais, são conceitos que podem variar dependendo da cultura. Tenho um filhinho de 3 anos que é a coisa mais doce e sensível do mundo (do meu mundo, pelo menos 😊). Sou brasileira, casada com um italiano e moramos na Suíça (país com mais regras que a própria Alemanha, na minha opinião). Equilibrar os conceitos de autoridade, regras e obediência respeitando três diferentes culturas, tem sido um desafio e tanto no meu papel de mãe.
    Enfim, feliz por ter lido este texto que me trouxe mais questionamentos e inspiração. Dicas de outros textos, livros etc e tal, são muito bem vindas.
    Beijos e obrigada. Maila

    • Oi Maila, existem vários livros do Rudolf Steiner e da Antroposofia que você pode recorrer. É só procurar em livrarias e ver o que encaixa melhor com o que está buscando. Tenho certeza que vai ganhar muito com isso. Como eu ganhei. Aí na Suíça existe muito conhecimento sobre a Antroposofia. Com certeza você pode encontrar até grupos de estudo. Eu pelo menos acho que é muito rico aprender em conjunto com outras pessoas. Os textos do Steiner são muito difíceis de ler.
      O que eu aprendi é que na escola Waldorf a orientação é que as crianças precisam de ordem, regras claras. A professora do Jardim (quando meu filho tinha 4 anos) me falou que achava que ele ia se beneficiar muito se eu fizesse um calendário com o que ele ia fazer cada dia da semana. Coisas simples como segunda: plantar, terça: chamar amigos para brincar em casa, quarta: fazer um bolo etc. E foi impressionante como ele ficou feliz, como ele se sentiu seguro simplesmente por saber que estava tudo controlado, sabe? No mais, vale sempre a intuição materna. Saber quando seu filho simplesmente precisa chorar, precisa ficar nervoso e tudo bem. Não dar bola para isso porque vai passar e não precisa ser amplificado com castigos e sermões. Só ignore. Mas nós mães precisamos cuidar da gente também. E se fazer o que é importante para o filho é muito válido, também precisamos saber que de vez em quando (pelo menos) podemos e devemos fazer o que é melhor para nós mesmas. Cuidar de nós é cuidar dos nossos filhos. Um abraço

    • Oi, Maila!
      Faço minhas as palavras da Cris. Criança geralmente quer atenção e se você dá nos momentos de birra, de comportamento ruim, ela tende a repetir. Então, cada mãe é única e cada filho também. E reforçar o bem depende da cultura onde se vive, sem dúvida alguma. Espero que você encontre o seu caminho, seguindo a sua intuição. Sobre limites, que tem tudo a ver com reforçar o Bem, já tô rascunhando outro. texto aqui, pra mandar pra Cris logo, logo.

  6. Eu acho que recebi a chamada desse post por umas três fontes diferentes, todas relacionadas à pedagogia Waldorf. Parabéns, esse blog está se tornando uma influência positiva entre os interessados no assunto.

  7. Sabedoria:

    “O mal não se combate. Reforça-se o Bem.”

    “Só por hoje, eu vou reforçar o Bem. Vou colocar a minha energia no que é positivo, no que pode dar certo, no que é belo e bom. E antes de dormir, vou me lembrar do que foi bom. Lembrar de tudo o que reforçou o lado Bem da minha vida neste dia.”

    Agora eh colocar em pratica por toda a vida.

  8. Bartira, parabéns pelo texto maravilhoso e verdadeiro! E vamos reforçar o bem sempre! Grande abraço querida!

  9. Obrigada Bartira pelo seu texto, palavras que me tocaram muito hoje, pois anda muito negativa em relação a tudo e perdendo as estribeiras facilmente. Quero muito reforçar o Bem, a partir de agora. Beijo meninas

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